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“Não gosto de quaisquer nacionalistas, sejam eles alemães, turcos ou curdos”

“Não gosto de quaisquer nacionalistas, sejam eles alemães, turcos ou curdos”

Cem Özdemir ficou conhecido como o representante dos “outros 85%” depois de ter enfrentado no Bundestag a direção do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha, que ali representa 15% dos parlamentares alemães. Passou por Lisboa para participar no ciclo de conferências do Goethe Institut “Quo vadis, Europa?”, em cujo centro esteve a ameaça populista antieuropeia

Cem Özdemir, 52 anos, foi o primeiro deputado de origem turca a ser eleito, em 1994, para o Parlamento alemão e codirigiu, com Claudia Roth e Simone Peter, a Aliança '90/Verdes de 2008 até janeiro deste ano. Foi nessa qualidade que liderou a campanha dos Verdes para as eleições de 24 de setembro passado, cujo resultado atirou os maiores partidos alemães para meses de negociações em busca de um governo.

Ödzemir, que foi deputado europeu entre 2004 e 2009, defendeu os valores dos Verdes nas conversações para a formação da “Coligação Jamaica” (assim chamada por causa das cores da bandeira daquele país equivalerem às cores dos três partidos em questão: preto, da União CDU/CSU; amarelo, do FDP; e verde, dos Verdes) até os liberais do FDP abandonarem o projeto de governo que estava a ser desenhado.

Classificado pela rádio Deutsche Welle como “mestre em provocações calculadas”, Cem Özdemir seguiu com os Verdes para a oposição, consciente de que a Alemanha perdeu com isso a liderança europeia do combate às alterações climáticas.

Em fevereiro deste ano fez um discurso no Bundestag que o transformou de um dia para o outro no representante dos “outros 85%”. Ou seja, todos os que não pertencem aos 15% eleitos pelo partido de extrema-direita AfD, a cuja liderança declarou guerra.

Quando fez aquele discurso no Bundestag teve de se armar de coragem extra? Ou fê-lo como político exprimindo as suas ideias?
Não foi preciso coragem extra no sentido em que me tenha perguntado o que iria acontecer a seguir, se viria a sofrer ataques da extrema-direita porque desde que fui eleito pela primeira vez para o Bundestag, em 1994, tenho tido proteção policial quase permanente com algumas interrupções. Tive proteção por causa de ataques da extrema direita alemã e dos nacionalistas turcos. Fazem parte da descrição das minhas funções, se não se aguenta o calor é melhor sair da cozinha, como se diz. Mas é claro que no processo de preparação do discurso me lembrei de que o meu nome não é Hans, Eberhardt ou Gustav, é um nome de som tipicamente turco, lembrei-me de que não estava a falar como representante de uma minoria, mas enquanto representante de uma democracia liberal que é a Alemanha. Depois do discurso, e isto é uma coisa que não se consegue planear, tornei-me o porta-voz dos 85% de “outros” que disseram “Chega! Nós também cá estamos e vocês não representam a Alemanha”.

O que quis dizer aos líderes da AfD, que eles não defendem nem a Constituição nem os valores alemães?
Tive de passar pelo processo de pensar se tinha o direito de fazer aquele discurso. O que me encorajou foi saber que os meus colegas pensam, e com boa intenção, que se tratarmos os membros da AfD no Bundestag mais ou menos como colegas normais, elegendo-os como líderes de comité, a situação fica controlada… Eu conheço as regras e os regulamentos do Bundestag e acredito que não devemos tratá-los como colegas normais, porque eles não são colegas normais. Muitos deles são racistas, alguns dizem abertamente que questionam o que aconteceu entre 1933 e 1945. Pessoas que dizem isso não são meus colegas! Tenho de aceitá-los como membros do Parlamento porque foram eleitos, mas não são colegas normais. Por isso achei que era tempo de lhes dar uma resposta dura dizendo-lhes: “Vocês não são leais a este país, vocês são leais a Vladimir Putin!”. Essa foi talvez a parte mais importante do discurso, aquela que só pode ser dita por uma pessoa com os meus antecedentes turcos, para que ninguém possa duvidar que sou leal à Alemanha. E funcionou! O que foi um dos maiores cumprimentos que já recebi na vida.

