blitz.sapo.ptLia Pereira - 16 abr 12:53

A novata Lucy Dacus conta a sua história - e é uma história de poder

A novata Lucy Dacus conta a sua história - e é uma história de poder

Confirmada para o Vodafone Paredes de Coura, a norte-americana lançou há poucas semanas “Historian”, coleção de canções tão confessionais como raçudas. 22 anos e uma voz do tamanho do que a espera: eis uma das grandes revelações de 2018

Talvez por ter sido adotada, Lucy Dacus tem uma noção aguçada da variedade de caminhos que a vida pode seguir. E talvez por isso, valoriza o ponto a que o seu trajeto, ainda breve mas promissor, a conduziu: aos 22 anos, a norte-americana, criada numa zona rural do estado da Virginia, acaba de lançar o segundo álbum por uma das mais conceituadas editoras indie, a Matador, e os aplausos têm-se feito escutar, tanto por parte da crítica como da crescente falange de fãs. A aclamação poderá constituir uma surpresa para alguém que começou a fazer música quase por brincadeira.

Desde sempre atraída por “palavras, histórias e comunicação”, a jovem contemplou uma carreira como realizadora, tendo frequentado, durante um ano, o curso de cinema de uma faculdade da Virginia. Depois de um ano a promover o primeiro disco, “No Burden”, a música afigurou-se-lhe como uma opção mais comportável do que arranjar forma de pagar mais alguns anos de propinas. Apesar do impacto da estreia, inicialmente lançada pela minúscula EggHunt Records, “No Burden” foi gravado em meras 20 horas, como projeto de escola do seu guitarrista, Jacob Blizard. Até então, Lucy nunca tinha gravado com banda – mas tinha letras suficientes para escrever canções como ‘I Don’t Wanna Be Funny Anymore’, um dos temas que chamaram a atenção de várias editoras. A Matador foi uma das últimas a juntar-se à corrida, mas acabou por ser a eleita da cantora e compositora, conquistada pela ideia de se juntar à casa de bandas como Yo La Tengo.

Entre 2016, ano em que a Matador reeditou “No Burden”, e 2018, data de saída de “Historian”, muita coisa mudou, tanto na vida de Miss Dacus como no mundo. A eleição de Donald Trump, por exemplo, e os protestos que se seguiram inspiraram canções como ‘Yours & Mine’. Mas é quando deita mão às suas experiências pessoais que esta nova pérola do indie rock brilha com mais fulgor. A morte da avó, que acompanhou de perto, ajudou-a a escrever ‘Pillar of Truth’; em ‘Next of Kin’, regista o dia em que se sentiu confortável com a ideia da própria morte (“Cantá-la traz-me o conforto de poder voltar a esse estado de espírito”).

Dona de uma voz quente e matizada, Lucy Dacus traz à memória o timbre de Sharon Van Etten (em ‘Yours and Mine’ ou ‘Historians’, que com Van Etten partilha também o charme desnudo dos primeiros discos), mas também de Aimee Mann (em ‘Non Believer’ ou ‘Body To Flame’) e Fiona Apple (‘Time Fighter’). Coleção de dez canções tão confessionais como raçudas (a produção, a cargo de Jacob Blizard, oscila entre guitarras quase grunge e os sopros e cordas que Aaron Dessner sugeriria), “Historian” obedece, segundo a sua criadora, a dois instintos: documentar o que lhe aconteceu e, se possível, oferecer conforto a quem dele necessitar. Nesse sentido, é impossível contornar a sombra de ‘Night Shift’, a gigantesca canção com que abre o disco e que se impõe como o seu primeiro clássico. Inspirada pela separação do seu antigo baixista, e dotada de uma letra cirúrgica, é tão dolorosamente sincera como catártica.
‘The first time I tasted somebody else’s spit I had a coughing spit/I mistakenly called them by your name, I was let down it wasn’t the same’. A seguir vêm as também ótimas ‘Addictions’ e ‘The Shell’, mas a história de Lucy fica contada nas primeiras palavras que lhe ouvimos em “Historian” – e é uma história de poder.

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