observador.ptJosé Miguel Pinto dos Santos - 17 mai 07:35

Premium: o preço do cheiro?

Premium: o preço do cheiro?

Se os jornais, como negócio, têm servido para vender anúncios, não serão as notícias o cheiro da publicidade? E não será premium o preço do cheiro?

O modelo de negócio do Facebook consiste, em traços gerais, em atrair tráfego para vender publicidade, sendo que o tráfego é gerado pondo os utilizadores a criar conteúdos de graça. Embora requeira algum investimento em infraestrutura, a operacionalização bem-sucedida deste modelo permite gerar receitas chorudas a custo ínfimo: o cost of revenue da empresa foi de 12% no último trimestre de 2017.

Por seu lado, o modelo de negócio dos jornais consistiu, durante muito tempo, em distribuir notícias em papel para vender publicidade. O grosso das receitas não estava na venda do papel, mas na venda de anúncios. Era com a venda de publicidade que os jornais cobriam os custos de produção dos seus conteúdos, custos que, ao contrário dos do Facebook, não são negligenciáveis. O preço que os leitores pagavam destinava-se a cobrir os custos de impressão e distribuição física do papel. Com a substituição do papel por canais digitais pareceria que a necessidade de cobrar algo aos leitores desapareceria, já que deixa de haver custos com papel. Assim, a recente introdução de conteúdo premium pelo Observador, na senda de muitos outros meios de informação, parece indiciar uma evolução face ao modelo tradicional: com ela pretende-se passar para os leitores parte dos custos de produção dos conteúdos. Mas será este novo modelo viável?

Uma transição semelhante foi tentada por um comerciante japonês do século 18, como se pode ler nos anais referentes a Ōoka Tadasuke (大岡忠相, 1677—1752), um magistrado com poderes executivos e judiciais, também conhecido pelo seu título de Echizen-no-Kami 越前守:

“Certo dia, um pobre mas sério e honesto estudante chamado Shūhei, proveniente da província de Sagami, encontrou e obteve alojamento numa residência em Kanda, um dos bairros preferidos pelos escolásticos que procuram conhecimento e erudição e sabedoria nesta grande cidade que é Edo. Tinha alugado um pequeno quarto no segundo piso de um edifício, no mesmo andar em que também vivia o senhorio com a sua família e serviçais. No piso térreo o senhorio operava uma loja de tenpura, onde peixe e legumes fritos podiam ser comprados e comidos por vizinhos e forasteiros. O quarto de Shūhei era mesmo por cima da cozinha deste estabelecimento.

“O dono da casa era não só miseravelmente avarento como também doentiamente desconfiado de todos os seus semelhantes, fossem eles desconhecidos ou clientes ou familiares. Pensava ele que ninguém perderia uma oportunidade de lhe dar a volta e de o enganar e desfalcar, caso baixasse a sua guarda e lhes desse essa oportunidade. Assim nunca relaxava e tratava a todos com desconfiança. Não fiava nem dava crédito e contava três vezes o troco quer no dar quer no receber. Andava sempre, para onde quer que fosse, com o cofre no qual acumulava todo o vil metal que lhe vinha às mãos. O seu principal negócio e fonte de rendimento era a loja de tenpurado primeiro piso que, sendo frequentado por farta clientela de professores e estudantes, samurai e mercadores, era próspero e lhe permitiria gozar desafogadamente das comodidades e prazeres deste mundo, enquanto se os podem ter, caso ele assim o desejasse.

“Aconteceu um dia este homem ouvir, do outro lado da parede, uma conversa entre Shūhei e um condiscípulo que o visitava. Disse este: ‘Penosa é na verdade a vida de estudante. Temos de trabalhar dia e noite nas nossas lições e o dinheiro que temos mal dá para comprar o arroz necessário para manter a alma unida ao corpo e, de longe em longe, alguma folha de nori que anime o paladar.’

“Respondeu o da casa: ‘ Sendo um cheiro de qualidade, o premium do Observador certamente será um sucesso.

Professor de Finanças, AESE Business School

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