George Friedman disse-me em entrevista a este jornal que é má ideia marginalizar grandes movimentos como a Alemanha está a fazer com a AfD. Condenava também a afirmação de que os eleitores não estão preparados para tomar pelo voto decisões tão importantes como o Brexit…
Não encontrará nenhuma palavra no meu discurso contra os eleitores, partilho dessa opinião. Sou muito crítico em relação a mim mesmo, faço parte daquele grupo de pessoas que dizem que voam sobre os EUA de costa a costa para se encontrarem com os seus amigos liberais, mas a verdade é que a outra metade do eleitorado do qual fazíamos troça está agora em Washington. E vinga-se. O mesmo acontece com o Brexit. Há um outro Reino Unido que infelizmente teve a maioria e a decisão deles conta, como vemos. Veja-se a decisão de Trump de retirar os EUA do Acordo de Paris para o clima. O Brexit vai enfraquecer a Europa no futuro. Goste-se ou não, não podemos dar-nos ao luxo de ignorar grande parte da nossa população, porque o tiro sai pela culatra. Sabemos que sempre houve uma parte da nossa sociedade que não é liberal, que é racista e antissemita. Não vou ficar igual a eles para os atrair, de modo nenhum, mas há também pessoas que se sentem excluídas do processo.

Quer dar um exemplo do que se passa na Alemanha?
Estive recentemente da Saxónia, onde a AfD é muito forte, e há lá pessoas que dizem coisas absolutamente inaceitáveis. Mas se ouvirmos com cuidado, percebemos que elas também dizem que na região deles deixa de haver transportes públicos assim que a escola fecha. E perguntam: Berlim não se interessa por nós? Estamos a falar da quarta maior economia mundial e esta é a situação! E dizem também que na Bulgária ou nalguns países africanos há internet mais rápida do que na Saxónia. Perguntam: Não sou alemão? Não interesso a Berlim? Como se pode justificar que o autor do atentado de Berlim tivesse várias identidades identificadas e não tivesse sido seguido? Nós somos eleitos para resolvermos os problemas dos cidadãos e temos de ouvi-los. Isto não se aplica à liderança da AfD e não estou a falar dos fundadores do partido, mas da AfD em 2018, que é um partido com membros que usam abertamente linguagem da época pré-1945. E não o escondem. Num comício da AfD (quarta-feira de cinzas) quando o meu nome foi mencionado todos gritaram “deportação! deportação!”. Sou membro do Bundestag eleito e acredito servir melhor o meu país do que aqueles que gritaram. A liderança da AfD está a atacar a nossa Constituição, os valores nucleares da Alemanha e aquilo que ela defende.

Levou seis meses e muita negociação até que a Alemanha conseguisse formar Governo após as eleições de setembro. As negociações, nas quais liderou os Verdes, culminaram na fórmula grande coligação, precisamente aquilo contra o qual os eleitores tinham votado. Como viveu o facto de uma parte do seu partido e dos seguidores dos Verdes estarem contra a participação do partido nas negociações?
O meu partido foi disciplinado, mas ficou claro que acabamos por ter de fazer compromissos alguns dos quais nos prejudicam mais tarde. Como não tenho maioria sou obrigado a fazer parcerias para formar governo, é dar e tomar. No fim, tem sempre de haver sintonia com a identidade própria. Coligar poderia virar-se contra nós, mas poderíamos ter alcançado muito em termos de combate às alterações climáticas, acabar com o consumo de carvão - o que não acontecerá sem nós -, como se vê com a grande coligação, a Alemanha teria voltado a ter a liderança na luta contra as alterações climáticas, o que também teria determinado alterações em Bruxelas. Poderíamos ter sugerido taxar o carbono. Imagina a diferença que isso faria na Europa? Infelizmente, os liberais escolheram abandonar as negociações... lamento mas não está nas minhas mãos. Depois disso há que ser justo, é bom que a Alemanha tenha um governo, o meu papel agora é na oposição.

Debateu-se na Alemanha a questão da comunicação com as pessoas que não seguem a AfD por ideologia, mas por estarem contra o sistema?
O debate está a fazer-se: como devemos falar de islamismo, de fundamentalismo, sobre coisas com as quais não concordamos, com comportamentos de pessoas que vieram para a Alemanha e são inaceitáveis relativamente aos direitos humanos, a direitos dos homossexuais… A minha posição é clara, vinda de um background diferente: conseguimos uma sociedade mais liberal depois de lutas com igrejas católicas. Eu sou a favor de direitos iguais para os muçulmanos, não lhes dou exceções. Se eles quiserem ser cidadãos felizes do meu país terão de aceitar a Constituição, a igualdade de direitos para homens e mulheres, a separação entre Estado e religião. Sem isto, não serão felizes na Alemanha e neste aspeto sou mais firme que alguns dos meus colegas de partido mais progressistas. Se não tratarmos nós destes assuntos, outros o farão com uma atitude racista e xenófoba. Eu sei bem como são os nacionalistas turcos, porque haveria de ser mais moderado em relação a eles do que em relação aos nacionalistas alemães? E o mesmo relativamente aos curdos... Não gosto de nenhuns nacionalistas, sejam eles alemães, turcos ou curdos.

