www.publico.ptopiniao@publico.pt - 17 mai 06:55

Opinião. A tragédia de Israel

Opinião. A tragédia de Israel

Com a cumplicidade dos Estados Unidos, Israel leva hoje a cabo uma política que ofende princípios fundamentais dos Direitos Humanos e contraria tudo o que de melhor o pensamento Ocidental se pode reclamar.

Em 1963, a propósito de uma viagem ao Líbano, o então Presidente francês, Charles De Gaulle, terá confidenciado ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Couve de Murville, que voava “para o complexo Oriente com ideias simples”. Esta frase tornou-se célebre e foi várias vezes invocada ao longo das últimas décadas. De Gaulle era não só um génio militar e político como também um homem dotado de uma prodigiosa imaginação literária, que favorecia o culto do paradoxo. Com tal afirmação procurava certamente salientar simultaneamente a força e os limites da razão cartesiana — tipicamente francesa — aplicada à singularidade de um espaço mental, cultural e político profundamente diferenciado das referências canónicas ocidentais. De certa forma, esta afirmação revela uma grande incompreensão da especificidade do mundo oriental. Na verdade, não é possível compreender esse mundo com base num modelo interpretativo de natureza estritamente europeia.

Edward Said, provavelmente o intelectual palestiniano de maior projecção internacional, que viveu grande parte da sua existência em Nova Iorque, chama precisamente a atenção para a forma deturpada como o Ocidente percebeu historicamente o Oriente naquela que será a sua obra mais importante, Orientalism. Tudo isto vem a propósito dos últimos acontecimentos ocorridos em Israel.

Durante muitos anos obstinei-me em recusar a pertinência da tese de Said que assenta na ideia de que a instauração de um Estado judaico na Palestina comporta uma dimensão de natureza colonialista. Essa recusa mental radicava na adesão a uma certa apologética israelita associada à utopia da acção pioneira dos Kibutz, da reparação das injustiças historicamente cometidas sobre o povo judaico e do reconhecimento da singularidade regional da democracia israelita. Admitamos que estas razões não são de somenos importância e não devem ser levianamente espezinhadas.

David Grossman, um dos grandes escritores israelitas, lembrava recentemente duas coisas aparentemente contraditórias e contudo absolutamente respeitáveis: por um lado, o milagre que representava a criação de Israel; por outro, a circunstância de que a ocupação de um território habitado por outro povo conduz inevitavelmente à interiorização da ideia de que há dois tipos de Humanidade, uma representada por seres superiores e outra representada por seres inferiores. Essa é a tragédia genésica do Estado israelita. Ao aceder à condição de Estado-Nação, um povo que, como nenhum outro, foi objecto das mais ignóbeis perseguições históricas, metamorfoseou-se numa entidade política de natureza opressiva e mesmo, contra a sua vontade original, tendencialmente colonialista. Como se não bastasse, já pouco resta da fase inicial do Estado israelita. O actual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, descende ideológica e politicamente das correntes mais reaccionárias do movimento sionista, que tiveram na sinistra figura de Vladimir Jabotinsky a sua expressão mais conhecida. Infelizmente, Israel evoluiu historicamente num sentido profundamente negativo. Essa transformação, curiosamente, não obedece a um modelo facilmente inteligível. A extrema-direita israelita chegou ao poder - primeiro com Menachem Begin e mais tarde com o muito mais radical Netanyahu - devido ao apoio dos judeus da comunidade sefardita, que se considerava legitimamente vítima da discriminação imposta pela comunidade asquenaze, que teve grande preponderância na formação do Estado judaico. Os asquenazes são os judeus de origem centro-europeia, enquanto os sefarditas, provenientes, em épocas mais recentes, do mundo árabe, descendem das comunidades judaicas da Península Ibérica. A direita e a extrema-direita israelitas perceberam inteligentemente que os sefarditas estavam condenados a um estatuto de subalternidade na sociedade israelita e valorizaram a especificidade das suas práticas religiosas de modo a suscitar a respectiva adesão eleitoral. De certa maneira, a esquerda trabalhista representava uma elite incapaz de compreender os anseios de sectores religiosamente mais integristas, mas social e economicamente muito mais frágeis.

O resultado de tudo isto foi absolutamente deplorável. Israel, um Estado que é a vários títulos admirável, transporta consigo uma mancha verdadeiramente criminosa. Não tenhamos medo das palavras, por mais duras que elas sejam e por mais difíceis que se revelem de proferir em relação a um povo que suportou ignomínias históricas sem paralelo. O primeiro-ministro israelita comporta-se como um serôdio líder colonialista. Nada justifica a sua acção, o seu estilo e o seu discurso. É um fanático que tem concorrido fortemente para a degradação política em todo o Médio-Oriente. É natural que encontre no narcisismo infantil do actual Presidente norte-americano um aliado para a sua tenebrosa causa. Lamentavelmente, esta associação de extremistas não augura nada de bom para o futuro do Estado israelita.

A União Europeia tem a obrigação histórica de prestar mais apoio às legítimas aspirações dos palestinianos. Por muito irónico que isso possa parecer, são essas aspirações que melhor correspondem ao espírito de uma Europa inspirada nos valores iluministas. Tal ocorre por uma simples razão: os palestinianos são vítimas de uma acção colonialista que ofende o que de melhor existe na cultura europeia.

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