www.publico.ptpublico@publico.pt - 17 mai 06:36

Opinião. Também ninguém viu quem Bruno de Carvalho era?

Opinião. Também ninguém viu quem Bruno de Carvalho era?

Sócrates e Bruno de Carvalho têm isto em comum: são ambos fruto da nossa complacência, da nossa cegueira e da nossa passividade.

José Gil criou o conceito de “não-inscrição” para definir uma característica singular da sociedade portuguesa: a incapacidade de aprender e evoluir a partir dos erros cometidos. É como se os acontecimentos históricos, mesmo os mais traumáticos, fossem arranhões que nunca se transformam em cicatrizes. Ao não deixarem uma verdadeira marca, também não deixam a memória que impede a repetição do erro e a sua superação a partir de uma falha colectivamente admitida. Boa parte dos portugueses não admite nada. Não admite a ferida, não enfrenta o corte, não reconhece o erro, preferindo suspirar (exemplo de José Gil): “É a vida.”

Nas suas declarações após a tragédia de Alcochete, Bruno de Carvalho não utilizou a expressão “é a vida”, mas utilizou outras que querem dizer o mesmo: “Isto foi chato, mas o crime faz parte do dia-a-dia.” Ou seja, é a vida. É um exemplo perfeito de não-inscrição, de uma máquina mental que está em permanência a diminuir a gravidade daquilo que é evidentemente gravíssimo, para que possa continuar o seu caminho com um nível mínimo de perturbação. O edifício desta não-inscrição está escorado em vários pilares, e um deles (que José Gil infelizmente não desenvolve) é este: a recusa constante em ver aquilo que está à frente do nosso nariz. Quando a tragédia finalmente acontece, o absolutamente óbvio é mascarado como totalmente inesperado. Fingimos apanhar sustos com monstros que todos os dias sentámos à nossa mesa.

Na terça-feira à noite, Daniel Oliveira foi à SIC Notícias comentar o caso de Alcochete, e quando foi referido o apoio público que deu a Bruno de Carvalho nas últimas eleições, ele argumentou que não tinha “capacidade de prever” aquilo que agora veio a acontecer. Sim, é certo que há um ano não seria possível prever que em Maio de 2018 meia centena de encapuzados em marcha militar iriam invadir o centro de estágios do Sporting para agredir jogadores e equipa técnica. Mas será que há um ano era mesmo impossível prever que um dia um presidente com a personalidade de Bruno de Carvalho iria instalar o caos no Sporting? Não, não era. Era até bastante provável que isso viesse acontecer — tal como era muito provável que um dia se viesse a descobrir o dark side de José Sócrates. Por uma razão simples: os seus lados negros não estavam escondidos numa cave húmida e sombria. Eram exibidos diariamente em prime-time.

Por que é que ninguém os via? Toda a gente os via. Só que aqueles que os admiravam fingiam não ver. Aquilo que   

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