observador.ptFilomena Martins - 18 mai 07:13

Ferro Rodrigues, a política e Bruno de Carvalho

Ferro Rodrigues, a política e Bruno de Carvalho

Ferro queria ser o Teixeira dos Santos de Bruno de Carvalho. Falhada a traição, o presidente leonino manteve o seu PEC IV. Não tem (também) humildade para perceber os custos para o clube.

Os espanhóis usam uma expressão que ganhou uma conotação ainda mais negativa com o caso da violação nas festas de S. Firmino. Escolho, apenas por isso, uma mais suave. Rebanho. É assim que se tem comportado a política portuguesa nos últimos tempos. Se alguém diz mata, vem logo alguém a seguir dizer esfola. Aconteceu primeiro com o PS e Sócrates: depois do chefe falar, não houve cego que não passasse a ver o que antes só os mal intencionados viam. Voltou a acontecer agora com a violência contra a equipa do Sporting: depois das críticas presidenciais, não houve iluminado que não apontasse para a necessidade urgente de novas leis, a solução miraculosa de sempre.

É claro que o violento ataque a jogadores, treinadores e funcionários do Sporting na Academia em Alcochete é muito grave. É óbvio que este é um episódio que mancha a história do clube e do futebol português. Mas infelizmente não é o primeiro. E tenho muitas dúvidas que seja o último. Só assim de memória, e a minha nem é das melhores, recordo a morte do adepto, devido ao lançamento de um verylight, na final da Taça em 1996. O autocarro emboscado, e as agressões bárbaras à equipa de hóquei em patins do FC Porto, em 2000. A morte do sócio italiano do Sporting, atropelado por membros dos No Name Boys, há um ano. As constantes vandalizações de áreas de serviço e os episódios grotescos em cada época de futebol.

Claro que é sempre melhor mais tarde do que nunca. Que são de respeitar todos os actos de contrição.

Mas como é que um caso que inicialmente a secretária de Estado da Administração Interna e o secretário de Estado do Desporto consideraram um mero caso criminal se tornou de repente na causa política do momento? Foi porque Marcelo deu o pontapé de saída? Só agora António Costa, que até já tutelou a Administração Interna e é um adepto frequente dos estádios de futebol (sobretudo da tribuna VIP benfiquista, ao lado do ministro das Finanças), acha que estamos perante uma questão grave? Só depois de tanto tempo deu conta da necessidade de uma Autoridade Nacional contra a Violência no Desporto quando tem parada há um ano uma lei no mesmo sentido? E ainda não se lembrou de legislar contra a participação de políticos nos reality shows televisivos que misturam política, clubite e cenas hard core?

Mas a indignação mais chocante acabou por ser a de Ferro Rodrigues. Ferro pode e deve usar os Passos Perdidos para contestar de forma dura as graves agressões a jogadores do Sporting. Apenas já veio tarde. Ferro pode e deve falar no Parlamento sobre as suspeitas de corrupção no clube de que é sócio. Pena que nada tenha dito sobre outros casos semelhantes em investigação, como os que envolvem o Benfica. Que ainda não tenha falado dos processos dos jogos comprados no submundo das apostas desportivas, sobre as quais o Governo adia (convenientemente?) legislação. Que não se tivesse oposto à tradição das recepções eufóricas no Parlamento aos presidentes dos clubes. Que não veja nada eticamente reprovável nas viagens pagas em duplicado aos deputados da Madeira. Ou que nunca tenha sido tão veemente sobre as práticas de Sócrates para as quais só agora despertou.

Mas Ferro, a segunda figura da hierarquia nacional, eleito para o cargo da forma como todos sabemos, não pode ser um presidente da Assembleia da República-adepto. Atacar (de novo) a Comunicação Social, essa sua grande inimiga, é apenas caricato. Dizer que “é bom que as autoridades judiciais que investigam tanto os políticos, investiguem bem os dirigentes desportivos”, é o total descaramento. Criticar Bruno de Carvalho, ele que foi um dos notáveis que o apoiou, é apropriar-se do nobre posto e do nobre local para sacudir responsabilidades e portar-se como o adepto que costuma ir a Alvalade. Que não tenha aplicado a si próprio a máxima que defendeu durante anos, ‘à política o que é da política… à gestão do Sporting o que é da gestão do Sporting’. E que contribuísse ainda mais para a promiscuidade entre futebol e política.

Ferro queria ser o Teixeira dos Santos de Bruno de Carvalho. Não percebeu que não tinha qualquer poder para que a traição resultasse junto do presidente leonino. E que acabaria até humilhado e processado por ele.

Bruno de Carvalho, ao contrário de Sócrates, mantém para já o seu PEC IV. Não tem (também) humildade, e muito menos dimensão, para perceber os custos que a sua decisão trará ao clube: a rescisão unilateral de jogadores e treinadores que valem mais de 100 milhões, a necessidade de criar uma nova equipa de raiz sem dinheiro que muito dificilmente poderá lutar pelos primeiros lugares que ajudam o orçamento, a perda de patrocinadores que equilibram as contas, a fuga de acionistas que deixarão o Sporting à mercê de perder o controlo da SAD para um grande investidor internacional. Se nem Ricciardi ou Sobrinho conseguiram impor ao Sporting o resgate do presidente-sol, quanto mais o dr. Ferro.

Só mais duas ou três coisas
  • Quem tem bons amigos… E Relvas tem estado sempre rodeado de amigos providenciais. Por isso tem um novo emprego arranjado pelos dois sócios com quem tentou comprar o Banco Efisa. E vai trabalhar na República Democrática do Congo, junto ao do próprio Presidente Joseph Kabila. Aquele país onde José Veiga também refez fortuna até acabar… apanhado pela justiça.
  • O Parlamento aprovou finalmente a divulgação dos grandes devedores dos bancos que receberam ajudas do Estado. É o início do fim do sigilo bancário. Mas ainda preciso ver para acreditar a lista dos nomes. E sobretudo as explicações para que alguns deles tenham continuado a viver luxuosamente, a manter o seu património intocável e a exibir coleções de arte como suas.
  • “Personalização do poder, culto do chefe, populismo alarve, demagogia e agressividade verbal, ambiente intimidatório e procura de bodes expiatórios”. Seixas da Costa descrevia assim Bruno de Carvalho num tweet recente. Confesso que só percebi no fim a quem se dirigia. Inicialmente pensei que também ele tinha de repente entrado para o clube recente dos iluminados sobre o verdadeiro José Sócrates.
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