tribunaexpresso.ptDuarte Gomes Duarte Gomes - 16 abr 15:54

Dois jogos muito difíceis, vários lances bem decididos, outros nem por isso... e alguns "nins": a análise de Duarte Gomes à 30.ª jornada

Dois jogos muito difíceis, vários lances bem decididos, outros nem por isso... e alguns "nins": a análise de Duarte Gomes à 30.ª jornada

O antigo árbitro dá nota positiva a Artur Soares Dias, que esteve no Benfica-FC Porto, e deixa alguns reparos à atuação de Bruno Paixão no Belenenses-Sporting, naqueles que foram os jogos mais importantes da ronda 30 do campeonato nacional

Nesta jornada, o clássico da Luz e o derby do Restelo dominaram as atenções do futebol português.

Ontem, a capital foi palco de dois jogos muito importantes na luta pelo título de campeão e pelo apuramento à Liga dos Campeões.

Como se esperava, a emoção teve presente em ambas as partidas e até bem perto do apito final: um grande golo de Herrera decidiu um dos jogos e sete golos num espectáculo eletrizante, brindaram os adeptos no outro.

Quanto às arbitragens, o que se esperava: dois jogos muito difíceis, vários lances bem decididos, outros nem por isso... e alguns "nins", que é como quem diz, momentos em que a subjetividade de análise foi de tal forma marcante que a decisão certa seria sempre aquela que cada um entendesse ser a mais adequada.

Por muito que o povo exija carimbos e sentenças em cada lance e a cada frame, a verdade é que num espectáculo com dinâmica, contactos e alguma malandrice, isso nem sempre é possível. Um dia, vamos todos perceber o motivo pelo qual as leis de jogo enunciam a premissa: "Se na opinião do árbitro (...)".

Até lá, uns puxam para a esquerda e outros para a direita. Depende das dores do coração e da cor dos olhos. Faz parte.

O clássico do Luz

Artur Soares Dias teve jogo intenso pela frente. A opção inicial, de punir faltas atacantes com mais determinação e rigor do que as restantes, encerrava determinação estratégica em controlar o jogo e as emoções dos seus principais intervenientes. Ainda assim, o internacional do Porto tentou - de um modo geral - aplicar critério técnico e disciplinar largos, o que diga-se fez com coragem e coerência, até ao seu apito final.

Disciplinarmente, esteve quase sempre bem embora tenha cometido alguns erros: Sérgio Oliveira, Otávio, André Almeida, Alex Telles, Grimaldo e Herrera foram advertidos com inteira justiça.

No entanto, Felipe travou Grimaldo após triangulação deste com Jimenez e podia ter visto o amarelo (no mesmo lance, Sérgio Oliveira arriscou e infringiu novamente, mas só depois da primeira falta, cometida pelo central brasileiro). Depois, o recém-entrado Samaris fez duas faltas duras. A primeira (no mínimo) justificava a advertencia: o pisão a Herrera foi claramente negligente.

Pelo meio, Soares Dias foi sempre tomando boas decisões técnicas, com um ou outro lapso de apreciação, em jogadas de menor importância: Rúben Dias parece ter carregado Marega (braço nas costas/nuca) ainda fora da área encarnada; após cruzamento de Rafa, Alex Telles viu a bola bater-lhe no ombro esquerdo, em lance onde não fez qualquer movimento deliberado.

Para o final, o chamado lance "desmancha-prazeres", que é como quem diz, o tal do nim: aquele que permite que cada um faça a sua leitura, em função da sua perspetiva. Zivkovic entrou na área do FC Porto, adiantou a bola e viu Ricardo, que estava à sua frente, interpor-se no seu caminho (usando o braço esquerdo). Após o contacto entre ambos, a queda do benfiquista.

Vendo as imagens repetidamente e em movimento lento, pode haver a sensação que a ação do lateral do Porto não foi inocente. No entanto, lances em que está em causa a intensidade de um contacto devem ser analisados em velocidade normal, tal como aconteceram na jogada real, à flor da relva. E aí, o contacto - apesar de forçado - pareceu legal: Ricardo esticou o braço no seu movimento de rotação para disputar o lance, tocou em Zivkovic mas não foi claro que esse toque tenha sido suficiente para a queda do extremo encarnado. Diga-se que durante a partida e em lances idênticos, Soares Dias usou o mesmo critério: não puniu. Dada a dúvida da jogada, aceitamos como boa a decisão de não punir.

Da Luz para o Restelo

No Restelo, Bruno Paixão dirigiu aquela que terá sido uma das partidas mais difíceis da Liga NOS até ao momento: três situações de penálti, golos precedidos de falta, video-intervenção variada, vários amarelos, sete golos, resultado incerto até ao fim e lances de expulsão... parece ser muita fruta para pouco mais de noventa minutos de futebol.

O árbitro de Setúbal (e respetivo VAR) acertou em muitos desses momentos: Rui Patrício, embora sem intenção, foi mesmo imprudente na saída à bola e cometeu penálti sobre Yazalde; Acuña também cometeu falta, passível de castigo máximo, sobre Licá; e Yebda foi negligente na forma como disputou, com o braço, a jogada com Bas Dost. Na repetição, percebeu-se que o contacto foi evidente e suficiente para derrubar o avançado do Sporting. O respetivo penálti e (segunda) advertência foram justificados.

No entanto, as imagens televisivas (sempre elas) também evidenciaram alguns lapsos determinantes. O terceiro golo do Sporting (apesar da legalidade das posições de Bas Dost, primeiro e Acuña, depois) foi ferido de legalidade: no início da jogada, Ristovski recebeu a bola de Rui Patrício e dominou-a, de forma deliberada, com o braço esquerdo. O lance não foi de fácil perceção à primeira (escapou ao árbitro e, muito provavelmente, a todos nós), mas foi evidente nas várias repetições exibidas à posteriori. Erro com influência no resultado, que pela sua clareza devia ter sido escrutinado pelo videoárbitro.

Depois, outro lapso importante: Acuña tinha que ter sido expulso quando cometeu penálti sobre Licá. O jogador do Sporting não tentou jogar/disputar a bola, apenas carregar o seu adversário, impedindo-o de prosseguir a jogada. Uma vez que o avançado do Belenenses estava isolado pela direita do seu ataque, perto da baliza e com fortes possibilidades de marcar golo, o cartão vermelho seria a única sanção adequada. Também aqui o VAR podia e devia ter prestado importante contributo.

Este jogo permitiu outras duas notas, até para esclarecimento dos nossos leitores:

- No momento em que sofreu o penálti, Bas Dost foi assistido e saiu do terreno de jogo. Só depois o VAR sugeriu a penalização da infração e houve a decisão de sancionar o penálti. Caso o holandês ainda não tivesse saído nesse momento e a assistência fosse rápida (até 30 segundos), Bas Dost não teria que sair do relvado. Isso porque a lesão resultara de uma infração que originou sanção disciplinar para o seu adversário. Não foi o caso, mas fica o esclarecimento para memória futura

- O jogo foi interrompido várias vezes no segundo tempo, ficando particularmente parado na altura do lance Yebda/Bas Dost (entre a infração e a execução do penálti passaram vários minutos). Tendo isso em conta e as várias substituições efetuadas, os seis minutos acrescentados aos noventa pareceram curtos. O árbitro está envolvido nas incidências técnicas e disciplinares da partida e por vezes perde a noção do tempo, mas alguém da sua equipa deve recordá-lo daquela que é uma questão cada vez mais determinante no futebol moderno.

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