sol.sapo.ptsol.sapo.pt - 17 mai 20:51

Uma morte que custa a engolir

Uma morte que custa a engolir

É verdadeiramente invulgar um corpo andar 17 horas no mar em equilíbrio instável em cima de uma prancha de surf.

Na quinta-feira da semana passada, um surfista de 43 anos desapareceu na praia de Carcavelos, na Linha do Estoril. Segundo as autoridades, o desaparecimento terá ocorrido entre as 18h30 e as 21h30. Ao fim da tarde, o homem telefonara à mulher dizendo que ia fazer surf e depois ligaria. Mas não ligou. Às 2h00 da madrugada a mulher deu o alerta do desaparecimento para a Polícia de Segurança Pública de Massamá. 

Horas mais tarde, aí pelas 5h00, o carro do homem era localizado num estacionamento que serve a dita praia, verificando-se que no seu interior só faltava a prancha e o fato de borracha. Concluiu-se, assim, que o indivíduo fora mesmo para a água. Às 5h19 a PSP informava da ocorrência o piquete da Polícia Marítima de Cascais. 

Mas estava escuro e não era possível fazer nada. Foi preciso esperar pelo alvorecer para enviar para o local um semirrígido e um helicóptero, que iniciaram as buscas com o apoio de uma lancha e do navio hidrográfico Gago Coutinho. Mais de seis horas depois, pelas 13h00, o corpo do homem foi avistado pelo helicóptero ao largo de Cascais, a cerca de 6 Km do local onde previsivelmente entrara na água, e 10 minutos mais tarde foi recolhido pelo semirrígido da Marinha. Estava deitado de bruços em cima da prancha, sem vida.

Muitas coisas nesta história são estranhas. Primeiro, o facto de o homem continuar em cima da prancha, supostamente muito tempo depois de ter desfalecido. O natural é que o movimento da água, as ondas que se fazem sentir ao largo, virassem a prancha e fizessem o corpo cair.

Depois, não é muito normal uma pessoa ir fazer surf ao fim da tarde nesta altura do ano. Se ainda fosse no Verão… Mas o que espanta mais é o tempo que a mulher levou para dar notícia do desaparecimento. Atualmente escurece por volta das 20h30. Era natural que a essa hora o homem já estivesse fora de água ou a sair dela. Ninguém anda a praticar surf às escuras. Ora a mulher esperou quase 6 horas para informar a Polícia do desaparecimento do marido.

Porquê?

Foi também estranhíssimo o tempo que a Polícia de Massamá demorou a passar a informação à Polícia Marítima de Cascais: 3 horas e vinte minutos. No total, foram mais de 9 horas entre o suposto desaparecimento do surfista, por alturas do escurecer, e o momento em que a Polícia de Cascais tomou conta da ocorrência. E, ainda por cima, esta só iniciaria as buscas algum tempo depois, porque teve de esperar pelo nascer do Sol.

Foi tempo demais, que urge explicar. 

Estando o corpo do homem em cima da prancha, não morreu afogado. E tendo o fato de borracha vestido, estava preparado para resistir ao frio. Assim, o mais provável é que se tenha sentido mal, se tenha depois deitado sobre a prancha, e ali tenha ficado à espera de socorro. E ninguém o socorreu.

Há situações em que todos os minutos contam. Em que um minuto pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Ora, nesta história, todos parecem ter agido como se os minutos não contassem – ou, mesmo, como se as horas não contassem. Laissez faire, laissez passer. 

A mulher terá tido com certeza as suas razões para não dar logo notícia do desaparecimento do marido depois de escurecer. Mas, se o tivesse feito, talvez ele pudesse ter sido encontrado com vida.

A Polícia de Massamá terá tido com certeza as suas razões para não informar imediatamente a Polícia Marítima de Cascais do desaparecimento do homem. Mas, se o tivesse feito, talvez ele tivesse sido encontrado com vida.

Quanto à Polícia de Cascais, é verdade que não podia enviar um helicóptero antes do alvorecer. Mas não seria possível enviar uma lancha munida de um holofote para fazer buscas à superfície da água no perímetro onde era previsível poder estar o surfista? Se o fizesse, talvez tivesse encontrado o homem ainda com vida.

Todas as mortes são de lamentar. As mortes por acidente de pessoas ainda relativamente jovens ainda são mais lastimáveis. Mas esta é uma morte que custa muito a engolir. O surfista pode ter andado horas em cima da prancha na esperança de um socorro que não chegou.

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