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Música. O Pulitzer de Kendrick Lamar é “Poetic Justice”

Música. O Pulitzer de Kendrick Lamar é “Poetic Justice”

DAMN., Kendrick Lamar. Pela primeira vez, um rapper e o hip-hop recebem um dos mais prestigiados prémios dos EUA, que ignoravam tanta da música popular e escaparam a Dylan ou Coltrane. Distinção celebra "a banda-sonora da cultura jovem de hoje".

Kendrick Lamar tornou-se o primeiro rapper a receber um Pulitzer, um dos mais prestigiados prémios que a América reserva para o melhor jornalismo, teatro ou literatura. E para a música. O prémio para o autor do celebrado To Pimp a Butterfly vem a propósito do seu sucessor, o álbum DAMN., e vem numa altura em que o tempo e a América já estavam em dívida para com Kendrick Lamar – é o que dizem as reacções a esta distinção com a qual parece que todos ficaram a ganhar. O hip-hop, a música popular, a cultura negra, a cultura jovem e o próprio Pulitzer.

O Prémio Pulitzer é sinónimo de reconhecimento máximo do jornalismo, um nome que há 101 anos carrega o de Joseph Pulitzer, publisher de jornais de origem húngara que entregou um fundo financeiro à Universidade de Columbia para criar estes galardões. Entre os seus laureados estão os escritores William Faulkner, Tennessee Williams, Eugene O’Neill, Robert Frost ou Edward Albee ou os jornalistas que reportaram os escândalos Watergate, a cobertura do 11 de Setembro ou, agora, que revelaram a teia de Harvey Weinstein que gerou o momento #MeToo.

Na música, porém, entrega prémios apenas desde 1943 e fá-lo sobretudo à clássica, à ópera. O jazz foi a linguagem que conseguiu romper, parcas vezes, com essa tradição, com um prémio entregue pela primeira vez em 1997 a Wynton Marsalis por Blood on the Fields. Em 1965 considerou-se uma menção honrosa para Duke Ellington, mas foi rejeitada. E em 2018, Kendrick Lamar e DAMN., o quarto álbum do rapper de Compton, Los Angeles, recebe um Pulitzer. “Uma colecção virtuosa de canções unificada pela sua autenticidade vernacular e dinamismo rítmico que providencia vinhetas que capturam a complexidade da vida afro-americana moderna”, decidiu o júri formado por críticos, músicos e académicos.

O Nobel da Literatura nunca tinha sido entregue a um músico e Bob Dylan recebeu-o em 2016. Mas um Pulitzer de música nunca tinha sido entregue a um rapper e Lamar “não é só o primeiro rapper a merecer o Prémio Pulitzer de música. É o primeiro músico galardoado que tem um álbum n.º1 ou tem um disco platina” a receber o galardão, atentava segunda-feira o Los Angeles Times sobre o cronista da sua cidade, mas também da negritude e da vida moderna americana. “Por que é que demoraram tanto?”, pergunta o crítico de música britânico Alexis Petridis no Guardian. Terrence Henderson, ou Punch, responsável da Top Dawg Entertainment, a editora do músico, preconizou no Twitter: doravante ninguém deve “falar senão com respeito na boca por Kendrick Lamar”.

“Ao longo da sua história a comissão Pulitzer tem ignorado a chamada música ‘vernacular’ na categoria, favorecendo trabalho mais académico”, escreve Randall Roberts no LA Times. Tem preferido a clássica, a música coral, a ópera, até a electrónica. Premiou o jazz pela primeira vez em 1997, um ano depois de George Walker ter sido o primeiro músico afro-americano a receber o prémio (a primeira mulher a receber um Pulitzer musical celebrou-o em 1983), bisando com Ornette Coleman em 2006 e repetindo com Henry Threadgill em 2016. No mesmo ano, o musical Hamilton, a criação de Lin Manuel Miranda com uma banda sonora hip-hop, recebeu o Pulitzer de Drama no mesmo ano.

