sol.sapo.ptAfonso de Melo - 17 mai 15:05

À espera de Franque

À espera de Franque

Tom Jobim preferia ficar em Ipanema a ver passar as garotas do que ir ao Maracanã. Mas cantou sobre futebol

Parece que lá por 1967, Tom Jobim andava um bocado insatisfeito com a vida. Já passara pelos Estados Unidos e regressara ao Rio de Janeiro. Não compunha por aí além. Preferia estar com os amigos sempre no mesmo tasco deitando conversa fora. Um dia, ao chegar ao boteco, o dono avisou: «Ei, Tom, há um gringo aí que tem tentado ligar para você no telefone». Tom Jobim esticou as orelhas: «Um gringo? Quem é?». E o outro: «Não sei. Um tal de Franque...». Era Frank.Sinatra. Um mês depois estavam a gravar em Hollywood – Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim. Assim mesmo: António sem acento. Ou Antônio com acento. Escolham vocês.

A ideia geral é a de que Tom era um brasileiro diferente. Não apenas porque compunha músicas que quase todos sabemos de cor, mas sobretudo porque ligava pouco a essa paixão nacional que se chama futebol. Dizem alguns dos seus amigos que torcia pelo Fluminense, assim meio escondido, mas que preferia ficar por Ipanema a ver passar as garotas do que ir ao Maracanã. Isso não o impediu de escrever uma canção chamada ‘Falando de Amor’ e que, às tantas, ia assim: «Quando passas tão bonita/Nessa rua banhada de sol/Minha alma segue aflita/E eu me esqueço até do futebol». Lá está, por estas e por outras é que a sua alma aflita se sentava com os amigos no tal quiosque para o qual Frank lhe ligou.

Não sei se lá no íntimo, Tom esperaria por Sinatra. Houve uma certa desilusão que ele nunca negou durante a sua primeira tentativa de sucesso nos Estados Unidos. Sei que esperou por Frank num hotel de Los Angeles durante vários dias porque quando lá chegou Sinatra tinha partido à pressa para a Suíça atrás de Mia Farrow para remendar um furo no seu casamento que, aliás, duraria pouco.

Por sua vez, a ligação de Mia com a música não se reduziu aos dois anos de casamento com o  tal Francis Albert, natural de Hoboken, New Jersey.  A filha de Jane do Tarzan, Maureen O`Sullivan (uma das mais espampanantes ruivas da história da Humanidade), mas não de Johnny Weissmuller (o pai de Mia foi o realizador John Farrow, ainda era uma simples adolescente quando se candidatou ao papel de uma das filhas do severo Von Trapp de Música no Coração.

Não ficou com o papel e não foi filmada nos Alpes a correr como um cabrito ao som da voz de Julie Andrews. Mas a música ficou-lhe no coração. No dela e no da irmã Prudence que ainda arranjou uns sarilhos no seio dos Beatles quando estiveram juntos em Rishikesh, na Índia, no ano em que Mia se separou de Sinatra. John Lennon levou mesmo a paixoneta ao ponto de escrever Dear Prudence antes da mais velha das Farrows ter achado que o retiro espiritual era demasiado sossegado para o seu sistema nervoso e ter arrastado a mais nova à força de volta para a América.

Lembrei-me deste episódio da vida de Tom Jobim enquanto estava a ver um jogo de futebol em Alcácer do Sal e recordei como em Alcácer eram verdes os cavalos encarnados, como canta o meu querido Carlos Mendes que, não absolutamente por acaso, também interpretou uma música de Paul McCartney chamada ‘Penina’. 

Enfim, quando começo a recordar historietas elas vêm todas misturadas e nem sempre é fácil dar-lhes uma lógica capaz de as encaixar numa crónica, como é pornograficamente o caso desta.

Vi futebol em quase todos os lugares do mundo, do Irão à China, do Liechtenstein a Vila Real de Santo António, e ainda me recordo do Estádio dos Barreiros e do Bessa serem tão pelados como o velhinho campo de São Sebastião da Águeda da minha infância. Por muito que rebusque na memória, nunca tinha ido ao campo do Atlético Alcacerense e só lá fui, no último domingo, porque o meu amigo Nuno Esteves me foi buscar a casa para assistir ao vivo ao emocionante confronto frente ao Oriental Dragon, um clube de inspiração chinesa, a contar para a II Divisão do Distrital de Setúbal. 

Uma coisa fica prometida: voltarei mais vezes. Não porque tenha ficado fascinado com a qualidade da equipa local, muito esforçada, com um coração do tamanho do Sado, mas fraquinha de físico para um adversário tão corpulento, mas porque, tal como Tom Jobim, adotei uma simpatia  tranquila pelo Atlético tal como a dele pelo Fluminense.

O Tom recitava: «Se eu pudesse por um dia/Esse amor, essa alegria/Eu te juro, te daria/Se pudesse esse amor todo dia/Chega perto, vem sem medo/Chega mais meu coração/Vem ouvir esse segredo/Escondido num choro canção...». 
Dificilmente vivo sem futebol. A coisa mais importante das coisas menos importantes. Mas também não vivo sem música e sem literatura. Já quanto ao amor tenho dúvidas. Olho pela janela de minha casa que se estende sobre o rio e vejo o horizonte. Pouco importa o que fica para lá dele, Frank. «It´s only my way».
 

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