www.jornaldenegocios.ptKenneth Rogoff - 16 mai 14:00

A Fed normal de Trump

A Fed normal de Trump

É verdade que, com o crescimento dos défices e a aproximação da campanha eleitoral de 2020, os testes ainda estão para chegar. Mas por agora, vamos reconhecer que esta é uma área onde a presidência de Trump tem sido quase normal - até ver.

Numa presidência que demonstrou pouca consideração pelas normas institucionais convencionais, como é que podemos explicar as nomeações completamente razoáveis ??de Donald Trump para o Conselho de Governadores da Reserva Federal? As nomeações mais recentes, Richard Clarida, professor da Universidade de Columbia, e Michelle Bowman, comissária do banco para o estado do Kansas, seguem um padrão de escolha de tecnocratas experientes, a começar por Jerome Powell, o novo presidente da Fed.

Se Trump fosse um presidente normal, nomear pessoas altamente respeitadas, capazes de assegurar a formulação de políticas eficazes, não seria nada de extraordinário. Mas falamos de um presidente que muitas vezes escolheu funcionários com pouca experiência de governo para os incumbir, ao que parece, de criar a maior perturbação possível nos departamentos que deviam liderar. No entanto, para a Fed, o autor de The Art of the Dealnomeou como vice-presidente um académico (Clarida) cujo artigo mais famoso é intitulado "The Science of Monetary Policy."

O leitor poderá dizer que dar crédito a Trump por manter a estabilidade na Fed é como dar crédito por não iniciar uma guerra nuclear. A ideia da independência do banco central ganhou uma grande força nos últimos 30 anos entre os políticos de todo o mundo. Não só é a norma em democracias como os Estados Unidos, a Zona Euro e o Japão, como até líderes fortes como o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, hesitam bastante antes de desafiarem os seus bancos centrais.

Mas as pessoas esquecem-se de quão nova é a ideia de independência do banco central. O venerável Banco de Inglaterra conquistou a independência monetária há apenas 20 anos. No início dos anos 1980, quando escrevi um trabalho académico defendendo a independência como uma ferramenta para estabelecer a credibilidade anti-inflacionista dos bancos centrais, todos os jornais o rejeitaram. Os especialistas fizeram pouco da ideia de que a independência poderia ser mais do que uma fachada sem sentido, facilmente perfurada pelo governo.

O que nos leva de volta a Trump. Estará ele a preparar-se para pressionar a Fed a estimular a economia antes das eleições de 2020 e, em última instância, a monetizar os enormes défices resultantes dos cortes de impostos republicanos? Se esse é o seu plano - e quem é que acredita realmente que um Trump encurralado não recorrerá à inflação alta? - a boa notícia é que as suas nomeações para a Fed não lhe facilitarão a vida.

Trump parece entender isso. Afinal de contas, na campanha eleitoral de 2016, ele próprio criticou a antecessora de Powell, Janet Yellen, por supostamente manter os juros baixos para facilitar a eleição de Hillary Clinton. Agora, como presidente, é exactamente isso que ele gostaria de ver em 2020. Quando entrevistou candidatos para suceder a Yellen no ano passado, terá feito alegadamente apenas uma pergunta chave: "Não vai aumentar os juros e arruinar o meu lindo mercado de acções, pois não?"

Kenneth Rogoff, antigo economista-chefe do FMI, é professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard.

Copyright: Project Syndicate, 2018.
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Tradução: Rita Faria

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