www.dn.ptMiguel Szymanski - 16 abr 02:14

Opinião - Jogos de guerra, a pistola automática da minha avó e o medo

Opinião - Jogos de guerra, a pistola automática da minha avó e o medo

Algo está a mudar para que tudo fique na mesma, os perigosos senhores da guerra que espalham o medo e os seus cúmplices continuam em Washington e Moscovo, em Paris e Londres, em Ancara e Berlim, em Madrid e Lisboa

Nesta sexta-feira fui deitar--me com medo. O presidente dos EUA ameaçou a meio da semana atacar posições russas. Da Rússia vinha como resposta a promessa de retaliar com ataques aos EUA. O facto de as hostilidades entre duas superpotências terem lugar num pequeno país do Médio Oriente não me tira o medo. As grandes guerras começaram sempre algures num gabinete, numa cidade remota, num automóvel em que morre alguém vítima de um atentado.

Passei a adolescência e os primeiros anos como adulto a ouvir testemunhos de guerra sobre ataques aéreos e dias passados em abrigos subterrâneos. Otto, o meu tio-avô com quem aprendi a jogar xadrez, foi soldado da Wehrmacht, combateu durante seis anos, foi preso depois do desembarque dos Aliados na Normandia. A minha avó Wilhelmine, viúva, fugiu com o meu pai pela mão ao avanço do exército russo a leste, deixou para trás casas e terrenos que nunca mais viu. Além da vida, salvou o violino, o seu instrumento de trabalho. O meu pai tinha 6 anos quando a guerra começou e 12 quando terminou, uma infância a fugir da guerra. O pai dele, meu avô, já tinha passado a Primeira Guerra Mundial como médico em hospitais de guerra, onde a sua principal tarefa era serrar pernas e braços. Do lado dos avós portugueses as guerras ficavam mais longe. O meu avô passou os seis anos de bloqueio naval em Macau. Na pequena casa na ilha de Coloane, a minha avó tomava conta da minha mãe e tinha uma pistola automática para se defender, para o caso de os japoneses atacarem.

Os 73 anos de paz que a Europa vive são ilusórios. Participamos de uma forma ou de outra em todas as guerras. Exportamos a desgraça em forma de armas. Somos parte de um bloco, o do Atlântico Norte, cujos líderes nas últimas décadas desencadearam ou participaram em dezenas de guerras ilegais, depuseram regimes, espalharam caos e destruição, semearam morte para aumentar a sua influência e poder.

Do lado russo, passei a minha adolescência e juventude na Alemanha a temer um ataque nuclear. As frases que resumiam o pensamento político nas primeiras três décadas da minha vida eram lieber tot als rot (mais vale morto do que vermelho) ou lieber rot als tot (mais vale vermelho do que morto). Não foram poucas as vezes em que o mundo esteve à beira da catástrofe como agora na Síria: logo em 1948 com o general norte-americano Clay a pretender furar o bloqueio soviético a Berlim; durante a Guerra das Coreias, no início dos anos 1950; com a crise de Cuba em 1962; em 1983 quando um falso alarme quase desencadeou um ataque soviético; na Guerra do Kosovo, em 1999, quando o general norte-americano Clark quis atacar forças russas e só foi impedido pela recusa de dois comandantes do Reino Unido. E agora na Síria. Qual será a reação de Putin depois desta aparente humilhação militar e política na Síria? Arrependimento?

Apesar das guerras obedecerem à lógica de sempre, algo está a mudar. O fim da hegemonia dos EUA está em curso, mesmo que se mantenham as suas 800 bases militares pelo mundo fora.

A Rússia, depois do desmantelamento da União Soviética, cometeu o erro de recuar as suas fronteiras mesmo até junto às base da NATO. Agora está a reagir. Tenta dividir para reinar: financia a extrema-direita na Europa, faz acordos e fecha negócios para a venda de centrais nucleares com parceiros da NATO como a Turquia e a Hungria, organiza cimeiras com o Irão e faz parcerias comerciais e estratégicas com a China, consolida projetos para fornecimento de energia com a Alemanha, conquista a opinião pública com a sua versão da verdade, dá empregos a ex-políticos como ao antigo chanceler Gerhard Schröder. E se o Kremlin contribuiu para que o cowboy urbano Trump fosse eleito, a jogada foi de mestre: com isso os EUA perderam o seu estatuto de paladinos da liberdade para uns e até o de mal menor para outros.

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Correspondente Der Freitag

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