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Do idealismo à massificação, por que caminho vai o Open Source?

Do idealismo à massificação, por que caminho vai o Open Source?

A primeira coisa que ocorre quando se fala em Open Source ou Open Software é a sua acessibilidade gratuita. É exatamente a palavra “free” que causou confusão e desconforto ...

A primeira coisa que ocorre quando se fala em Open Source ou Open Software é a sua acessibilidade gratuita. É exatamente a palavra “free” que causou confusão e desconforto há 20 anos, quando surgiu o movimento Open Source Initiative (OSI). Mais que gratuito, a ideia da colaboração e partilha movem a paixão daqueles que acreditavam, e acreditam, que Open Source tem de continuar a existir, qual Robin dos Bosques, para confrontar a “supremacia” do software fechado das grandes corporações empresariais.

Open Source é software gratuito que pode estar presente em aplicações diretas, como o sistema operativo Linux ou o OpenOffice, uma alternativa gratuita ao Office da Microsoft. É tudo isto, mas não deixa de ser a ponta de um iceberg, e 20 anos depois da criação da OSI (data comemorada este ano em fevereiro) é possível assistir como o software gratuito está presente nas grandes empresas, nas plataformas governamentais, nas escolas, por detrás dos servidores de internet, nas redes sociais, e nas ferramentas de segurança, apenas para referir alguns.

“A Internet é certamente a maior beneficiária das soluções e projetos Open Source. Projetos como o Apache, Bind9, Sendmail/Postfix/Exim, entre outros, foram alguns os impulsionadores de base da Internet”, testemunha Raúl Oliveira, presidente da ESOP - Associação de Empresas de Software Open Source em entrevista ao SAPO TEK. Refere ainda que as tecnologias utilizadas nos serviços de cloud nos dias de hoje continuam a ser dominadas pelo “motor de inovação e geração de valor” concedido pelo Open Source.

Já Marcos Marado, presidente da Ansol – Associação Nacional para o Software Livre, lembra que o Open Source está em todo o lado. “Em 2015, 78% das empresas dependiam do software livre, e apenas 3% não o usavam por completo”, referiu ao SAPO TEK, embora considere que ainda existe muito desperdício por não se utilizar este tipo de software.

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Em 2008, um relatório da Standish Group, empresa especialista em projetos TI, refere que a adoção de modelos de software baseado em open source resultou em poupanças na casa dos 60 mil milhões de dólares por ano aos seus consumidores. Acabada de completar 25 anos de história, a RedHat é uma das maiores empresas ligadas ao Linux que “até há bem pouco tempo era a única firma Open Source do mundo a faturar mais que mil milhões de dólares”, apontou Raúl Oliveira como o maior exemplo de que o modelo Open Source permite criar empresas de grande dimensão e muito rentáveis. Claro que seriam bem-vindas mais empresas semelhantes, “e se uma delas pudesse ser europeia, seria o ideal”, salientando a necessidade de apostar e investir neste tipo de empresas na Europa.

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Há quem defenda que em Open Source todos os problemas fáceis já foram resolvidos, o que significa que os utilizadores apenas têm de se preocupar em criar e enriquecer os seus projetos, pegando em bases bem estabelecidas pela colaboração das várias mentes da comunidade Open Source. “As soluções Open Source permitem às empresas inovar de forma rápida, e criar soluções para os seus negócios que não tem equivalente no mercado, em tempo recorde”, salienta Raúl Oliveira, “o Céu é o limite”.

O nascimento da Open Source Iniative
Embora as noções de Open Source já se falassem durante os anos 1970-80, numa alternativa à comercialização do software ou à introdução do sistema operativo GNU em 1983, composto por software gratuito, foi em 1998 que o termo explodiu. Isto deveu-se à Netscape Corporation ter libertado o seu popular browser de internet como software gratuito. Com este gesto, milhões de pessoas puderam ter acesso pela primeira vez à internet. O seu código viria a ser a base para os browsers Firefox e Thunderbird da Mozilla.

