rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 18 mai 09:28

​O problema italiano

​O problema italiano

Uma coligação de populistas e de gente de extrema-direita pretende governar a Itália. Mas não é certo que o consiga.

Após longas negociações e hesitações, dois partidos preparam-se para governar Itália: o movimento populista 5 Estrelas (M5) e a Liga do Norte, que agora se chama apenas Liga, de extrema-direita. A fuga de um documento dessas negociações, publicado pelo “Huffington Post”, revelou que, num texto ainda não final, esses partidos admitiam a saída do euro e negociar – isto é, não pagar totalmente – a grande dívida pública italiana (mais de 130% do PIB), nomeadamente a devida ao Banco Central Europeu. Resultado: os juros da dívida pública italiana subiram no mercado secundário (dívida já emitida), para níveis bastante superiores aos da dívida do Estado português. Logo membros daqueles dois partidos vieram a público clamar contra a “conspiração” dos mercados contra a Itália. Certamente julgavam que os possuidores de dívida pública italiana ficariam muito contentes com a perspetiva de perderem parte do seu investimento.

Por isso o M5 e a Liga recuaram. Agora parece que já não querem um mecanismo para saírem do euro, talvez por terem percebido o que aconteceria às dividas contraídas em euros e que depois seriam pagas em moeda nacional – uma enorme subida do volume a pagar. Assim, decidiram não colocar em debate a saída da moeda única. Mas continuam muito hostis à integração europeia.

Outro ponto curioso, mas não inesperado, daquele texto de trabalho é a aproximação à Rússia de Putin, defendendo a retirada das sanções impostas pela UE. De tudo isto ressalta uma certa impreparação destes partidos de protesto para se tornarem partidos de governo, o que prejudica a credibilidade da Itália. E também prejudica as suas propostas de alterar regras comunitárias, desde a imigração até às normas da moeda única. A ideia será reformar por dentro a UE. Como vários comissários europeus reagiram, discordando das ideias apresentadas, dirigentes destas duas forças políticas acusaram-nos de “inaceitável interferência” e de “continuados ataques de eurocratas”.

Mas nada garante que uma coligação entre o M5 e a Liga venha a curto prazo a governar Itália. Ambos os partidos têm dito que só irão governar depois e se os seus apoiantes estiverem de acordo com o programa que irão apresentar. Como será feita essa consulta interna, não se sabe. Parece que o M5 se inclina para um referendo interno e a Liga prefere levar o assunto para manifestações de rua.

A hipótese de novas eleições continua, portanto, a ser provável. E para a vida comunitária talvez não seja negativo adiar o “problema italiano” para depois de resolvido, bem ou mal, o Brexit.

1
1