www.dn.ptPedro Tadeu - 17 abr 01:00

Opinião - Se formos para a guerra, quem será traidor?

Opinião - Se formos para a guerra, quem será traidor?

Não sei se na sequência do bombardeamento contra instalações militares do governo da Síria, ordenado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, se entrou numa escalada capaz de levar a NATO a avançar para a guerra e a invadir com um exército aquele país do Médio Oriente. Parece-me que não, mas ninguém pode ter a certeza.

Não sei se na sequência do bombardeamento contra instalações militares do governo da Síria, ordenado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, se entrou numa escalada capaz de levar a NATO a avançar para a guerra e a invadir com um exército aquele país do Médio Oriente. Parece-me que não, mas ninguém pode ter a certeza.

E como, do outro lado, reagiriam a essa invasão as tropas de Bashar al-Assad, bem como os líderes da Rússia, do Irão, da China e de não sei quantos mais países? Estaríamos no limiar de uma III Guerra Mundial? Também acho que não mas eu sei lá: afinal, hoje em dia, parece bastar um tweet de Donald Trump para lixar tudo!

Portugal é membro da NATO e da União Europeia. Este facto obriga os nossos governos, como tantas vezes é dito pelos políticos do centrão, a serem solidários com as posições tomadas pelas duas organizações e pelos países parceiros.

Lembro-me de termos dado essa solidariedade, de forma bastante ativa, à última invasão do Iraque. Foi feita uma operação de manipulação informativa, que durou meses, para fazer a opinião pública acreditar que o governo de Saddam Hussein tinha produzido armas químicas.

Lembro-me de, em Portugal, os jornais em que trabalhei terem alinhado as suas decisões editoriais no sentido de credibilizarem essa mentira, já na altura denunciada por responsáveis qualificados norte-americanos e, até, por inspetores insuspeitos da ONU... E as fake news no Facebook ainda não existiam, como agora.

Lembro-me do entusiasmo das primeiras páginas seguintes a 20 de março de 2003: "Ataque", "Guerra Total", "Ordem para atacar", "Onda de aço", "Vamos para a guerra!" foram alguns dos títulos de página inteira impressos pelos jornais lusos e que os arquivos documentam. E, na televisão, o entusiasmo em tom militante de muitos repórteres está certamente gravado na nossa memória coletiva.

Quem, como eu e muitos outros, nos primeiros tempos após o início da marcha para Bagdad, tentava ensaiar um comentário crítico sobre a invasão, levava bordoada, e da grossa, como esta que ouvi de um camarada de profissão, meu superior hierárquico: "Portugal, mal ou bem, envolveu-se na guerra do Iraque e quem não apoiar o país neste conflito, quem não for solidário com as nossas tropas e com os militares da Nato é, simplesmente, um traidor. As razões desta guerra já não interessam, quem não está com os militares portugueses, repito, Pedro, com todas as letras, é um traidor".

Nunca mais me esqueci desta afirmação: o seu aparente primarismo argumentativo, o seu declarado desprezo pela verdade, a sua indiferença pela racionalidade conseguiam, paradoxalmente, confrontar-me com os meus sentimentos: de facto, como posso eu, em dias de guerra, tomar posições contra o meu país, contra os soldados do meu país? Será que não sou patriota? Será que sou um traidor?...

As perguntas que me incomodavam, porém, poderiam ser rechaçadas em direção aos responsáveis políticos que tinham colocado 140 militares da GNR no teatro de operações. "Mandar soldados correr risco de vida para fazer uma guerra fundada numa aldrabice não é falta de patriotismo? Mandar avançar Portugal para uma guerra injustificada, capaz de provocar milhões de mortos, sem que os cidadãos a discutissem, com base em informações verdadeiras, não é enganar o povo? Aceitar sem qualquer filtro crítico as ordens políticas de norte-americanos não é uma traição ao país?..."

Parece, ao ler alguns jornais, vir aí um tempo em que, de novo, as razões de uma guerra deixarão de ser relevantes e apenas interessará saber como é que Portugal vai aplicar o seu "dever de solidariedade" para com os outros membros da Nato e da União Europeia.

A defesa dos direitos humanos é sempre pretexto para estas ações militares, mas a hipocrisia é evidente: por exemplo, ainda ontem o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte, o senhor general Jens Stoltenberg, esteve em Ancara para apertar a mão ao presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Segundo a página oficial da NATO, Stoltenberg agradeceu o contributo turco e sublinhou os milhares de milhões de dólares gastos pela Aliança Atlântica para financiar a infraestrutura militar turca.

O governo turco decretou o estado de emergência em julho de 2016 (na sequência de uma tentativa de golpe militar que muita gente reputada desconfia ter sido encenado), despediu ou suspendeu 150 mil funcionários públicos por suspeitas ideológicas, prendeu juízes que decidiram sentenças contrárias aos interesses do poder político, atirou para a cadeia mais de 50 mil cidadãos, fechou vários jornais e sabotou a liberdade de expressão. Já nem falo na forma como trata refugiados ou o povo curdo, que reivindica a independência... Um português patriota deve solidariedade a esta gente?

Acho possível o governo Sírio ter utilizado as armas químicas que pretextaram o ataque de retaliação engendrado por Trump, May e Macron. Mas também acho possível estes três terem encenado a repetição da mentira da última invasão do Iraque. Preciso de provas inequívocas.

Se Portugal for para a guerra, quem serão, afinal, os traidores?

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