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Sakris Kupila, transgénero finlandês: “Tornar pública a minha história fez-me crescer. Já não luto só por mim”

Sakris Kupila, transgénero finlandês: “Tornar pública a minha história fez-me crescer. Já não luto só por mim”

Sakris Kupila veio a Portugal falar sobre identidade de género e defender os direitos das pessoas transgénero. Na Finlândia, de onde é natural, a lei só lhe permite passar legalmente a ser reconhecido como homem se fizer uma cirurgia de esterilização, o que o revolta. “É uma violência. Está em causa uma violação dos direitos humanos”

Nos últimos seis anos, a vida de Sakris Kupila mudou muito. Muito mesmo. Lutar por uma causa foi, em parte, uma mudança planeada, mas o caminho que a defesa dos direitos dos trangéneros lhe trouxe teve impactos que não podia adivinhar. Aos 22 anos, a sua mágoa é que, pelo contrário, nessa matéria e desde que decidiu chamar a atenção para uma lei que considera violar direitos básicos, nada se alterou no seu país de origem, a Finlândia.

“As razões que me fizeram dar o primeiro passo foram, provavelmente, egoístas e resultaram do desejo de resolver o meu problema. Mas tornar pública a minha história fez-me crescer, o sentimento inicial transformou-se e hoje já não luto só por mim, mas pelos direitos de todos os que passam pelo mesmo. Percebi que esta é uma questão de direitos humanos.” O estudante de medicina, atualmente a residir em Helsínquia, acentua a declaração com um aceno de firmeza, que depois aligeira com um sorriso, para explicar que se sente “muito menos sozinho” desde que encontrou organizações como a Amnistia Internacional.

Na essência, a sua é uma questão muito básica. Sakris nasceu rapariga - isso continua a constar nos seus documentos de identificação - mas não é este o seu género. Sakris percebeu e assumiu desde os 16 anos que é um rapaz, mas para que os outros o reconheçam oficialmente como tal não está disposto a fazer uma cirurgia de esterilização, precisamente aquilo a que o Estado finlandês o obriga para autorizar legalmente a mudança de ‘feminino’ para ‘masculino’.

Da pacatez e conservadorismo da sua terra natal, onde a estranheza foi a menor das reações provocada ao expressar a sua diferença, passou quase naturalmente para os cenários que agora percorre, internacionalmente, para contar a sua história, desfazendo mitos e explicando porque este é um assunto que a todos deve envolver. “Aprendi depressa. Conhecer a palavra transgénero foi primeiro uma novidade. Então é isto que sou? Não admira as dificuldades por que passei ao crescer... Mas o que era assustador e até perigoso - não ousava dizer o que se passava comigo - passou a fazer sentido. Percebi por onde podia começar, integrando uma associação de defesa dos direitos LGBT, e daí cheguei à Amnistia da Finlândia e à campanha global em que agora participo.”

Processo “muito burocrático” e cheio de incertezas

Neste seu percurso, o que é mais comum encontrar é “gente surpreendida”. “As pessoas não imaginam que na Finlândia exista um problema como este. Têm a ideia de um país perfeito e ficam mesmo muito admiradas que exista uma questão de desrespeito pelos direitos humanos”, diz Sakris Kupila ao Expresso, numa entrevista dada na sede da Amnistia Internacional Portugal, em Lisboa.

O que está em causa é um processo que “não é apenas burocrático”, diz Sakris Kupila. É uma jornada cheia de incertezas a cada passo. Começa aos 18 anos, “com uma série de avaliações clínicas e psiquiátricas, onde tudo é questionado: a saúde mental, as roupas que se usam...” Ao fim de um ano, o indivíduo é avaliado, sendo necessárias duas opiniões. Se o diagnóstico permite que o processo avance, surge a terapia hormonal, que muitas vezes leva a que a pessoa se torne estéril. Poderá então requisitar a mudança legal de género.

No caso de Sakris, a medicação não o tornou estéril, pelo que só fazendo a cirurgia para a remoção do útero poderá concluir o processo de mudança de género. “É uma violência”, insiste, “porque não se trata de querer ou não ter filhos, de querer ou não constituir família. É o meu corpo e tenho direito à minha integridade física, o Estado não me pode exigir uma coisa destas”.

A Finlândia é o único país nórdico a manter esta legislação. “As coisas têm de mudar. Há ainda muita informação errada, desconhecimento, o que não ajuda. Agora os media já abordam mais o tema, mas os governantes continuam a fugir da questão e a não permitir que a lei caia. Por preguiça, medo, por estarem, se calhar, ainda muito presos aos seus próprios preconceitos e valores culturais ou religiosos... Mas o que está em causa é respeitar os direitos mais básicos. Permitir que os transgéneros sejam cidadãos como qualquer outros, iguais”, conclui Sakris.

Sobre o recente veto em Portugal à lei que permitia a mudança legal de género aos 16 anos sem declaração médica, o finlandês deixa apenas uma mensagem: “Que os governantes ouçam a vontade das pessoas e confiem em quem sabe, tendo a coragem de promover a mudança, mesmo quando esta contraria as suas crenças”.

Em Portugal até domingo e depois de ter passado por Leiria, Sakris Kupila participará numa nova conferência sobre identidade de género em Viseu, esta sexta-feira.

Regressa depois a Helsínquia, onde tem agora “uma boa vida”. Por “viver num ambiente mais seguro” e menos hostil, quando comparado com o lugar onde cresceu, e por conseguir “conciliar” tudo o que o faz feliz. “Vivo com a minha mulher, arranjo tempo para as coisas normais como estar com os amigos e jogar videojogos’”, encarando o ativismo “como um emprego”, explica. “Não o posso viver 24 horas por dia, sete dias por semana, ou enlouqueceria. Viajo uma vez por mês, para participar nestas conferências e continuar a defender a causa, mas arranjo tempo para tratar das minhas plantas e dedicar-me ao meu curso”. Tem confiança, “muita confiança no futuro”. “As coisas podem demorar, mas vamos chegar lá. Sei que estamos no caminho certo.”

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