observador.ptNuno Crato - 17 abr 00:03

O meu Conta-Passos

O meu Conta-Passos

Ao contrário dos românticos, que pensam que ter vontade e trabalhar ou estudar com gosto é o que basta para progredir, a psicologia e a gestão mostram que a avaliação é fundamental para o progresso.

O meu primeiro conta-passos era um pequeno aparelho mecânico que se prendia ao cinto. Ofereceram-mo em 2010. Funcionava razoavelmente, e para mim teve uma grande vantagem: passei a tomar atenção ao que andava, fiquei a saber que os médicos recomendam dez mil passos por dia e que não é tão difícil como parece cumprir essa recomendação.

Antes, não tinha ideia de quantos passos andava. Passei a ter uma medida diária. Percebi que, mesmo sem me mexer muito, fazia três a quatro mil passos por dia. Sendo um pouco mais activo, alcançava entre sete a oito mil, e não era preciso grande esforço para ultrapassar a meta dos dez mil.

Mais tarde, ofereceram-me um relógio electrónico, mais sofisticado, que conta os passos, mede os quilómetros, regista o número de escadas que subo, calcula o ritmo cardíaco, dá as horas, está sincronizado com o telefone, mostra-me as mensagens e chamadas e ainda estima o número de calorias consumidas por dia. É um aparelho fantástico, que agora nunca abandono. Há-os em várias versões, desde os caríssimos iWatch aos FitBit, Garmin e alguns modelos mais modestos, que podem ficar abaixo dos 50 euros.

O meu conta-passos despertou-me para vários factos. Quantos passos são necessários para fazer um quilómetro? Muitos não o recordamos, mas mil passos dos legionários romanos (milia passuum) perfazem uma milha terrestre. Era assim que Roma media o mundo. Mas são mil passos romanos, ou seja, mil passos duplos, desde que um pé se levanta do chão até que o mesmo pé volta a tocar o solo. Como o tamanho das pernas varia, a medida foi normalizada e redefinida através dos séculos. Fixou-se em 1609 metros e alguns centímetros. Feitas as contas, se os meus passos fossem verdadeiramente largos, mil passos simples, metade dos duplos, seria metade de dez milhas, ou seja, oito quilómetros. Na realidade, cada passo faz-me avançar uns 75 cm. Fico um pouco atrás dos legionários.

A milha terrestre ainda hoje é usada em alguns países. Tem a grande vantagem de ter uma relação com uma medida humana e por isso, mas sobretudo por tradição, ainda hoje sobrevive. A milha marítima também se mantém, não só por inércia, mas porque é indispensável para a navegação. Uma milha marítima corresponde a um minuto de arco de meridiano. Portanto 60 milhas medidas num meridiano correspondem a um grau. Um quarto de meridiano terrestre será 90 x 60 milhas. Comparando com a definição original de metro — a décima milionésima parte de um quarto de meridiano terrestre — vê-se que uma milha marítima equivale a 1852 metros.

Os racionalistas franceses e de outros países que propuseram o sistema métrico deram um grande avanço à metrologia, mas não tiveram sucesso em introduzir o sistema decimal nas horas e nos ângulos. Se o tivessem tido, talvez hoje a milha marítima tivesse caído em desuso. Com o ângulo reto dividido em 100 grados, cem quilómetros corresponderiam a um grado de meridiano.

Relógio de 1795 mostrando a hora decimal e a hora habitual.

Mas os dias de dez horas e os ângulos retos divididos em cem grados não casam bem com a geometria. Os relógios continuam marcados em 12 partes, pois dividir um círculo em 10 não é cómodo nem visivelmente agradável. E um ângulo reto continua a ser preferencialmente dividido em 90 graus. Assim, um triângulo equilátero tem ângulos de 60 graus cada. Em grados são 66,666…  o que também não será cómodo nem agradável como referência.

Mas estou-me a desviar…

O meu conta-passos recorda-me um facto surpreendente da vida humana, que se verifica da gestão da vida diária, desde a direção das empresas ao ensino: quando controlamos o que fazemos, quando estabelecemos metas e quando verificamos o seu cumprimento, fazemos mais. Na visão romântica, trabalhar ou estudar com gosto é o que basta para progredir. É pena, mas o mundo não é feito só de vontade e de gosto. Inúmeros estudos de psicologia, de gestão e de educação, mostram que os objetivos e a avaliação são fundamentais para o progresso.

Desde que tenho um conta-passos, comecei a andar mais e a ter uma vida um pouco mais saudável. Na vida precisamos de conta-passos.

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