visao.sapo.ptCapicua - 17 mai 08:16

Bolhão

Bolhão

Flores à entrada e dezenas de fotografias penduradas, com os nomes e rostos das mulheres que fazem do Bolhão o templo da mulher tripeira

Luc\303\255lia Monteiro

Passei na loja das sementes para comprar coisas para a minha horta. Uma dúzia de mudas de pepino, mais meia dúzia de tomate coração-de-boi, uns morangueiros, uma rede para guiar o maracujá e umas luvas novas. Enquanto esperava que me atendessem ouvi dizer que já estava tudo pronto para a mudança. Na próxima semana já estariam no espaço novo. As senhoras na fila devidamente avisadas despediam-se, habituando-se à ideia. Na loja ao lado repetiu-se o aviso. Fui comprar um tapete para a cozinha e o senhor logo me informou que já estavam de partida, e que da próxima vez teria de procurá-lo no espaço novo. Ali bem perto. No centro comercial.

Tantos anos a ouvir falar em obras e finalmente tinha chegado a hora. O Bolhão de mudanças para o quarteirão acima, para que se restaure o edifício. E depois das décadas, dos andaimes, dos recuos, das ameaças, era surpreendente sentir optimismo nas vozes, ouvir falar de mudança com tranquilidade, como quem sabe que vai voltar, que a espera vai correr bem e, sobretudo, que o lugar de cada um está garantido.

Pouco habituada a tanta serenidade, num povo tão resmungão e desconfiado como o portuense, dei por mim a matutar no milagre. Esta semana voltei. Os caracóis comeram metade das mudas de pepinos, apesar dos esforços e das armadilhas, e tive de ir ao senhor das sementes. Na esquina do mercado reparei que o alcatrão estava pintado de fresco e que uma passadeira quadriculada me guiava até à porta do centro comercial. Subi a rua até encontrar a fachada azul, igualmente quadriculada, decorada com frutas e legumes. As letras garrafais indicavam: Mercado Temporário do Bolhão. Que bem.

. A que trabalha muito, mas diverte-se mais. A matriarca, que se governa, de manga arregaçada e avental de bolsos para guardar os trocos. A que é doce no trato da freguesia, mas tem na eloquência do vernáculo o seu superpoder. A que fez corar Anthony Bourdain. A que lutou contra Rui Rio, quando quis concessionar o mercado a uma empresa holandesa para mais um shopping. A que tantos políticos quiseram beijar em frente às câmaras, mas evitaram por temer a frontalidade e a valentia. A que toda a gente conhece, mesmo nunca tendo cruzado os velhos portões do mercado, porque a sua reputação é lendária. Uma instituição.

Desci as escadas rolantes, e lá estava a figura da Nossa Senhora entre as flores, no altarzinho, abençoando quem entra no novo espaço, como sempre fez no antigo. Mais adiante o amolador. A melhor broa de Avintes do mundo. A Manteigaria do Bolhão com o seu clássico letreiro luminoso, pendurado na nova banca, tal e qual na antiga. Os jarrinhos de flores nas bancadas, os napperons, os sant’antoninhos. Todos os detalhes que servem para atenuar as saudades das velhas paredes e esquecer que estamos na cave de um centro comercial.

Procurei pelo senhor das sementes. Passei pelas tasquinhas à pinha, em período de almoço. Vi as bancas de frutas e legumes, mais adiante o peixe. Esgueirei-me pelo meio da gente que veio ver o mercado novo. De olhos arregalados e surpresos, como os meus. E, depois de perguntar por ele a uma colega, fiz mais um corredor e lá cheguei à sua loja provisória. Bem arrumada e cheia como sempre. O único senão é o chão branco, diz a esposa. Como é que havemos de sacudir a terra? De resto está tudo um brinquinho.

Também achei. O mercado temporário não é seguramente o Bolhão, mas é vibrante e colorido, bem organizado e feito com cuidado. O cuidado que reconhece ser tão precioso o velho edifício que agora se restaura, quanto aqueles que o mantiveram vivo durante todos estes anos. E que se é hora de cuidar dos alicerces, não podemos descuidar da sua gente. Gostei muito e mantenho-me freguesa. Torcendo sempre para que as obras se façam depressa e que o Bolhão nos seja devolvido intacto. Lavado, mas com a mesma cara e entregue a quem sempre pertenceu. Oxalá.

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