www.publico.ptpublico@publico.pt - 16 abr 06:36

Opinião. Zuckerberg e o ensino de Ética na engenharia

Opinião. Zuckerberg e o ensino de Ética na engenharia

A sociedade de hoje exige profissionais que saibam ler o mundo através de lentes que vão além das suas competências técnicas.

O uso global de tecnologias computacionais, bem como as transformações sociais daí decorrentes, têm trazido a debate questões sobre os modelos de negócio das empresas digitais e a ética por trás das aplicações por elas desenvolvidas. O recente escândalo envolvendo a apropriação política de dados privados de utilizadores do Facebook mostra apenas uma face de um problema, que atravessa o processo de desenvolvimento das plataformas computacionais: ainda que os impactos provocados pela introdução de uma dada tecnologia sejam de difícil previsão, eles dependem não apenas de opções técnicas, mas de opções éticas da parte de múltiplos intervenientes, desde a idealização e programação da tecnologia até ao seu teste.

A audição no Congresso norte-americano do líder do Facebook, Mark Zuckerberg, não por acaso também o idealizador e programador da primeira versão do algoritmo da plataforma, remete-nos para uma questão com que o ensino da informática se confronta: se as aplicações computacionais são imaginadas ou programadas por profissionais da informática, onde se situa a responsabilidade do designer de uma aplicação que se venha a mostrar – mesmo que não intencionalmente – violadora de direitos, liberdades ou garantias dos cidadãos? Pode um profissional da informática avaliar riscos e exercer competentemente a sua profissão sem ampla formação base de Ciências Humanas e Sociais? Como lidar com o facto de as tecnologias transformarem o mundo a uma velocidade maior que a capacidade para regulamentar os seus efeitos, e como incorporar questões éticas e de responsabilidade social nos seus processos de design? Se o papel do cientista é o de um espectador, que intervém no mundo ao observá-lo, o informático e o engenheiro estão sempre prontos a adaptar o mundo aos desejos das pessoas. Mas o mundo de artefactos técnicos que antes nos auxiliava de modo aparentemente neutro – de uma chave de parafusos a um processador de texto – impõe-nos agora conviver com sistemas computacionais de carácter sociotécnico que definem hierarquias de valores a priori. Hierarquias determinadas pelo designer que concebe o algoritmo, tais como os algoritmos de pesquisa no Google ou de sugestões de encontros românticos ou sexuais no Tinder. A ordenação resultante de uma pesquisa no Google é apenas uma entre muitas possíveis, determinada por um algoritmo cujo código é muitas vezes desconhecido por limitações de direitos de propriedade intelectual ou de segredo comercial, mas cujo funcionamento tem inerente um quadro de valores. Fosse outra a empresa dominante – ou existissem várias empresas dominantes –, os resultados das pesquisas, os dados e as conclusões decorrentes seriam – com pequenas ou grandes diferenças – outras, inclusive aqueles dados recolhidos para uso em jornalismo, formação de opinião e investigação científica.

Este contexto difere dos pressupostos tradicionais do ensino da engenharia, em particular na informática, em que se transmite erradamente ainda hoje a ideia da neutralidade das tecnologias, onde os processos de design seriam realizados segundo uma mera valorização de proficiência técnica. O problema é que a proficiência é medida em última análise através de interpretações sobre o que representa em termos de objectivos das ferramentas desenvolvidas.

Os profissionais da informática são hoje, cada vez mais, novos designers sociais. A necessidade de providenciar uma boa base de formação em Ética, Filosofia Moral e deontologia profissional nos cursos de Engenharia Informática é reconhecida pelas agências internacionais de regulação da profissão, que recomendam de 5% a 6% de créditos de formação base nessas áreas (IEEE CS2013). Porém, dos quatro departamentos de informática em universidades públicas na zona de Lisboa, apenas dois incluem esta disciplina obrigatória nos planos dos 1.º/2.º ciclos, mas que em ambos os casos cobre menos de 2,5% de créditos de formação base. Este é pois um panorama do ensino das engenharias que urge mudar. A sociedade global e tecnicizada de hoje exige profissionais que saibam ler o mundo através de lentes que vão além das suas competências técnicas.

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