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Livro - Mário Cláudio: ″Tintin jamais escreveria as suas memórias″

Livro - Mário Cláudio: ″Tintin jamais escreveria as suas memórias″

O escritor Mário Cláudio radicalizou o tema do seu novo livro e recriou alegadas biografias de heróis da banda: Corto Maltese, Bianca Castafiore e Príncipe Valente.

Não é a primeira vez que Mário Cláudio escreve memórias, afinal já inventou um poeta com princípio, meio e fim de vida, que foi Tiago Veiga, só palpável em livro. Desta vez, em Memórias Secretas, recria a biografia de três personagens de banda desenhada: Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente. E Tintin poderia ter sido recriado? O escritor diz que não: "Tintin jamais escreveria as suas memórias, e muito menos as secretas. Um eunucóide não tem vida sexual, pièce de résistance desse género literário." Um livro inesperado, até para o próprio autor.

Este livro é uma provocação aos leitores mais interessados em personagens da história verdadeira ou uma prenda para que regressem à adolescência?

Não vejo a história como um lugar de visita, ou de revisita, mas como um quotidiano contínuo. Por outro lado, torna-se-me cada vez mais difícil destrinçar as figuras reais das imaginadas, e confesso que me atrevo a ler nisso a autenticidade do romancista. Qualquer fronteira, aleatoriamente estabelecida, entre o hoje e o amanhã, ou entre a pessoa e a personagem, afigura-se-me uma espécie de violência, saudada por propagandistas da verdade racional, mas rejeitada pelos que têm mais em que pensar.

Pode-se acreditar que estas personagens de papel têm a espessura intelectual como as que lhes concedeu?

A espessura de uma pessoa inventada resulta da leitura que dela fizermos, na qual projetamos aquilo que somos, e as características objetivas do ser que imaginamos. Haverá quem se preste especialmente a essa operação: Corto Maltese, "um homem sem qualidades", e portanto suscetível de conter quanto nele quisermos despejar. Mas também Castafiore não deixará de participar da nossa fantasia urbana, e o Príncipe Valente, paladino teoricamente sans peur et sans reproche, dos anelos arrebatadores da adolescência de muitos de nós.

Foi suficiente a leitura das bandas desenhadas e o seu conhecimento ou necessitou de muito mais investigação?

O mais importante terá sido o risco que assumi: abraçar uma dimensão que habitualmente se estigmatiza. Quando se diz que um velho atravessa "a segunda infância", apouca-se simultaneamente a velhice e a meninice, como condições de baixo estatuto. E a maior parte dos velhos reagirá a essa tabuleta, rejeitando a infância a que fatalmente se torna: identifica-a como perda de vigor, e de lucidez, quando não de cidadania. Nos meus romances mais recentes, tenho--me debruçado sobre a velhice, colocando-a como um dos termos do diálogo intergeracional. Neste pretendi integrá-la, e isso apenas se revelaria possível se conseguisse abraçar, sem vergonha, a carga de infantilidade que lhe vai conexa. Creio ter sido razoavelmente corajoso.

Hugo Pratt aceitaria estas memórias?

Sim, aceitaria esta biografia, se pudesse lê-la em português. Qualquer achega interpretativa do seu herói constituía para ele, só por isso, uma bem-vinda interpretação da sua própria pessoa. Trata-se de um caso, ocorrível apenas na literatura maior: um autor que se confunde com o seu magno protagonista, o que realmente não será legítimo afirmar a propósito de Hergé com Tintin, ou de Harold Foster com o Príncipe Valente.

Foi um "estilo muito próximo do meu" que o seduziu nas memórias de Corto?

Também isso se integra no tal abraço. Eu não assumiria as memórias da minha adolescência, se não me apaixonasse por Corto Maltese, por Bianca Castafiore e pelo Príncipe Valente.

Como foi traduzir o "mau estilo" de Bianca Castafiore nas suas Memórias?

Castafiore encarna um mito tragicómico, não um sex symbol. O distanciamento mostrar-se-á aí, talvez, um pouco maior, mas sem anular o respeito alegre, e a compaixão cristã, que a senhora merece. Adora-se aquela mulher, como uma tia que nos leva ao McDonald"s, ou como uma diva que se presenteia com uma corbeille de flores, mas que irá alimentar, depois, uma série de anedotas: o excesso de peso, os caprichos da vedeta operática, ou os amores serôdios.

Era impossível não escarnecer de Mussolini no encontro de ambos?

Mussolini constitui o reverso negro de Bianca Castafiore: igualmente ridículo de empáfia, semelhantemente volumoso de proporções, e não muito diverso na terribilità mediterrânica. Mas Mussolini não faz rir, ou quando o faz, conduz a que o riso se nos gele nos lábios. Aquilo que possa ter de burlesco resultará, no meu texto, do contágio com a prima donna e dos excessos que ambos repartem entre si, sem se darem conta disso. O episódio das mamas de Bianca, gulosamente cobiçadas pelo Duce, foi um acaso que saudei com aquele gosto que experimenta um escritor, quando lhe salta ao bico da pena algo que o surpreende e o delicia.

Conseguiu apurar qual o bolo que mais encantou Castafiore: éclairs, babás, merengues ou duchesses?

Ela delirou com as duchesses, e isto numa época em que não era obrigatório ir aos pastéis de Belém. As duchesses deram-lhe certeiramente no goto, planturosas como poucas maravilhas da pastelaria, e proporcionadoras do êxtase da ulterior lambidela dos dedos.

Acha os escritos do Príncipe Valente num alfarrabista. Foi o mais importante que comprou numa dessas lojas?

Na Hall"s, em Tunbridge Wells, tenho adquirido muitos dos livros que conservo, e alguns deles de indiscutível raridade: uma obra de Ruskin, com autógrafo do grande ensaísta, uma primeira edição de Virginia Woolf, e outras, bastante infrequentes, dos maiores poetas ingleses do período romântico.

Cruza Valente com Rei Artur. É um período histórico que o atrai?

O Príncipe Valente é uma obra-prima da banda desenhada, e tão excelente pelas ilustrações como medíocre pelo texto. Vale sem dúvida uma revisita, se bem que a personagem deva estar hoje, muito justamente, no índice. Há uma cena em que o valentão aplica umas boas nalgadas à amantíssima esposa, verberando-lhe a frivolidade, e justificando-se com a circunstância de ser ele "quem põe o pão na mesa". Nada que não acontecesse no Minho, ou no Alentejo, apesar da ação morijeradora da Igreja Católica, e da pedagogia revolucionária do Movimento das Forças Armadas.

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