Foto Sean Gallup / Getty Images

“Sabíamos que estas pessoas existiam”, disse. Talvez se tenha pensado que quando a defesa dos direitos civis ganhou força nos anos 60 e 70, que seriam conquistas para todos. No entanto, e como agora vemos, a extrema-direita manteve-se firme a sua excluir os outros.
Provavelmente será sempre assim. Mas faz diferença quando falamos em percentagens de 5% a 10% ou como nalgumas partes da Alemanha de Leste em que ultrapassam os 22%. A segunda questão é saber se o resto da sociedade e dos partidos tem uma estratégia para lidar com a direita da AfD ou se foram apanhados completamente desprevenidos. Ao ficarem nervosos podem inspirar-se na agenda deles e copiar a linguagem deles. É o que está a acontecer neste momento. Estávamos completamente desprevenidos porque nunca tivemos problemas destes além de experiências anterior ao nível dos Länder, onde estes partidos apareceram e desapareceram ao fim de um mandato, porque simplesmente explodiram. Agora é diferente, não param de se radicalizar.

Se tivesse sido uma estratégia da AfD teria resultado…
Mas não foi! Temos de enfrentá-lo: quase um milhão de refugiados foi um grande desafio para a Alemanha. A chanceler decidiu abrir as fronteiras num momento em que muitos alemães no leste do país já se sentiam esmagados pela reunificação. Isso e o abrir mão do marco alemão aconteceu sem que se tivessem dado explicações às pessoas receosas. Estamos a falar de um país que não tem muita experiência de acolher imigração e esquecemo-nos de perguntar como iríamos preparar estas pessoas para a vida na Alemanha. É uma discussão que está a acontecer agora e que deveria ter acontecido há décadas. Como podemos nós esperar que pessoas que vieram de regimes autoritários, ou regimes que são abertamente antissemitas, ficassem democratas ao fim de 24 horas? Estamos a pagar um preço alto e há quem não confie em nós. Para recuperar essa confiança temos de atacar o racismo aberto e ter uma política de tolerância zero à violência. Ao mesmo tempo, temos de ouvir as preocupações das pessoas porque toda a gente quer ter segurança.

É verdade que as pessoas a favor dos migrantes e refugiados não têm de viver com eles?
Somos muitas vezes hipócritas em relação ao nosso sistema escolar porque os ricos podem mandar os filhos para escolas privadas, mas os cidadãos normais estão nas escolas com os refugiadas. São eles que se perguntam o que isso significará nas futuras carreiras dos seus filhos. Temos de mudar isso se queremos ter uma política de integração que funcione. Precisamos de melhores escolas, de melhores jardins de infância, de melhores universidades, precisamos de duplicar o número de habitações para evitar competição.

O que mudaria na política de investimento na Alemanha se tivesse a pasta dos Assuntos Internos?
Infraestruturas, infraestruturas, infraestruturas, é o mais importante. A velocidade da internet na Alemanha é ridícula e não há razão para isso. Na Suíça os comboios são 100% elétricos. Na Alemanha só 61% e na Baviera 50%. Não há explicação para isto. Habituámo-nos a tomar as coisas por certas e que não haveria competição e não é verdade. Inventámos os carros, mas a próxima geração de carros não está a ser produzida na Alemanha, mas na China. O mesmo aconteceu com a digitalização, a Google, a Apple e a Amazon, nenhuma delas é alemã. Eu optaria por fazer como anunciou o Presidente de França, Emmanuel Macron, ter as melhores escolas nas zonas mais pobres. É disso que falo quando falo de infraestruturas. São investimentos de fundo que beneficiam o país e a Europa.

Gostaria de ter o seu comentário ao novo orçamento da União Europeia, que prevê mais dinheiro para proteger as fronteiras e menos para coesão. Schengen tornava a UE única.
Como cidadão alemão, se eu quero ganhar a batalha de não haver controlos de fronteira em permanência entre a Alemanha e a Dinamarca, a Áustria e todos os outros países, só convenço os meus cidadãos se lhes disser que vamos controlar as fronteiras europeias. Se não o fizer, perco a batalha.

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