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EUA - Só pode ser hobby, porque negócio não é certamente

EUA - Só pode ser hobby, porque negócio não é certamente

A história de três amigos ou a forma como se vai alimentando a tradição tauromáquica na América

Não foi difícil encontrar a Martins Bros. Dairy Farms em Hilmar, no vale de São Joaquim. O rancho fica mesmo à beira da estrada e a dimensão do negócio não é propriamente discreta. Num terreno plano, vários armazéns, uma extensa zona coberta com diversos camiões com as cores da empresa e, um pouco afastada, uma das casas da família.

Ao fundo, os pavilhões onde as vacas aguardam a ordenha e um ou outro sinal dos hobbies dos irmãos Martins - os cavalos e os touros. O dia havia de acabar tarde, algumas dezenas de quilómetros mais a oeste, entre touros bravos à solta nos terrenos da ganadaria Pico dos Frades, de Manuel Sousa, um personagem que há de entrar mais tarde nesta história.

Jorge, o mais falador dos irmãos Martins naquela manhã, recebe-me à entrada do rancho, frente aos camiões. Deixo logo ali o meu carro, impróprio para o passeio que daremos mais tarde pela propriedade. São cerca de 120 hectares por onde vão pastando as vacas leiteiras - 2300 em produção de um total de mais de cinco mil cabeças, incluindo gado bravo e para produção de carne.

Já a bordo da enorme pick-up, Jorge começa a contar a sua história. É o mais novo de três irmãos, sócios fundadores do negócio. "Tinha cá uma tia, irmã da minha mãe, que fez a carta de chamada. O meu pai veio cá visitar em 1961, gostou muito e acabou por ficar por um ano. Regressou aos Açores e depois, em 1975, vendeu tudo o que lá tinha, o negócio - uma vacaria - e as duas casas, e veio para cá porque viu que aqui era uma terra de oportunidades". Basta uns minutos no rancho dos irmãos Martins para dar razão ao pai. "Sim, ele teve razão", diz Jorge, que acrescenta uma dimensão de sacrifício comum a muitas histórias de família aqui na Califórnia: "Ele nunca chegou a montar negócio aqui, sempre trabalhou para os outros, só para dar a mim e aos meus irmãos todas as condições. E nós montámos um negócio, esta vacaria, em 1991."

Os três irmãos nasceram em São Bartolomeu, uma freguesia rural do concelho de Angra, na ilha Terceira. Jorge ainda aqui chegou com idade para ir à escola, mas terminado o liceu foi trabalhar. "Quando saí do highschool fui para uma companhia de camiões, que recolhia o leite nas vacarias aqui da zona. Foi o que fiz durante 12 anos." É a explicação para tantos camiões à entrada do rancho. O transporte de leite, próprio e produzido por outros, é um dos negócios da família.

Seguimos na pick-up, passamos pelas vacarias, pelos pavilhões da ordenha e paramos ao lado dos picadeiros, um coberto e outro ao ar livre. É por ali que os irmãos se dedicam à sua paixão pela festa brava. Têm criação de touros de lide e de cavalos - puro-sangue lusitano. É à porta das cavalariças que encontro José, o mais velho dos irmãos Martins e sócio de Jorge. António, o irmão do meio, também fundador da empresa, decidiu separar-se e criar um negócio próprio de laticínios há uns dois anos.

A dimensão de tudo aquilo - ainda assim uma exploração média no vale de São Joaquim - é algo que ainda hoje é motivo de conversa entre os irmãos. Antes de deixarem os Açores, em 1973/74, a lavoura do pai tinha 25 vacas. Quando chegaram à América, José trabalhou numa leitaria de um açoriano de São Jorge que tinha 300 vacas. Questionavam-se na altura como era possível alguém ter tantas vacas, tanto sucesso. Essa história, agora, é quase anedota. Em 1992 fundaram a empresa com 160 vacas e há dois anos, antes da separação, José, António e Jorge tinham mais de sete mil vacas no rancho de Hilmar.

Touros na América

Subimos ao primeiro andar do edifício do picadeiro e das cavalariças. É o que por ali se costuma chamar de man cave, neste caso quase monotemática. A sala tem uma parede com enormes janelas e uma pequena varanda sobre o picadeiro coberto, as paredes estão completamente cobertas por cartazes de corridas e outros objetos ligados às touradas, há um bar ao fundo da sala, mesas de jogo e matraquilhos. Uma tertúlia tauromáquica... na Califórnia.

À parte a criação de touros e de cavalos de lide, Jorge e José Martins foram forcados até há uns anos. Jorge resume a ligação. "Tenho uma paixão muito grande pelos touros. Estive num grupo de forcados, os Amadores de Turlock, que é muito conhecido em Portugal. Já atuámos em cinco praças diferentes no continente - no Campo Pequeno estivemos três vezes e passámos também por Albufeira, pela Nazaré, por Tomar e Montegordo. Nos Açores já atuámos em todas as praças que lá há."

