www.vidaeconomica.ptvidaeconomica.pt - 17 mai 21:08

A legislatura a esgotar-se

A legislatura a esgotar-se

A economia começa a dar sinais claros de que poderá estar iminente uma mudança de ciclo. O modelo de crescimento que prevaleceu nos anos mais recentes, assente na reposição dos rendimentos, embora combinado com uma aparente disciplina orçamental, sem dar qualquer prioridade à competitividade, está a esgotar-se mais rapidamente do que era esperado.
O primeiro trimestre trouxe más notícias no comércio internacional, com as importações a crescerem mais do dobro das exportações, neutralizando a expectativa de um saldo positivo na balança comercial para este ano, ao contrário dos anteriores, o que consequentemente vai penalizar o crescimento do PIB, invertendo o seu contributo virtuoso.
De igual modo, apesar de anunciada com alarde a descida do desemprego, para um mínimo histórico anterior à crise de 2008, a verdade, mais relevante que este facto, resultado da inércia da tendência, é que a criação de emprego simplesmente parou. Se viermos a juntar os dados do investimento, que não devem andar famosos, bem mais modestos que os obtidos nos meses precedentes, significa que se estão a gerar as condições perfeitas para uma tempestade em breve. É como se, num bonito dia de Verão, glorioso no seu céu de azul perfeito, constatar que, no horizonte longínquo, se formam já nuvens ameaçadoras da trovada que vão estragar, seguramente, o final da jornada.
O Governo já percebeu que os tempos de glória estão a terminar, igualmente pela via dos resultados económicos, e, mais cedo ou mais tarde, não será possível disfarçar os números. Nem mesmo o providencial contributo do turismo será eterno, pois a normalização da situação política, social e económica em destinos conturbados no passado recente, como a Turquia, a Tunísia ou Grécia, virá trazer mais concorrência e mitigar o filão que alguns já entendiam como eterno e inesgotável. E, obviamente, a falácia do país “start up” está mais que terminada, por muitas “web summits” que Lisboa venha a albergar.
António Costa, que é um político hábil, mesmo talentoso em todos os diversos significados desta palavra, está já a trabalhar em cenários alternativos para a “geringonça”, cuja dinâmica é progressivamente mais difícil, podendo mesmo dizer-se que o único movimento que realiza é para trás.
Cada vez é mais evidente que tudo que separa o PS da esquerda radical está a vir ao de cima, o que foi sempre fundamental, já não havendo já qualquer vontade ou interesse de António Costa em negociar pactos ou acordos pontuais, incluindo, claro está, o próximo Orçamento de Estado.
O PCP e o Bloco de Esquerda estão preocupados em fixar os respetivos eleitorados devotos e não desejam perder mais votos para o PS, pelo que não considerarão em caso algum voltar a facilitar a vida ao Governo, deixando, entre outras coisas, passar o último Orçamento da legislatura, a não ser exigindo contrapartidas impossíveis de conceder e que o Presidente da República jamais viabilizará.
De igual modo, o PS sabe bem que desafiar-se para uma maioria, seja ela absoluta ou relativa, terá de ganhar os votos que lhe faltam ao centro político e não à esquerda, o que significa passar uma imagem de moderação, responsabilidade e contenção, precisamente algo com que não se preocupou nos discursos de início de legislatura, deixando que “jovens turcos” como o inefável Galamba ou o enigmático Pedro Nuno Santos se posicionassem mais como simpatizantes do Bloco de Esquerda ou PCP do que militantes do tradicional PS, questionando-nos mesmo se estariam – ou estão – no partido certo. No futuro não será certamente assim, sendo de admitir que apareçam outras caras e outras retóricas mais adequadas a “pontes” à direita do que manter os laços com esta esquerda.
Apenas duas variáveis abstrusas interferem na equação perfeita que António Costa está a construir e que podem complicar a solução programada: a possibilidade de um novo Verão trágico, com incêndios e vítimas, que o país não perdoará em caso algum, e o desenvolvimento dos casos judiciais de Sócrates e outros ex-governantes socialistas, que, por mais que se procure descartar, acabará por o contaminar e prejudicar.
Seja como for, o momento é de risco e obriga a ir a jogo, pelo que não espantará que, até final de Outubro, o Governo, impedido de aprovar Orçamento de Estado para 2019, venha a cair e que o Presidente da República se veja obrigado a marcar eleições antecipadas até ao final do corrente ano.
Resta saber se o PS governará sozinho ou que nova “geringonça” ou “engenhoca” António Costa é capaz de promover para lhe permitir continuar no poder, já que parece pouco provável que a oposição liderada pelo PSD de Rui Rio esteja capaz de gerar uma dinâmica de mudança e de vitória até essa altura.
Tal como tenho dito em crónicas anteriores, o Verão em Portugal deixou de ser uma “silly season” há muito tempo, para ser o momento chave das grandes decisões nacionais para o futuro breve que lhe segue.
1
1