eco.pteco.pt - 17 abr 16:32

Ter um negócio é como lançar livros: só para alguns

Ter um negócio é como lançar livros: só para alguns

Eugénio Galdón acaba de terminar mandato de quatro anos na presidência da Fundação everis. Ao ECO, o empresário reconhece que nem todos podem ser empreendedores mas que... isso também se aprende.

Ser empreendedor nasce connosco ou, a determinado momento, nasce em nós? Eugénio Galdón, ex-presidente da Fundação everis, tem claro o dia e a hora em que passou de “não empreendedor a empreendedor”. “Tinha muito sucesso e, num momento, depois de uma discussão com um colega, perdi a disputa e mandaram-me embora. E, como consequência disso, acabei por promover dias depois o maior promotor de banda larga, a Ono. Mas eu não sou empreendedor voluntário, eu sou uma pessoa que ficou sem trabalho aos 41 anos, e que tem de decidir o que fazer nesse momento“, recorda, em entrevista ao ECO.

Mas, haverá mesmo uma fórmula secreta? Galdón acredita que a única característica que pode funcionar como catalisador é “querer mudar o mundo”. O resto, diz, é sem regras.

Eugenio Galdón foi durante quatro anos presidente da Fundação everis. É empreendedor e fundador da Multitel, grupo de media, comunicação e telecomunicações em Espanha. Fundação everis

Galdón acaba de terminar quatro anos de mandato à frente da Fundação everis, uma organização ligada à empresa com o mesmo nome e que tem como principal objetivo funcionar como promotor de empreendedorismo, prestando apoio aos projetos que, um pouco por todo o mundo, se relacionam com a organização.

“Há alguns anos, a Fundação decidiu começar a investir em projetos a nível mundial — e não apenas em Espanha, que tinha sido o foco nos primeiros anos –, e essa mudança foi estratégica. A Fundação everis vive da generosidade das pessoas”, assegura. E, se a empresa cresce, cresce também a rede de contactos. Por isso, em vez de contar com assessoria de consultores e empresas apenas em Espanha, a comunidade alargou-se até agora a dez países do mundo, e conta com uma rede de mais de 20 mil pessoas. “Na medida em que a consultora vai crescendo, a Fundação encontrou consultores em mais países, dispostos a doar tempo gratuitamente para mentoring, e também a organizar mentorias com miúdas em risco, relacionadas com questões sociais, de liderança e desenvolvimento de carreira. Ao mesmo tempo que implementa a plataforma de crowdfunding, faz ateliês de robótica”, explica o empresário.

Muito focada na América latina e nos Estados Unidos, a Fundação decidiu também criar um concurso de ideias de negócio que, no ano passado, contou com 1.254 candidaturas aceites, entre as mais de 2.400 submetidas. A ideia? Manter perto empreendedores e os projetos apoiados.

“O prémio é conhecido, e tem grande ligação às universidades e aos centros de empreendedorismo. E, além disso, nos últimos anos, utilizámos bem as plataformas digitais para que o prémio e o trabalho da fundação fossem conhecidos. Não se trata só de dinheiro mas de muitas horas de consultoria em favor dos projetos selecionados”, explica. Na prática, isso significa que, depois da primeira seleção, os 66 projetos escolhidos — e que passam às semifinais — já receberam apoio. E que os seis que passam à grande final têm consultores que cobram à hora 300, 400 ou 500 euros, e que lhes oferecem essas horas para fazer planos de negócios, de marketing, ligados a patentes e inovações.

Não se trata só de dinheiro mas de muitas horas de consultoria em favor dos projetos selecionados.

Eugenio Galdón

Fundação everis

“É mais a relação soft, de rede, que eu acho que se valoriza a cada edição dos prémios. E essa é uma característica muito especial. Interessa-nos premiar, ter aqui uma entrega de prémios, mas sobretudo acompanhar os projetos. Eu sigo a evolução desde o primeiro vencedor”, detalha Galdón.