Até o tom da conversa mudou um pouco quando começou a falar dos touros e do relativamente recente negócio da coudelaria. Os olhos brilhavam. "Comecei com os cavalos no ano 2000, montei uma cavalariça e já tive aqui em casa a tourear com estes cavalos quase todos os cavaleiros portugueses... de Mouras a Caetanos, a Salvadores, a Fernandes... as figuras todas! E também já aqui tive em casa o Pablo Hermoso de Mendonza, que para mim é o melhor cavaleiro do mundo, sem tirar nada ao pai Moura, que foi um fenómeno durante trinta e tal anos."

Mas isto dos touros e dos cavalos é negócio ou apenas um entretém? Jorge Martins sorri. "A vender cavalos, nos últimos tempos, temos ganho mais qualquer coisa. Se for só para as corridas, como era antigamente, uma pessoa não ganha para as ferraduras. Como a gente pode, estamos a manter as tradições portuguesas." A fama do puro-sangue lusitano na Califórnia tem ajudado. "Nos últimos cinco ou seis anos, temos vendido muitos cavalos para dressage (adestramento, uma das três modalidades equestres olímpicas), têm saído daqui cavalos para o Canadá, para o Texas, para Boston... É um cavalo muito bonito, muito elegante, que toda a gente adora." Jorge conclui e responde à pergunta: "A ganadaria é mais um hobby do que outra coisa. A nossa vida aqui é mesmo as vacas e os camiões."

Descemos para ver os cavalos e chega Manuel Sousa, amigo dos irmãos Martins, ganadeiro e filho de ganadeiro. O convite chega depressa: "Vamos ver os touros ao Pico dos Padres?" Sem saber bem o que era o Pico dos Padres, respondi que sim e viajámos umas dezenas de milhas para oeste, para uma zona de colinas sem outros sinais de presença humana que não fossem as cercas que separavam as diferentes manadas. José Martins fez a viagem connosco, afinal boa parte dos touros no Pico dos Padres é dele, os dois partilham o rancho, com pastagens a perder de vista.

Manuel Sousa nasceu na Califórnia, naquela zona do vale de São Joaquim, há 61 anos. Cresceu numa família com tradição na produção de gado para engorda, para carne ,e o seu pai esteve ligado ao nascimento da tradição taurina na costa oeste dos Estados Unidos. A caminho do rancho foi explicando que "a vida dos touros" não é nada fácil na América. "Não é como em Portugal. Há poucas corridas, muitos ganadeiros... o trabalho de criar os touros não é difícil, já estamos acostumados a isto há mais de 40 anos, mas o negócio não é muito bom".

O negócio já viu dias melhores. Manuel Sousa conta que a carne está agora a preços muito baixos - um lamento semelhante ao dos irmãos Martins em relação ao preço do leite. Ainda assim, vai mantendo cerca de "400 vacas de engorda", que vão dando para viver e para alimentar aquilo que pouco mais é do que um hobby, a ganadaria.

Com um boné com o símbolo da ganadaria que nunca tirou da cabeça e óculos de sol também em permanência, Manuel Sousa conta que já vendeu touros de lide para o Canadá e para a Florida. Há uns anos, confessa com um sorriso, "até preparei um curro de touros para ver se os levava à ilha do meu pai, à Terceira, mas andámos, andámos e foi impossível. Não havia maneira de a gente chegar lá com eles". Burocracia? "Foi muita política. Muita papelada. O touro é um animal que quanto menos voltas dermos com ele melhor. Os touros tinham de ir daqui para a costa leste, fazer quarentena lá, depois tinham de ir para Lisboa, não podiam ir diretos para os Açores. E naquela altura a Europa não queria lá gado da América... na minha opinião, a América é que tem o gado mais limpo." "É política...", remata com um encolher de ombros.

A conversa correu no topo de uma colina, com touros bravos muito por perto. Tínhamos chegado ali a bordo de uma pequena pick-up, um ATV - pequenos veículos de trabalho, mais ou menos do tamanho de um carro de golfe e com motor a combustão. Tinha sido rápido e ágil o suficiente para escaparmos às más intenções de um touro com um problema numa pata, que estava separado da manada e que considerou que tínhamos passado demasiado perto do sítio onde descansava. Para um touro com um problema numa pata, como garantiam Manuel e José, corria que se fartava.

Manuel Sousa foi queixando-se do negócio, das decisões do governador da Califórnia - um democrata -, dos buracos na estrada e da falta de água no estado. Confessou que votou Trump e, no fim da conversa, o balanço pendeu para o positivo. "A vida dos touros não tem trazido muito dinheiro à gente, mas temos conhecido muitos amigos noutros países, tem sido uma vida alegre, com amigos..."

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