www.publico.ptpublico.pt - 17 abr 19:23

Donald Trump. Washington quer que forças árabes substituam os seus militares na Síria

Donald Trump. Washington quer que forças árabes substituam os seus militares na Síria

Ministro saudita diz que Riad poderá contribuir com tropas para coligação alargada contra o Daesh. Mas potenciais parceiros têm interesses diferentes ou antagónicos.

A Administração de Donald Trump está a tentar juntar uma coligação de forças árabes para substituir as tropas americanas na Síria, noticiou o diário Wall Street Journal. A Arábia Saudita não só se disponibilizou para participar como o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Adel al-Jubeir, declarou que Riad já tinha proposto uma ideia semelhante ao antigo Presidente Barack Obama.

A ideia é que esta força ajude a estabilizar o Noroeste do país após a derrota do Daesh, que ainda está em algumas zonas de fronteira – estima-se que haja ainda entre 5000 a 12 mil combatentes do grupo na Síria.

Do lado americano, o plano terá apoio de Erik Prince, o fundador da empresa paramilitar Blackwater, acrescenta o jornal. A Blackwater, que em 2007 esteve implicada na morte de dez pessoas num tiroteio no Iraque (cinco mercenários foram condenados em 2015), ajudou mais tarde os Emirados Árabes Unidos e a Somália a criar forças de segurança privadas.

Prince terá dito, segundo o Wall Street Journal, que foi contactado por líderes árabes sobre um plano para criar uma força para a Síria, mas que esperava para ver o que faria Donald Trump.

O jornalista que escreveu o artigo, Dion Nissenbaum, comentava no Twitter que esta não é a primeira vez que há a ideia de contratar uma empresa privada para substituir militares americanos no terreno: Erik Prince já teria feito esta proposta à Administração Trump para substituir as forças americanas no Afeganistão, mas a ideia foi recusada.

O Presidente dos EUA já disse várias vezes que queria retirar as forças americanas da Síria, sendo avisado do risco que correria ao retirar antes de uma derrota total do Daesh, e mesmo depois, se não assegurar a reconstrução e impedir um ressurgimento.

Ter uma força de outros aliados retiraria a responsabilidade aos EUA, deixando algum controlo para evitar que os jihadistas reaparecessem.

Um responsável da administração indicou que tinham sido abordados responsáveis da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar e para “darem mais apoio financeiro e contribuírem de um modo mais lato”. Outras fontes disseram que John Bolton, o novo conselheiro de Segurança Nacional de Trump, tinha falado recentemente com o responsável dos serviços secretos do Egipto Abbas Kamel para sondar a disponibilidade do Cairo em contribuir com tropas.

Mas a ideia enfrenta vários obstáculos. Logo no Wall Street Journal, Charles Lister, do centro de estudos Middle East Institute, com sede em Washington, apontou o primeiro: “A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão envolvidos militarmente no Iémen, e o Egipto terá relutância em defender território que não seja controlado pelo regime do Presidente Bashar al-Assad”, disse. Michael O’Hanlon, da Brookings Institution, também disse que a nova força teria de "ser suficientemente forte para enfrentar Assad ou o Irão se estes tentarem reclamar território, talvez com a ajuda da Rússia".

Charles Lister acrescenta que “os países árabes dificilmente enviarão forças para a Síria se o Exército dos EUA não mantiver manter algumas tropas” na Síria. E observadores notam ainda que no caso do Egipto, os militares estão empenhados na luta contra jihadistas no Sinai e que raras vezes o país participa em missões fora das suas fronteiras.

O analista Thomas Joscelyn, de outro think-tank de Washington, a Foundation for Defense of Democracies, apontou outros problemas ao site Vice News. Nenhum dos países mencionados teve um papel de relevo na luta contra o Daesh – esse pertence aos curdos que, sublinhou, não são aliados naturais de nenhum dos Estados que poderiam participar nesta força.

Os países mencionados, sobretudo a Arábia Saudita e o Egipto, por um lado, e o Qatar, pelo outro, também têm rivalidades entre si – em Junho do ano passado, os dois primeiros cortaram mesmo relações com o segundo, submetendo-o a um boicote por vários motivos, um deles a sua relação mais próxima com o Irão.

“Em resumo”, declarou o analista, “a Administração Trump quer construir uma nova aliança contra o Daesh na Síria que nunca antes existiu e que juntaria todo o tipo de interesses antagónicos que não estão alinhados com os da América”.

Charles Lister conclui que "não há qualquer precedente para isto se tornar numa estratégia de sucesso".

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