Tendências? Há muitas

Galdón defende que, ao longo dos últimos anos, é clara a diversificação dos negócios, não só pela moda do digital” mas, sobretudo, pela “hibridez” dos projetos. “Eu distinguiria duas tendências: o digital pelo digital, pela inovação e sofisticação. E, com maior impacto, a criação de uma infraestrutura digital que dá um passo sobre o mundo real. E sobre esses, temos visto muitos híbridos. A indústria e o mundo do digital, a biotecnologia e o digital, essa classe de empreendedores é o que mais avança nestes últimos dois ou três anos”, explica.

"Como dizia o escritor, todos temos um livro na cabeça e esse é o sítio onde ele deve ficar para a maioria dos mortais. ”

Eugenio Galdón

Fundação everis

“Eu digo sempre aos empreendedores e aspirantes que, se não têm uma ideia que faça de uma parte da vida algo melhor que antes — não tem de ser uma invenção, pode ser uma recombinação, mas que faça um antes e depois, pequeno ou grande –, o melhor é que fiquem em casa. Como dizia o escritor, todos temos um livro na cabeça e esse é o sítio onde ele deve ficar para a maioria dos mortais. E cumprindo essa máxima, talvez toda a gente tenha um projeto de empreendedorismo na cabeça mas, se quando se projeta o negócio isso passa, em primeiro lugar, por se enriquecer a si mesmo, e não passa por mudar algo da vida real, para o antes e o depois, o melhor lugar onde pode ficar é na cabeça do empreendedor”, assegura.

Por isso, é com alguma estranheza que Galdón continua a ver muito mais homens do que mulheres a arriscarem uma carreira empreendedora. “Há um bloqueio na sociedade face à mulher empreendedora que, em parte, também está na própria mulher. O estabelecido é o ‘empreendedor da testosterona’, que trabalha 24/7. No entanto, as soft skills mais presentes nas mulheres são infinitamente mais eficazes na economia de hoje porque se trata de uma economia colaborativa. É uma coisa completamente natural na mentalidade feminina e não tanto na masculina: flexibilidade, empatia”, detalha.

Mais uma edição

As candidaturas à 17.ª edição dos prémios everis para o empreendedorismo terminaram a 2 de abril e podiam estar entre as seguintes categorias: Biotecnologia e Saúde, Tecnologias Industriais e Novos Modelos de Negócio na Economia Digital. Entre os prémios estão 60.000 euros e um pacote de serviços de consultoria avaliado em 10.000 euros ao vencedor mundial.

“O Prémio everis é um marco muito importante no nosso ano, um momento em que estamos em contacto direto com jovens empreendedores provenientes de todo o mundo. São mais de 30 países diferentes a concorrer, uma diversidade riquíssima onde há lugar a partilha de um imenso conhecimento. Portugal é um país altamente inovador e os projetos que têm vindo a participar nos prémios everis são de uma enorme qualidade, representando o país da melhor forma”, explica António Brandão de Vasconcelos, chairman da everies em Portugal e trustee da Fundação everis.

Os vencedores serão escolhidos por um júri de profissionais e clientes com experiência em projetos de empreendedorismo, tendo em conta o nível de inovação, o modelo de negócio e a solução apresentada. As semi-finais serão em Madrid e Barcelona. Na última edição, o prémio recebeu 1.042 candidaturas vindas de 30 países diferentes. Na edição de 2017, Portugal esteve representado por 12 startups semi-finalistas, duas das quais chegaram à final: Heptasense e PEGASEMP, na área da tecnologia e da saúde, respetivamente.

Em 2016, a Exogenus Therapeutics, uma empresa biotecnológica portuguesa, foi a grande vencedora a quem a Fundação entregou 60.000 euros em serviços de consultoria. Vocacionada para o desenvolvimento pré-clínico e clínico de terapias celulares aplicadas à medicina regenerativa, a empresa desenvolveu o Exo-Wound, para o tratamento de feridas crónicas que afetam mais de 75 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais 70% não têm cura com os tratamentos padrão.

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