www.sabado.ptFlash - 17 mai 05:30

Portugal tem um grave problema de corrupção?

Portugal tem um grave problema de corrupção?

Ao ouvir o Presidente da República a falar sobre o problema da corrupção dá vontade de lhe perguntar se é para mudar ou para continuar a hipocrisia que tem marcado este debate. É que se não for para mudar já basta assim como está

O País político descobriu outra vez o problema da corrupção. De vez em quando acontece... Portugal terá mesmo um grave problema de corrupção? Se utilizarmos os índices da organização não governamental Transparência Internacional ou as palavras de especialistas do Banco Mundial, em particular os estudos de Daniel Kaufman, que nos dizem que Portugal poderia ter um nível de desenvolvimento parecido com o da Finlândia não fosse a corrupção, é óbvio que a resposta só pode ser uma: sim, Portugal tem um grave problema de corrupção.

Se fosse estudada a relação das crises económicas que vivemos de 2000 em diante com os vários ciclos de esbanjamento e impunidade vividos em momentos historicamente datados – desvio de fundos comunitários, derrapagem nas obras públicas, evasão fiscal, facturas falsas –, talvez chegássemos à conclusão, segura e rigorosa, de que a corrupção é elevada.

Todavia, para entendermos os níveis de corrupção no País não é preciso tanta sofisticação científica. Basta a simples equação, para quem quiser olhar com olhos de ver, de que no universo político e de um certo tipo de altos cargos públicos há fenómenos de enriquecimento que, sem serem meteóricos ou astronómicos na sua aparência, reflectem a impossibilidade objectiva de terem acontecido com os salários auferidos na política e na administração pública.

Não havendo heranças, nem ganhos na Bolsa, nem fortunas que se trazem de uma vida anterior à da política (coisa que há cada vez menos porque muitos dos nossos políticos não têm uma vida profissional anterior) não é possível ter apartamentos e moradias de milhões de euros nem segundas e terceiras casas de idêntico valor no Algarve, no Brasil ou em outros pontos do globo de temperaturas mais amenas.

A construção de um discurso sobre a corrupção a partir deste tipo de padrões de vida poderá parecer pindérica, mas o que vimos em alguns dos processos investigados nos últimos 30 anos mostra que não é. Ela é real e mostra-se nessa exuberância exibicionista. Ela representa também tudo o que historicamente bloqueia a possibilidade de muitos portugueses terem uma vida decente ou mesmo saírem do limiar da pobreza. Precisamente porque uma das consequências da corrupção é o estilhaçar da igualdade de oportunidades. Ou ainda, citando a magistrada Eva Joly, que trabalhou em alguns dos casos de corrupção internacional mais relevantes, é por este crime que se "cavam buracos no Estado de direito, essa obra sempre inacabada e incompleta".

A corrupção foi-se instalando aos poucos e o maior sintoma da sua expressão está precisamente na enorme opacidade que a tem caracterizado. Os números não têm, desde logo, a menor correspondência com a percepção difusa que a opinião pública tem do problema. A constatação da importância deste crime e da sua real expressão está também à vista, desde logo, na enorme delicadeza com que o poder político a tem encarado ao longo dos anos.

Muitas declarações de intenções, muitas e inflamadas proclamações de princípios mas as regras do jogo foram sempre desenhadas pela força de uma imensa maioria silenciosa de legisladores e facilitadores que bloqueou o mais possível a dotação de meios para as polícias e para o Ministério Público, que atrasou ou empastelou leis, que distribuiu influências e favores para comprar cumplicidades nos lugares certos. Foi sempre tudo arrancado a ferros. Ao ouvir o Presidente da República a falar sobre o assunto dá vontade de lhe perguntar: É para mudar ou para continuar pelo mesmo caminho? É que se for para continuar pelo mesmo caminho já basta assim.

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