sol.sapo.ptAntónio M. C. Carvalho - 17 mai 20:33

A tristeza de um sportingado que nunca comeu croquetes

A tristeza de um sportingado que nunca comeu croquetes

Tenho criticado repetidamente a actuação do presidente do Sporting, mas tenho que agradecer a Bruno de Carvalho ter (inconscientemente, é certo...), demonstrado, ao longo destes seus anos de reinado: o perigo das claques, a cegueira do amor/paixão aos clubes de futebol e, principalmente, a força extraordinária do futebol para, através da comunicação social, distrair as tugas dos problemas que poderiam amargurá-los e poupar os governantes à ingrata tarefa de governar bem.

António M. C. Carvalho (sócio n.º 95.441-0)

Francamente, nunca pensei que havia de ver imagens tão chocantes como as das agressões e da vandalização no balneário leonino de Alcochete. Não se julgue que não as temia, pensei é que não viriam tão cedo e que os meus 90 anos me poriam a coberto deste desgosto... Desgosto, não enxovalho, como algumas figuras públicas dizem ter sentido..., sem sentido nenhum.

Escrevo no dia 17 e, sem saber sequer nadar, tento cavalgar a onda gigante de notícias aterradoras sobre o Sporting. Não posso acreditar nos subornos anunciados e “rapidamente” associados ao presidente do Sporting.

Bruno de Carvalho não é estúpido. Parecem-me mais um ajuste de contas dentro do Sporting e/ou um espectáculo degradante semelhante ao que aconteceu com Sócrates e os seus companheiros do PS.

Entrei para Sócio do SCP em 1941, para ver jogar o Mourão, o Pireza, o Soeiro, o Peyroteu e o João Cruz e porque o Sporting era, na minha imaginação juvenil, um clube de “gente fina”, desportivamente bem educada, num estrato social superior ao de um rapaz pobre nascido em Alfama.

Afastado durante meia dúzia de anos por ter ido trabalhar para os Açores, voltei ao Sporting, salvo erro em 1957, para me afastar em 1966, depois de ter contribuido para a renovação dos Estatutos, em conflito com uma decisão, que considerei prepotente, do então Presidente, Dr. Braz Medeiros.

Continuei adepto do Sporting, sofrendo  com os desvarios que o futebol foi causando. A construção do novo estádio (com a destruição da pista de atletismo), a criação da SAD, transformando o Clube numa espécie de empresa comercial, e a cobertura que a Banca dava aos gastos exorbitantes com jogadores e treinadores levaram-me a criticar publicamente as direcções que antecederam Bruno de Carvalho e a sentir-me mal por ser crítico e não ser sócio. Voltei assim ao Sporting, em 2013, com o nº 100 875, inimaginável para quem aos 13 anos tinha sido o nº 5707.

Infelizmente, parece que o Sporting só cresceu em quantidade.

Embora vivendo longe de Lisboa, e já velho, tenho procurado transmitir aos treinadores que, desde Carlos Queiroz, têm passado pelo Clube, o que vi na maneira de jogar dos 5 violinos. Não sei se algum leu os meus mails e cartas. Julgo que não, porque as equipas principais do Sporting que tenho visto na televisão, jogam mal, não sabem marcar golos e abandonaram o WM para jogarem “cientificamente” no 442 ou no 433, sistemas fantásticos, universais e estéreis, que ninguém consegue ver durante os desafios,.

Mas não escrevi a Jorge de Jesus. Senti-me mal ao pensar na veleidade de ensinar o padre-nosso a um cura, que ganha num ano 10 vezes mais do que eu ganharia em 30 anos de reforma se chegasse aos 100...  Foi por causa da contratação do então treinador do Benfica que escrevi a minha primeira carta-aberta a Bruno de Carvalho para o alertar para o facto de não haver nenhum treinador no mundo que mereça tais ordenados, por muito especiais que sejam, porque nunca podem garantir vitórias, em jogos ou em campeonatos. Creio que também não terá lido o que lhe escrevi.

