expresso.sapo.ptexpresso.sapo.pt - 17 mai 21:54

Um ano depois, estamos mais perto de saber se houve ou não contactos entre Trump e os russos?

Um ano depois, estamos mais perto de saber se houve ou não contactos entre Trump e os russos?

A 17 de maio de 2017, Robert Mueller foi indicado para investigar as alegadas ligações da equipa de campanha de Donald Trump a cidadãos russos com ligações ao Kremlin e de que forma essas ligações podem ter influenciado o resultado das eleições. Até agora, Mueller conseguiu comprar uma guerra com Trump mas, no processo, atingiu outras metas: 22 pessoas e empresas já foram indicadas por crimes, cinco consideraram-se culpadas e uma está a cumprir pena. Falta o interrogatório ao próprio Presidente, que ele não tem de aceitar

“Parabéns, América, entrámos no segundo ano da maior caça às bruxas da História.” Foi assim que o Presidente dos Estados Unidos acordou os seus mais de 30 milhões de seguidores no Twitter, como uma celebração irónica do primeiro aniversário da investigação que Robert Mueller está a conduzir às alegadas ligações da equipa de campanha de Trump a cidadãos russos próximos do Kremlin. Desde 2017, Trump utilizou 39 vezes o termo “caça às bruxas” como qualificativo da investigação de Mueller.

A 17 de maio de 2017, o procurador-geral Rod Rosenstein elegeu Robert Mueller, que durante mais de dez anos dirigiu o FBI, para investigar “qualquer ligação ou coordenação entre o governo russo e quaisquer elementos ligados à campanha de Donald Trump” e “indiciar por crimes federais se algum surgir no decorrer da investigação a estas questões”. Um ano passado, Mueller tem nos apoiantes de Trump os seus principais inimigos. Já sem fazerem disso um segredo, tanto o Presidente como o seu vice, Mike Pence, querem que a investigação seja fechada o mais rapidamente possível e pedem-no em entrevistas, nas redes sociais, em comícios.

Numa entrevista com a NBC no início de maio, Pence disse mesmo que “é mais do que tempo de arrumarmos isto e irmos para casa”. Antes de Trump - e desde Nixon e todos sabemos como isso correu bem para ele -, as paredes que separam a Sala Oval dos Tribunais eram vistas como divisórias robustas, resistentes a pressões mas Donald Trump concorreu numa plataforma de desprezo pelo “establishment”, pelo status quo e pelo sacrossanto e, nesse aspecto, é difícil argumentar que ninguém sabia o que aí vinha. Mueller sabia e não mostra sinais de estar pronto a desistir. Pegou na investigação depois de Trump ter despedido James Comey, o ex-diretor do FBI que alegadamente se negou a prometer-lhe lealdade.

Desde que iniciou esta investigação, Mueller e a sua equipa já entrevistaram dezenas de testemunhas, acusaram 19 indivíduos e três empresas, conseguiram cinco confissões, há dois casos a caminho do tribunal e uma pessoa já está na prisão. Mas a empreitada prossegue - há mais testemunhas a falar e há mais julgamentos marcados para o final deste ano. Entretanto há também uma a quem Mueller quer perguntar cerca de 50 coisas, mas que não tem de lhe responder: o próprio Presidente. Pode parecer que tudo se passa à volta de Trump - com o seu filho, Trump Jr., que alegadamente aceitou reunir-se com russos que pudessem ter informação danosa contra Hillary Clinton, com o seu ex-diretor de campanha, Paul Manafort, com os seus conselheiros, com os seus assessores -, mas é o Presidente que está no olho do furacão porque, dependendo do que Mueller entregue à Procuradoria, Trump pode ser acusado de obstrução à justiça.

