sol.sapo.ptGonçalo Venâncio - 17 mai 17:03

A Política e a Inteligência Artificial

A Política e a Inteligência Artificial

Cinquenta por cento dos empregos atuais já estão a ser (e, se não estão, vão ser) severamente afetados pela tecnologia.

A grande intervenção pública da semana foi, na verdade, bastante básica. Não teve metáforas cativantes nem punch lines ou sequências rítmicas. Apenas meia dúzia de frases. Um diálogo corriqueiro ao telefone com um empregado de restaurante. «Bom dia, quero reservar mesa para quatro, por favor». Vulgar. Mas extraordinário. Não foi um humano a fazer a conversa. Foi um assistente de voz, o último grito em inteligência artificial do Google. Passou o teste: tal como os profissionais da conversação, também a máquina conseguiu persuadir o interlocutor – que nem por um segundo suspeitou da natureza mecânica do falante.

Amanhã os robôs serão capazes de colonizar os call centers ou substituir os empregados nos restaurantes – como já tomaram o lugar dos caixas nos supermercados. Os carros autónomos tornarão os motoristas redundantes e ameaçam a sobrevivência da poderosa indústria seguradora. Todo-poderosos algoritmos falharão menos do que os médicos no diagnóstico de doenças. E a edição genética mudará para sempre os pressupostos dos sistemas de saúde.
A tecnologia está a mudar a sociedade e o mundo do trabalho.

O próprio ‘emprego’ é vocábulo em vias de extinção. Na nova realidade económica e social, as pessoas têm tarefas e projetos, missões e objetivos. Os freelancers já são 36% da força de trabalho americana. Em dez anos serão a maioria. 

A automação, a digitalização e a massificação da inteligência artificial estão a reduzir drasticamente a necessidade de trabalho humano. Sendo verdade que um terço dos empregos criados nos Estados Unidos nos últimos anos foram registados em setores de atividade que não existiam anteriormente, é um erro pensar que o processo de automação criará salários generosos para cada posto de trabalho perdido. Isso pura e simplesmente não vai acontecer.

A pergunta óbvia é: o que vão fazer as pessoas? Nada. É o que dizem os crentes na economia pós-escassez. A automação cria uma economia mais produtiva e eficiente, o que permite a universalização de acesso a bens e serviços – possivelmente através de engenharias sociais como o rendimento básico universal. As pessoas podem trabalhar menos e aproveitar a vida. O futuro é um Estado social de lazer. Estes tecno-otimistas parecem ignorar questões filosóficas e antropológicas relevantes. As pessoas não trabalham apenas para pagar contas. O trabalho é parte da realização pessoal, do sentido de propósito e do contacto social com o outro. A escassez de emprego, mesmo com generosidade universal, soltará perigosos impulsos políticos. (Percebe-se o alcance se nos perguntarmos que incentivo tem o Estado para financiar a educação se, no fim do dia, as máquinas fazem o nosso trabalho?)

É a deixa para as visões mais pessimistas sobre o assunto. Como reduz a oferta de trabalho disponível, a automação induz uma competitividade selvagem entre indivíduos. Poucos controlam a tecnologia e os ganhos da nova revolução industrial. Muitos podem ser afetados por níveis de desigualdade sem precedentes. A pressão social sobre os sistemas democráticos pode ser insustentável. Durante a primeira revolução industrial as elites demoraram tempo demais a perceber o que se estava a passar. Passaram décadas até que as forças reformadoras imprimissem uma nova agenda de direitos e um novo tipo de Estado. Tempo suficiente para a emergência de ideologias totalitárias e revoluções sangrentas.
Voltando ao dia de hoje: ainda está para ser descoberto o primeiro político que se candidate sem a promessa de criar mais e melhores empregos ou proteção das indústrias tradicionais.

Este discurso tem muito de artificial. E pouco de inteligente.

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