www.vidaeconomica.ptvidaeconomica.pt - 17 mai 21:07

“Irmãos Kennedy”: a história repete-se

“Irmãos Kennedy”: a história repete-se

Esta série de 4 livros, de David Talbot, mostra a gigainvestigação que o jornalista/autor realizou. Ele tornou-se ídolo ao publicar “Salon”, um jornal na net, quase sem publicidade, para garantir sua liberdade editorial. O viral da sua investigação levou outros mídia a seguir o seu trabalho de denunciar os senadores que travaram as reformas de Clinton.
Com centenas de referências bibliográficas o livro prova a ingerência da máfia e de poderosos grupos, alguns ligados a ela, alguns próximos ao governo Kennedy; tudo faziam para impedi-lo de democratizar o país e atingir a paz mundial. Vê-se hoje a força desses grupos, já com efeito real.
Após anos de esforços, o Senado constituiu uma Comissão para investigar a Máfia de N. Iorque, em 1959. Bob Kennedy, com muita emoção, fez questões a 1500 testemunhas. Ganhou fama mundial ao dizer “O senhor Hoffa (Máfia) disse que todos os homens têm um preço. Este país não pode sobreviver com gente como ele. Ele não há-de-triunfar”, p. 67. Em 15 anos vi só uma deputada conseguir “incomodar” os DDT, com sua competência juro-económica na AR.
Lá como cá e em Bruxelas, assessores muito próximos a ministros e não só mentem. Ex: “Os homens da CIA garantiram a Kennedy que as conspirações com a Máfia tenham terminado… na mesma altura… o homem de ponta da CIA…  entregava cápsulas de veneno… para eliminar o líder cubano”, volume 2, p. 8. Fica óbvio que com frequência quem detém o cargo não manda. “McCone (chefe da CIA) estava fora do baralho, Dick Helms é que governava a agência”, p. 10.
Lá como cá encenam ou deixam ocorrer factos chocantes para justificar o aumento do orçamento para equipamentos que algum lobby queira empurrar. Em 13/3/62 um memorando secreto dos mais altos comandantes militares pressionou o Governo a encenar incidentes para poder invadir Cuba. “Entre eles contava-se a simulação de ataques à base de Guantánamo”, p. 32. Aqui, apesar dos alertas há 3 anos, deixaram ocorrer a tragédia de Pedrógão para justificar mais aviões, em vez de drones a evitar ignições.
Harvey (CIA), em depoimento ao Senado, confessou ter dado todo apoio necessário ao mafioso Rosselli, ligado à poderosa indústria fruteira na Guatemala. “Harvey parecia mais o advogado do velho amigo da Máfia do que um funcionário de topo” da CIA, p. 36.
Lá como cá, muitos que mandam não aparecem e de modo muito perspicaz levam ministros a pensar que é o realista. Hoover, chefe da CIA, investigava a vida privada de Bob e Jack Kennedy. Esses pensavam que “o conseguíamos controlar, que estávamos no comando”, p. 80.
Fake news são usadas há décadas para servir os poderosos por jornalistas sem tempo ou escrúpulos. Um alto funcionário da campanha de Lyndon Johnson, que perdeu a disputa com Kennedy, teria espalhado que os irmãos eram maricas. Às vezes a verdade é travada. Nas págs 81 e 82 o autor descreve as ameaças às produtoras de cinema que queriam filmar o livro The Enemy Within, que descreve o reinado da Máfia.
Bob McNamara, ministro da defesa de Kennedy, disse numa conferência que nunca antes o mundo esteve tão perto de um conflito nuclear como no caso do bloqueio americano à Cuba. “O Almirante Anderson… desafiou McNamara no centro de comando do Pentágono e… comunicou ao seu patrão civil que não precisava dos seus conselhos para gerir um bloqueio”, p. 109.
O volume 3 foca mais a era pós-assassinato do Presidente. Na p. 35 cita as escutas na casa de Mary Meyer, em Georgetown, que alegadamente seria amante de Jack. O assassinato dela, com uma bala na cabeça e outra no coração, não levou ninguém à prisão. Ela sabia dos conluios ilegais de muitas corporações. McNamara teria dito que Kennedy, “sob pressão de generais, funcionários da CIA, falcões do Congresso e dos seus próprios conselheiros… desatou vezes sem conta os nós da guerra”, p. 60.
Se o governo Kennedy foi considerado um dos mais democráticos de sempre, o que temos agora?
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