Uma das linhas que Mueller está a seguir é a de tentar entender se, em algum momento, Trump tentou utilizar o seu poder como Presidente para obstruir o curso da investigação. Um dos episódios que mais suspeitas levantou entre os críticos de Trump foi quando ele tentou pressionar Jeff Sessions, procurador-geral, a afastar-se. Se Sessions tivesse saído, Trump podia ter escolhido alguém que não tivesse como prioridade a investigação às alegadas ligações entre a sua equipa e os russos. Um outro é a demissão de James Comey, ex-diretor do FBI, que recentemente lançou um livro ("Uma Lealdade Superior: Verdade, Mentira e Liderança") que destrói completamente as capacidades de Donald Trump para liderar os Estados Unidos.

Segundo conta o “New York Times”, uma parte da investigação de Mueller tem passado por perguntar a outros membros da Casa Branca como é que Trump decidiu despedir Comey. A ideia é comparar esta resposta com a informação que tem recolhido. Os críticos de Trump dizem que ele queria simplesmente alguém que parasse as investigações decorrentes das suspeitas de que responsáveis da sua campanha poderiam ter relações demasiado próximas com russos para tentar encontrar formas de virar a eleição a seu favor.

Trump, porém, não tem de responder a nenhuma destas perguntas. No início de maio, um dos seus principais advogados, o ex-mayor de Nova Iorque Rudy Giuliani, disse que não podia abandonar por completo a ideia de que o Presidente viesse a defender-se com a 5º emenda, aquela que protege um cidadão de se incriminar a ele próprio e que o Presidente “não tinha que acatar nenhum mandado para depor”.

Michael Flynn, o primeiro conselheiro para a segurança nacional de Trump, é um dos acusados que já admitiu culpa em ter mentido aos agentes do FBI quando foi primeiramente questionado sobre as suas reuniões com russos e ofereceu “informação incompleta” sobre as suas conversas com o embaixador russo nos Estados Unidos. Flynn ficou conhecido por ser o catalisador de uma onda de raiva contra Hillary Clinton, já que era ele, entre os apoiantes de Trump, quem mais usava o termo “prendam-na!”, um grito de guerra comum dos comícios do agora Presidente.

Rick Gates, outro membro da equipa de Trump e parceiro de negócios de Paul Manafort, também admitiu ter mentido ao FBI e conspirar contra os Estados Unidos. É uma das testemunhas principais de Mueller, com quem já concordou cooperar “completamente, verdadeiramente, incondicionalmente e com a maior celeridade” como parte de um acordo para a eventual atenuação da sentença.No total, todos os nomes até agora indicados enfrentam 75 acusações, que vão de conspiração contra os Estados Unidos até à fraude e falsificação de identidade, passando por recusa em cooperar com as autoridades.

Hostilidades abertas há um ano

A CNN contou o número de vezes que Trump se referiu à investigação de Mueller como uma “caça às bruxas”. São 39. Isto apenas no Twitter. Além disso, a ABC escreveu um artigo em que cita fontes próximas da Casa Branca que garantem não ser a primeira vez que ouvem Trump “atirar para o ar a ideia” de despedir Mueller ou mesmo o seu supervisor, o procurador encarregado de todo o caso, Rod Rosenstein. Nem quando confrontado com os jornalistas sobre o assunto Trump nega diretamente que não esteja a pensar nisso.

A Casa Branca garante estar a cooperar com a investigação e diz que já entregou a Mueller 20 mil páginas de documentos para o ajudar. A campanha de Trump terá entregue adicionalmente um milhão de documentos. Além disso, cerca de 20 membros da equipa atual de Trump na Casa Branca aceitaram ser entrevistados por Mueller. O próprio Trump disse que “adorava falar com Mueller” mas apenas se fosse tratado com justiça.

A investigação já consumiu ao orçamento federal cerca de 7 milhões de dólares, de acordo com informação pública sobre os gastos do governo. A equipa de Mueller terá gasto 3,2 milhões. Quando não é “Caça às bruxas”, costuma ser por “a investigação dos 10 milhões” que Trump se refere ao trabalho do investigador especial. Este investigador especial em particular é possível que já tenha passado por pior. Serviu na Guerra do Vietname, onde ficou ferido com gravidade. Chegou a diretor do FBI uma semana antes do 11 de Setembro.

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