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Opinião. Bispo, ponte e nome: uma sugestão tímida e amiga

Opinião. Bispo, ponte e nome: uma sugestão tímida e amiga

Alguns já verberaram a escolha do seu nome por se tratar de um bispo católico. Não há nenhuma razão para essa tentativa de banimento histórico da religião e da liberdade religiosa.

1. Na semana que passou, os edis de Gaia e do Porto revelaram a decisão de construir uma nova ponte sobre o rio Douro. A comunicação foi acompanhada do anúncio, com alto valor simbólico e emotivo, do nome que vão dar à nova obra: Ponte D. António Francisco dos Santos. D. António foi o último e muito querido bispo do Porto, que faleceu repentinamente em Setembro de 2017 e que tive o privilégio de conhecer. Muito sintomaticamente, este anúncio foi feito na semana anterior à entrada em funções de um novo Bispo do Porto, D. Manuel Linda. Bispo que aqui se saúda e a quem se deseja a maior felicidade para o desempenho do novo serviço. A julgar pelo conjunto de declarações que fez no período que mediou entre a sua designação e a sua tomada de posse, parece francamente inclinado a exercer o múnus profético que sempre se espera das pessoas da Igreja. Com efeito, como aqui escrevi há vários anos, se há carisma que, por estes tempos, tem minguado à Igreja portuguesa é justamente a assunção pública da sua responsabilidade profética. E se há Igreja particular que o tem na sua tradição – especialmente visível ao longo de todo o século XX, por exemplo, em D. António Barroso e em D. António Ferreira Gomes – é a Igreja portucalense, agora sob a orientação de Manuel Linda.

2. A construção de uma nova ponte suscita decerto muitas e complexas questões, às quais aquela primeira comunicação não deu qualquer resposta. E essas questões mereceriam decerto um ou mais artigos. Falta ainda conhecer os estudos, compreender as opções, fundamentar as escolhas. Seja como seja, este é um primeiro anúncio e todo esse material – sempre carecido de discussão e escrutínio público e que, em grande parte, já deve estar na mão dos ora decisores – virá decerto à luz do dia. Hoje gostaria de me concentrar, apenas e só, na simbologia da escolha do nome da nova ponte. Ficará de lado a actualidade global, europeia e nacional, que, pela gravidade e seriedade do momento vivido, justificaria aqui redobrada atenção. E ficará à margem a análise da decisão técnica e política de levar por diante esta concreta “obra de arte”, que, em qualquer caso, é sempre uma boa nova para as duas cidades e para toda a região. Queria, até para assinalar a chegada de um novo bispo à diocese do Porto, cingir-me à questão simbólica da atribuição do nome. Na verdade, desde as primeiras linhas desse texto fundacional “meio divino-meio humano” que é o Livro do Génesis, que o momento e o acto de dar nome a pessoas, seres vivos, objectos e empreendimentos faz parte do “mistério” do domínio humano sobre a terra.

3. Não preciso de encarecer agora os méritos da figura terna e grande que foi o Bispo António Francisco dos Santos – fi-lo, de resto, neste mesmo espaço num artigo publicado a 12 de Setembro de 2017. Dele, pela sua humanidade e simplicidade, se poderia dizer com Santo Ireneu de Lião: “a glória de Deus está na vida do homem sobre a terra”.

Alguns já verberaram a escolha do seu nome por se tratar de um bispo católico. Eis um argumento absolutamente inaceitável: não há nenhuma razão para essa tentativa de banimento histórico da religião e da liberdade religiosa.

4. No caso da diocese do Porto e, em particular, da cidade, há até um argumento histórico forte. Desde a fundação da cidade até aos alvores da nossa nacionalidade e depois durante toda a Baixa Idade Média, o Bispo do Porto desempenhou um papel do mais alto relevo. A cidade dividiu-se entre a burguesia mercantil e o bispo, nas tensões entre ambos, pelo que a figura episcopal está indelevelmente gravada no seu código genético. Fala-se muito da tradição burguesa e mercantil do Porto, mas esquece-se a relevância fundadora desse seu braço eclesial. Faz, pois, todo o sentido e é de toda a justiça um tributo duradouro a essa raiz, a essas raízes.

5. Vale a pena, no entanto, atentar na importância de outros bispos do Porto, cujo relevo na vida local, regional e nacional – até internacional – foi muito visível. O primeiro pensamento vai logo para D. António Ferreira Gomes, pela sua estatura filosófica e intelectual e pelo seu combate pela liberdade que o levou a escrever o Pró-memória a Salazar (também conhecido como Carta a Salazar) e a um exílio forçado de 10 anos, com regresso à diocese em 1969. Depois disso, o combate à deriva comunista e totalitária do pós-25 de Abril, a defesa intrépida dos direitos sociais e dos trabalhadores, a coragem de se dirigir ao Papa em defesa da sua visão da Igreja conciliar (nas célebres Cartas ao Papa). O ensinamento de Ferreira Gomes é, aliás, objecto do trabalho de doutoramento do novo bispo Manuel Linda. E mais longinquamente vale a pena evocar D. António Barroso, cujo centenário da morte se celebra este ano. Também ele foi detido e esteve exilado por dois períodos, em plena I República, pela luta em prol do restabelecimento da liberdade religiosa. Luta que prosseguiu, note-se, sem pôr em causa a legitimidade do regime republicano, mas sim o cerceamento que este fez da liberdade de crença e de culto dos cidadãos.

6. Ora, dando-se o caso de, por um simples mas feliz acaso da história, estas três grandes personalidades episcopais, terem como nome de baptismo o nome de António, talvez fosse interessante fazer uma homenagem que pudesse englobar os três. Diga-se, aliás, que no século XX, houve mais dois Antónios como bispos do Porto (precisamente entre estes dois últimos). Em termos práticos, aliás, não é crível que alguém acabe a designar a ponte por uma denominação tão longa quanto a que está prevista. Seguindo esta sugestão, que faço com delicadeza e até com timidez, podia bem abreviar-se o nome da ponte para Ponte D. António. E com isso, homenagear esse homem do nosso tempo, mas também aqueles dois vultos da cidade e da região. E neles, celebrar o papel da figura episcopal na história das duas cidades ribeirinhas, cidades que, também elas, deram e dão o seu nome. Dão o nome a Portugal.

SIM. Margarida Balseiro Lopes. A nova presidente da JSD é a primeira mulher a liderar a organização. Os seus carisma e inconformismo são a garantia da afirmação das novas gerações no PSD.

NÃO. Ministro Santos Silva. O regresso do nosso embaixador a Moscovo continua a ignorar o dano que a ambiguidade do MNE infligiu a Portugal. No contexto actual, contradita a apregoada prudência.

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