Em 1998 nasceu também a Open Source Initiative (OSI), um organismo sem fins lucrativos, sedeado na Califórnia, nos Estados Unidos, reconhecido pela comunidade Open Source. O objetivo era rever e aprovar licenças baseadas nestas soluções. A entidade, que cunhou o termo Open Source, é um importante evangelizador da comunidade, na educação e na advocacia pública para sensibilizar e promover a importância de software sem proprietário.

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Segundo Simon Phipps, especialista em economia digital, e apoiante dos “mandamentos” da OSI, “a primeira década foi controversa na defesa dos direitos, mas a segunda ficou marcada pela adoção e adaptação”. Ou seja, os primeiros anos ficaram marcados pela procura de modelos de negócio que suportassem a contribuição gratuita, mas ainda assim ser-se pago. Nos anos seguintes foi a luta por manter a participação, mas sem controlar ou ser controlado.

Ainda dividindo as duas décadas pela metade, Simon Phipps afirma que na primeira as soluções de software Open Source eram reposições dos produtos pagos, ao passo que na segunda estes tornaram-se componentes de soluções maiores. Considera ainda que inicialmente os projetos eram produzidos nas horas livres, mas na segunda década por especialistas profissionais. Esta é a evolução da mentalidade Open Source que pode ser vista em qualquer área onde é aplicada.

Se o Open Source serviu como fundação para a internet e a world wide web, atualmente está na base dos computadores e dos dispositivos mobile que utilizamos, e sobretudo, as redes que ligam tudo. “Sem Open Source, seria impossível ter cloud computing ou a imergente Internet das Coisas. Permitiu novas formas de criar negócios que já foram testados e provados, o que possibilitou empresas gigantes como o Google e o Facebook de começar do topo da montanha onde outros já haviam escalado”, conclui Simon Phipps.

 

Como afirma Raúl Oliveira da ESOP, “os projetos e as organizações Open Source partilham o mesmo objetivo, unir pessoas e empresas, no sentido de em conjunto produzirem mais e melhor software em cooperação”, seja para obter sucesso financeiro ou notoriedade, individual ou de grupo. “Basta olhar para a Google, Amazon, Alibaba e até a própria Microsoft, e já teremos uma perspetiva dos gigantes envolvidos em contribuir para imensos projetos Open Source”, conclui confiante.

O presidente da ESOP também dá o exemplo do Facebook e Google como expoentes máximos da utilização de Open Source. “A mais famosa rede social do mundo, e com impacto brutal na nossa sociedade, está totalmente assente em componentes de software Open Source”, embora o seu código não esteja aberto a todos para o estudar. Também o Google, o motor de busca mais utilizado, assenta em milhares ou milhões de servidores instalados com sistemas operativos e soluções de sistemas Open Source, garante Raúl Oliveira, tendo a empresa desenvolvido soluções críticas para a sua operação que são hoje projetos Open Source. Ainda que considere que as duas empresas gigantes não tenham resolvido algum problema em si, a dependência da sociedade nos seus produtos causaria um problema se estes desaparecessem de um segundo para outro.

E o futuro? Marcos Marado da Ansol acredita que o modelo Open Source, embora tenha sido explosivo no passado, vai continuar a crescer: “Quantos mais casos, pessoas, projetos, empresas e cenários houver em que o modelo é testado e comprovado, mais pessoas, decisores e entidades entenderão e vão adotar o conceito”.

Segurança e evolução futura do Open Source

A cada dia que passa, termos como Internet das Coisas, Inteligência artificial, smart cities e machine learning são cada vez mais populares, nas suas diversas aplicações. As ligações à internet vão ficar mais rápidas com a chegada do 5G e da substituição das redes wireless Wi-fi por Lifi. O software open source vai ter um papel crucial em cada uma das tecnologias, mas a segurança é uma das principais preocupações dos agentes envolvidos.

