tribunaexpresso.pttribunaexpresso.pt - 17 mai 20:26

Desculpa, Eder

Desculpa, Eder

Que bonito seria se a mesma maçã caísse da mesma árvore, no mesmo sítio, e daqui por dois meses houvesse Eder, a contrato com um clube russo, a marcar o golo para dar a Portugal o Mundial organizado por russos. Mas Fernando Santos poupou-o às consequências de um eventual realinhamento dos planetas e, pela segunda prova seguida, a seleção nacional não terá o responsável pelo maior momento de alegria do futebol português

Não pode ser. Nós precisamos de ganhar e estamos à rasca, ele não.

Passaram seiscentos e setenta e seis dias, escrevo por extenso porque é um tempo com barbas, desde que este pensamento, arrisco, atravessou a cabeça da maioria dos portugueses que assistiam à final do jogo que nós bem sabemos, em Paris de França, a nossa capital emocional no futebol. A seleção à rasca, sem o capitão choroso e lesionado, os franceses a caírem em cima com o peso de um público caseiro, e o melhor que temos para usar é a personificação do trambolho, do cone e do pino.

Eder, nesse momento, era um aglomerar de analogias da bola pouco lisonjeiras: más receções de bola, maus toques na bola e gestos desengonçados. Eder sofria com esses e outros forçados estereótipos, sabe-se lá como, partilhados pela mente coletiva do adepto comum.

Há que pedir desculpa a Eder.

Nos 41 minutos em que passou por Paris, ele fez muito mais do que receber a bola de João Moutinho que, arrepiando caminho com um safanão em Koscielny, rematou-a sem antes olhar para a baliza onde rebentou a libertação futebolística de Portugal. Porque, fora o golo, Eder foi, sim, um aglomerar de receções de bola seguras, abono de faltas sofridas para a equipa respirar, passes para quem se aproximava de frente para o jogo e demais exigências feitas, por hábito, a um avançado forte como ele.

Eder, o mais improvável dos 23 potenciais heróis que a seleção nacional e, por arrasto, o país, poderiam descortinar em Paris, marcou o mais importante dos golos do futebol português. A figura sacudiu o gozo e mal-dizer, “foi o Eder que os f****”, mediatizou-se, e soubemos dos pais guineenses que, aos 3 anos, o largaram ao destino no Lar Girassol, em Coimbra, da mental coach que o acompanhou nas horas difíceis que só de vez em quando ficavam fáceis, de como ele pensou em desistir do futebol e da vida de tanto ouvir "pino", "poste" e "cone" e achar que estava a atrapalhar.

A história de Eder ultrapassou o próprio Eder.

O problema é que tanto antes, como depois de 10 de julho de 2016, raramente conseguiu juntar as qualidades que durante aquela hora, durante aqueles 41 minutos, fizeram dele o maior avançado do planeta.

Lars Baron

Há dois anos, fosse por culpa de lesões, momentos de forma ou poucos minutos de jogo, não existia um português, futebolista de profissão e especializado em golos, suficientemente convocável para Fernando Santos pensar em abdicar do Eder pré-Europeu. Há um ano, já havia André Silva e a série de provas comprovadas de que Cristiano Ronaldo impera na seleção se for uma espécie de avançado - e com o portista que joga no AC Milan a seu lado, tudo funciona melhor.

O Eder pós-Euro voltou a ser Eder, tão falível quanto pouco goleador, e não foi escolhido para ir à Taça das Confederações. Esta quinta-feira, soubemos que também não irá à Rússia para o Campeonato do Mundo - mesmo que de propósito, ou não, tenha feito a temporada no país onde a competição se vai jogar, tal e qual o fez em França antes de Portugal conquistar o Europeu francês. Como a coincidência forçou num futebolista o mito de ser um xamã cuja simples presença é sintoma divino de que as coisas vão acabar bem.

Ou como de onde vem uma coincidência, podem vir outras, porque também veio do banco e de Eder o golo que, há semanas, deu o título de campeão russo ao Lokomotiv de Moscovo. Foi apenas o quarto dele esta época - mas foi suficiente.

Divindades à parte, o selecionador disse, por altura das Confederações, estar preocupado com Eder por o querer como quer um filho. Fernando Santos sabia o que ele tinha aturado durante um ano, a ser assobiado, apupado e antagonizado com ofensas em qualquer estádio de França, onde continuou a jogar pelo Lille, não como futebolista, e sim como o tipo que roubara uma alegria aos adeptos de qual fosse o clube, porque em todo o adepto há alguém que torce antes ou nos entretantos pela seleção do seu país.

Que bonito seria se a mesma maçã caísse da mesma árvore, no mesmo sítio, e daqui por dois meses houvesse Eder, a contrato com um clube russo, a marcar o golo para dar a Portugal o Mundial organizado por russos. Também seria condená-lo a um infernizar de vida pior do que viveu em França, se continuasse a jogar num país racista e com adeptos de futebol patologicamente idiotas a reagir a futebolistas com cores de pele distintas.

Fernando Santos poupou-o às consequências desse improvável realinhamento dos planetas, da mesma forma que, naquele dia, Eder o poupou a alongar-se nas instruções antes de lançar o jogador na final: “Mister, não se preocupe que eu vou marcar”.

Eder bem que podia dizer, agora, para não nos preocuparmos, que tudo vai correr bem sem ele, como correu dentro dos mínimos (meias-finais) durante a Taça das Confederações. E que nos perdoa a todos por aceitarmos, pelas evidências da vida e do futebol, que fique de fora de uma seleção que não mais olhará para cima graças, para quem seja, devido a um golo. O golo do Eder.

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