Fontes geralmente bem informadas andam para aí a soprar que Centeno quer ser comissário europeu. E que o PS vê isso "com bons olhos". Isto merece alguma atenção e tradução para português. A actual solução governativa subsiste porque assenta, desde o início, na duplicidade. Na ordem interna, Costa assinou umas papeletas rápidas com o Bloco e o PC, e mais duas irrelevâncias, para derrubar Passos e garantir paz social. Para a troca, recebiam o recuo na austeridade interna, a "recuperação" (falaciosa) de rendimentos e legislação avulsa "correcta". A ominosa Direita, porém, já tinha começado esse percurso recuperatório com o final do programa de assistência em 2014. Costa sabia que, fosse quem fosse e com maior ou menor "moderação", estava aberta outra fase. Arranjou, assim, uma fórmula politicamente administrativa e oportunista para poder ficar, perdendo. Centeno assistiu a todas as reuniões com o radicalismo e, com certeza, tomou notas. Na ordem externa, chegado à Europa ministro, e conhecedor da "folga" relativa de que dispunha, jurou pela consolidação do Tratado de Lisboa como qualquer outro ministro das finanças do Eurogrupo. Conseguiu ir "além do défice" e, de certa maneira, muito mais do "além da troika" que o radicalismo execrava nas ruas e no Parlamento entre 2011 e 2015. Para o efeito, manipulou na execução os orçamentos que o radicalismo votou alegremente porque precisava de cativações milionárias para o seu, dele, défice virtuoso. Dele e do tratado, o que o sagrou presidente do Eurogrupo. Por outro lado, e com idêntica alegria, o radicalismo juntou-se ao PS em três orçamentos para ampliar a carga fiscal indirecta (a "anestesiante") e permitir as habituais manobras expeditivas de gabinete, não parlamentares, em torno das taxas de retenção do IRS. Fingem que as pessoas ganham mais, fingem que pagam menos impostos e as pessoas, pelos vistos, fingem que acreditam nesta beatitude circunstancial. Tão circunstancial que Centeno, ao apresentar o PEC 2018-2020 decidiu fazer política e falar apenas em "europês". Não voltará a ser ministro depois do Orçamento de 2019, pelo que ignorou os parceiros do radicalismo interno, ficando estes a esbracejar, ridiculamente isolados. O novo Centeno não é muito diferente do Gaspar liberal do ajustamento, o que os irrita. Duplamente, porque estão amarrados uns aos outros até ao final da legislatura. E porque Gaspar pôde sair, enquanto disto ou saem todos ou não sai ninguém.