“Há um paradigma no que diz respeito à atualização de software que tem de ser questionado, cada vez mais, conforme vamos adicionando inteligência a determinados tipos de produtos. Quantos routers e outros dispositivos existem ainda a ser usados com vulnerabilidades como o Heartbleed Bug, que tem já quatro anos, quando a maior parte destes dispositivos não está preparado para a ideia do consumidor poder querer atualizá-lo?”, salienta Marcos Marado sobre a segurança que o futuro acarreta.

O presidente da Ansol demostra preocupações de segurança dando o exemplo do boom dos smartphones e da incapacidade de os fabricantes garantirem atualizações dos dispositivos logo após surgirem indícios de problemas. Ainda recentemente um estudo revelava que os fabricantes de dispositivos Android nem sempre são honestos quanto às atualizações de segurança e respetivas informações. “Estas questões estão agora a ser pensadas por cada vez mais gente, numa altura em que já estamos a tornar os nossos relógios, monitores de bebés, carros, frigoríficos e máquinas de lavar em autênticos computadores”, afirma Marcos Marados sobre a massificação da Internet das Coisas.

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Raúl Oliveira considera que as soluções Open Source continuarão a ser decisivas em todos os setores das TIC, sobretudo no desenvolvimento de novas soluções de inovação, como até agora. “Faz parte da história do Open Source estar à frente, desde que a Internet se tornou no meio de comunicação das comunidades Open Source”, refere o presidente da ESOP.

Outro assunto atual que tem causado polémica diz respeito à Net Neutrality, ou melhor, o fim da neutralidade da internet nos Estados Unidos, que acaba por contradizer todos os princípios de liberdade pactuados pelo Open Source. Na prática, a lei impede que o tráfego online seja tratado como igual, permitindo às operadoras de telecomunicações descriminar o acesso a conteúdos ou a disponibilizar o acesso a certos sites mediante o pagamento de serviços.

O assunto foi bastante discutido no espaço da União Europeia, onde se mantém o princípio de neutralidade de internet, mas, apesar das normas de conduta, as entidades portuguesas como a ESOP defendem a necessidade de clarificação da regulação aplicável aos serviços de telecomunicações de acesso à internet. A associação afirma que é fundamental todo o tipo de debate público para alertar sobre a ameaça global, para já protegida na Europa da neutralidade da internet.

Para comemorar os seus 20 anos, a OSI inaugurou o portal Opensource.net, local onde os membros podem participar no programa de mentores e de boas práticas da comunidade, de forma a promover o Open Source para as próximas duas décadas.
E em Portugal?

Também em Portugal o Open Source vai viver uma nova dinâmica nos próximos anos, refere o presidente da ESOP, com a criação de um Centro de Competências Open Source alargado. O objetivo é criar um espaço onde as empresas e instituições públicas possam partilhar os seus desafios, conhecimento e desenvolverem projetos comuns para dinamizar e atingir um novo patamar do Open Source em Portugal.

Marcos Marado também acredita que o a comunidade de software livre está mais forte que nunca, deixando o convite para algumas iniciativas que vão ocorrer em Portugal durante o ano: a conferência internacional sobre Java, JNation, que decorre no dia 19 de junho em Coimbra; o encontro europeu de Drupal, que terá lugar no ISCTE, em Lisboa, entre os dias 2 a 6 de julho; e o encontro europeu sobre o software livre geospacial, entre os dias 16 a 21 de julho em Guimarães.

O futuro parece ser risonho para o Open Source, cada vez mais integrado no quotidiano da sociedade dependente dos bens e serviços eletrónicos. O acesso à internet pode ter sido apenas o início da aventura das coisas ligadas ao Open Source, mas no futuro, será a Internet das Coisas a base da sociedade. Com toda a curiosidade e excitação ligadas à inovação, mas também com a cautela e preocupação derivados dos perigos de segurança e utilizações indevidas.

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