DAMN., Kendrick Lamar. “Foi a altura certa. Estamos muito orgulhosos desta selecção. Significa que o sistema de júri e comissão funcionou como é suposto – a melhor obra recebeu um Prémio Pulitzer”, disse ao New York Times Dana Canedy, administradora do Pulitzer. A distinção “ilumina o hip-hop de uma forma completamente diferente. Este é um grande momento para a música hip-hop e um grande momento para os Pulitzer”, reconheceu a responsável sobre o seu próprio benefício. Para Raj Frazier, director do Institute for Diversity and Empowerment de Annenberg, “o facto de a sua música estar a ser ouvida e valorizada por membros do Pulitzer – que esteja a ser considerado em relação aos vencedores das gerações que o precederam – significa que ele será um nome e um criador que também é uma referência para aqueles que serão avaliados e valorizados no futuro”. Nunca distinguidos com um Pulitzer na secção musical, Bob Dylan teve uma menção honrosa em 2008 e John Coltrane teve uma menção especial póstuma em 2007.

Loyalty, got royalty inside  my  DNA, entoa a certa altura em DNA. Como decide o que vai ser a sua música, perguntou-lhe o comediante Dave Chapelle, em Julho de 2017, na revista Interview. “Foco-me no que os meus fãs retiram dela, pessoas a viver as suas vidas do dia-a-dia. No fim de contas, a música não é para mim; é para pessoas que estão a passar pelos seus problemas e querem relacionar-se com alguém que se sente da mesma forma que elas”. Mais à frente, admite: “também é um desafio para mim, estar a este nível e ainda conseguir ligar-me a alguém que está a viver aquela vida quotidiana”.

Premiado, mais rico e desafogado, nascido com pouco dinheiro na Compton dos N.W.A., escreveu álbuns na cozinha da mãe e conta histórias que atingiram para muitos os píncaros da perfeição em To Pimp a Butterfly – a canção preferida de Barack Obama em 2015 foi How  Much a Dollar  Cost, desse mesmo álbum. Fala de raça, de fé, de política, de escravatura, da polícia, de sexualidade, violência e contestação. Em DAMN., que vendeu 3,5 milhões de álbuns e já o encontrou no topo, colaborou com Rihanna ou com os U2 e foi a banda-sonora de LeBron James antes de um jogo histórico dos playoffs da NBA de há um ano.

Ted Hearne, compositor e finalista dos Pulitzer musicais deste ano, considera-o “um dos maiores compositores vivos” – “a ideia de que não é música clássica, ou que não é música experimental, ou que não é música artística é completamente infundada”, disse ao New York Times. O Pulitzer premiou alguém tanto no pico das suas capacidades quanto na linha da frente de um renascimento pós-Ferguson da música negra politicamente engajada e justificadamente zangada que pode ser genuinamente comparada com a era de ouro da soul dos anos 1970”, defende por seu turno Alexis Petridis. Também Clay Cane, documentarista, radialista e autor, constata na CNN que “Lamar está a fornecer hinos para os millennials revolucionários por todo o país, da mesma forma que Mississippi Goddam de Nina Simone se tornou um hino para o movimento dos direitos civis”.

O poder simbólico de um Pulitzer para Kendrick Lamar, que assinou a direcção criativa da banda-sonora de Black Panther, é tudo isto para uma expressão cultural que não precisa de validação nem de divulgação. Em 2017, o hip-hop e o R&B foram pela primeira vez os géneros musicais mais consumidos nos EUA. O mainstream é há muito do hip-hop, como o mundo. No Super Bock Super Rock de 2016, Portugal festejou uma parte desse mundo num concerto memorável do autor de Alright, King Kunta e Bitch, Don't Kill My Vibe. Já tinha provado do mesmo remédio em 2014, no Nos Primavera Sound.

Esta distinção serve também para assinalar que além dessa perfuração musical, há uma penetração cultural – do cinema à televisão, de Black-ish a Black Panther, de Atlanta a The Chi, passando por Straigh Outta Compton. Está também a servir para relembrar como os Grammys deram prémios de Melhor Álbum a Bruno Mars ou Taylor Swift e não a Kendrick Lamar ou Beyoncé.

O Pulitzer de Kendrick Lamar é justiça poética, como a sua colaboração homónima com Drake, ecoam as opiniões (e discordam as críticas), porque constata que “a música rap é o idioma pop mais significativo do nosso tempo. É o som do século XXI e da vida americana”, escreve Chris Richards no Washington Post. “É o som de uma nação estragada que luta para se compreender a si mesma”; Kendrick Lamar, lembra Clay Cane, “é a banda-sonora da cultura jovem de hoje e é por isso que o país devia estar a ouvir”.

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