rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 16 abr 11:55

O centro político não morreu

O centro político não morreu

Os partidos moderados não estão em vias de extinção. Veja-se Portugal e sobretudo Espanha.

O último número do semanário “The Economist” escreve que os partidos socialistas europeus estão quase todos em crise. Mas em Portugal, sublinha o “Economist”, o líder do PS e primeiro-ministro tem sondagens invejáveis. Opina o semanário: em Portugal “o governo de esquerda está a ter sucesso, em parte, porque não é especialmente de esquerda”.

Em Espanha ainda é mais nítido que a alegada morte do centro político e a fuga dos eleitores para partidos extremistas, à direita e à esquerda, não configuram uma tendência inelutável na Europa. O partido centrista Ciudadanos (Cidadãos) encontra-se agora à frente nas sondagens, destacado, não apenas na Catalunha como a nível nacional. Perde o PP, à direita, e o Podemos (de extrema-esquerda), que não ultrapassa o PSOE, social-democrata.

O Ciudadanos nasceu na Catalunha em 2006, para combater o separatismo. Contra o que às vezes se diz, a maioria da população da Catalunha não quer uma independência catalã, muito menos declarada unilateralmente. Até porque grande parte dos que vivem presentemente naquela região autónoma emigraram para ali vindos de outras regiões de Espanha. É o caso, por exemplo, da líder do Ciudadanos na Catalunha, Inés Arrimadas, que há uma década veio da sua Andaluzia natal. O sucesso regional do novo partido deve muito à coragem e à capacidade política desta advogada.

O sucesso na Catalunha lançou o Ciudadanos para a política a nível nacional. Liderado por Albert Rivera – um catalão que quer manter-se espanhol e que, tal como I. Arrimadas, é jovem (38 anos) – este partido moderado e pragmático tornou-se, nas sondagens, o primeiro partido de Espanha, ultrapassando o PP e o PSOE. O “espanholismo” do Ciudadanos suscita a simpatia de muitos eleitores de centro e de direita, fora da Catalunha. E na Catalunha o Ciudadanos reduziu a votação no PP a níveis historicamente humilhantes. Muito porque o governo de Rajoy lidou com o problema catalão como um elefante numa loja de porcelanas. Mas também porque há anos que o PP soma escândalos, sobretudo de corrupção, o que leva numerosos dos seus eleitores tradicionais a mudarem-se para os jovens do Ciudadanos.

O mais recente escândalo está em desenvolvimento e consiste em que a presidente da Comunidade de Madrid, Cristina Cifuentes, do PP, inscreveu no seu currículo um mestrado universitário que estará manchado por classificações falsificadas. O Ciudadanos (partido que, nas sondagens, ganharia hoje as eleições na Comunidade de Madrid) exige que Rajoy afaste e substitua Cifuentes.

A médio prazo, se Rajoy se demitir de líder do PP, este partido poderá recuperar algum do prestígio perdido. Mas tão cedo não irá ultrapassar o Ciudanos, que se situa menos à direita. O centro político não está morto e enterrado.

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