A pouco e pouco fui reconhecendo que, afinal este Sporting já não era o “meu” Sporting e que o Dr. Bruno de Carvalho nunca poderia ser Presidente desse Sporting por mim idealizado.

E lamento-o, porque sendo para mim inegável que tem amor ao nosso Clube é também evidente que é ainda maior o seu amor-próprio.

Não descobri justificação para uma Assembleia Geral, em Fevereiro de 2018, que o encheu de vento. Se foram melindres pessoais que o motivaram tenho que perguntar “de que estava à espera depois de maltratar adversários e consócios” ?

Nessa A. G. podia já ter acontecido uma tragédia se a “gentalha silenciosa” e os “sportingados” estivessem dispostos a confrontos. 

Há um facto, nunca referido na comunicação social, que o Dr. Bruno de Carvalho não pode ignorar. Se o universo dos sócios do Sporting anda à volta dos 100 mil, e se 5700 lhe manifestaram apoio isso só significa que tem do seu lado 6 % da massa associativa, mas nada lhe garante que a maioria esteja com ele.

Os apelos, emocionados mas patetas, que fez nessa A. G., só não trouxeram grande prejuizo aos sócios e simpatizantes do Sporting porque, é triste dizê-lo, ninguém o levou muito a sério.

Quem fez e faz a glória dos clubes desportivos são os praticantes, os atletas. Os treinadores ajudarão dando-lhes treinos, tácticas e motivaçõs  para alcançarem os seus objectivos. Os dirigentes também ajudam, proporcionando-lhes as condições e o ambiente para isso necessários. Com croquetes ou com bons ordenados, os dirigentes são importantes mas acessórios. Não me parece que Bruno de Carvalho tenha razão para se vitimizar. Se o Sporting lhe deve, segundo opiniões para mim insuspeitas, um certo equilíbrio financeiro e o renascimento de modalidades, também lhe deu uma notoriedade doutro modo difícil de alcançar.

Diz quem o conhece pessoalmente que o Presidente do Sporting tem o coração ao pé da boca

Seria bom para o Sporting que Bruno de Carvalho pensasse duas vezes antes de falar ou escrever e ficasse calado e quieto até o coração voltar ao seu lugar.

Não sei o que poderá acontecer, depois desta actual crise que, até há pouco tempo, não era crise nenhuma para o Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting.

Mas não será já tempo de reflectirmos a sério sobre o impacto corrosivo do futebol, não só no Desporto como na nossa vida de cidadãos de um país por nossa culpa adiado?

O Futebol passou a ser, mais do que um espectáculo, um negócio, mas sem deixar de ser um jogo ! E desta confusão nasceram as SAD’s com a mirífica ambição de ganharem dinheiro ao “jogo”!

Claro que estão todas falidas. Parecem empresas mas não são. Têm uma lógica empresarial abstrusa, onde os proveitos são procurados esbanjando recursos. Se não há dinheiro para gerir o Clube, gastem-se milhões em contratos com jogadores e treinadores na esperança do milagre de se ganharem campeonatos e uns cobres nos campeonatos europeus. É tudo uma questão de fé. De fé e de irresponsabilidade !

Há, tem que se dizer, uma terrível semelhança entre os desvarios do futebol profissional e os fogos florestais. Existem porque há quem lucre com eles.

O que é que justifica os ordenados e prémios que os clubes ditos “grandes” oferecem aos jogadores de futebol e seus treinadores? Os conhecimentos técnicos ? A habilidade exigida? A dificuldade de aprendizagem ? O esforço físico? A capacidade intelectual? A responsabilidade por eventuais erros? As condições  em que trabalham?

Não, nada disso. Os milhões oferecidos a jogadores e treinadores só têm justificação porque permitem ordenados e negócios chorudos a dirigentes do futebol e a muitos fidalgos que vivem na corte, com despudorada evidência para os autoproclamados “empresários”, os agentes de treinadores e jogadores apadrinhados pela FIFA!

Jogar à bola é uma coisa simples, intuitiva, e jogar “bem” à bola ou nasce com a pessoa ou qualquer praticante com força de vontade e treino pessoal é capaz de o fazer. Jogadores como o Pireza, o Soeiro, o Peyroteu, o João Cruz, o Mourão, o Albano, o Travassos, o Vasques ou o Jesus Correia, para só relembrar avançados que vi jogar, aprendiam a jogar à bola nas ruas e nas praias, uns com os outros, e tornavam se exímios executantes em equipas semi-amadoras que jogavam melhor futebol do que as equipas milionárias que hoje vemos. Por outro lado, a evidência que os treinadores ganharam é artifical, foi fomentada e o artifício mais notório é a moderna atribuição aos treinadores da conquista de taças e campeonatos… Não, os treinadores não ganham taças nem campeonatos, para o bem e para o mal, são os jogadores que fazem os resultados.

Nada me move contra os jogadores e treinadores de futebol que recebem balúrdios. Não têm culpa e quase todos são profissionais honestos. O problema é outro. Tem a ver com o aproveitamento do “negócio” do  futebol-espectáculo para uns quantos garantirem poleiros e tachos ou arrecadarem dinheiros e benesses à custa de uma intoxicação informativa criminosa que adormece o exercício da cidadania e mantém a maioria da população portuguesa distraída e mentecapta.

Desde o terrorismo de Alcochete, deixaram de ser preocupação os problemas mal resolvidos dos combates aos fogos, a situação dos hospitais, o SNS e o aumento de cancros; passou despercebida a tentativa de resgate das PPP Rodoviárias pela Frente Cívica de Paulo de Morais; a Síria e a Palestina ficaram ainda mais longe; Trump talvez não seja original, mas mera cópia!...

É tempo de nos interrogarmos “Quo Vadis Sporting ?” ou “Quo vadis Portugal?”

Em tempos, 1962, em plena ditadura, publiquei no Jornal do Sporting tres pequenos artigos “Para um Sporting melhor”. Neles já aflorava alguns dos problemas que permanecem sem solução. O que para mim era, e continua a ser, dos mais importantes é a impossibilidade de participação da massa associativa na vida do Clube. Tal como acontece com qualquer vulgar cidadão na vida nacional.

Eu, se participasse em qualquer votação no Sporting, não apoiaria Bruno de Carvalho, mas também não votaria nos opositores conhecidos.

Quase 80 anos de sportinguismo assumido levaram-me à conclusão de que a crise no Sporting não se resolverá com a eventual saída do actual presidente, ou, como se anuncia, com a demissão colectiva de todos os órgãos sociais. Creio que a médio prazo a crise é insolúvel. Não só no Sporting como em todos os outros clubes portugueses de futebol profissional. Para a vencer seria preciso uma revolução e eu não conheço nenhum revolucionário de boa vontade, nem quando me vejo ao espelho !

Mais concretamente. Seria preciso:

  • acabar com a SAD;
  • acabar com os ordenados estapafúrdios de jogadores e treinadores, que servem para justificar os ganhos pornográficos dos seus agentes/empresários e até de alguns dirigentes de empresas e desportivos;
  • acabar com as votações presenciais, que mais não são do que uma forma de transformar a opinião de uma minoria de sócios, insignificante mas aguerrida, na vontade dominante.

Ainda não acabei...

Os leitores que estiverem pensando “Este gajo é parvo” podem ficar descansados, não me ofendem porque isso não é para mim novidade.

Por isso, outra coisa que eu desejaria

  • acabar com o fanatismo clubístico que é a bandeira de Bruno de Carvalho e das suas claques.

Se eu acreditasse numa segunda vida e que podemos conversar com quem já nos deixou, havia de perguntar:

Ó Prof. Moniz Pereira, também acha que o burro sou eu?

Tramagal, 17 de Maio de 2018

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