www.publico.ptdqandrade@publico.pt - 15 abr 06:52

Editorial. Uma guerra de aparências

Editorial. Uma guerra de aparências

Estes bombardeamentos servem para fazer os líderes ocidentais dormir melhor à noite, mas não ajudam ninguém.

Os 110 mísseis que caíram em Damasco serviram para marcar uma posição contida. O Presidente americano vai continuar a julgar que gere o planeta pela força dos tweets, os franceses e ingleses vão continuar a julgar-se importantes, mas, no fundo, nada vai realmente mudar: Moscovo vai manter a retórica firme, mas não vai fazer nada para retaliar; Assad vai continuar alegremente a massacrar quem lhe apetece, com a habitual tranquilidade soberana; os chefes de Estado ocidentais vão continuar a engrossar a voz sem que façam nada de substancial; e os cidadãos sírios vão continuar a ser assassinados pelo líder que os oprime.

A verdade é que o Médio Oriente se mantém como palco de conflitos alheios. E 30 anos depois do fim da Guerra Fria continuam a disputar-se guerras por procuração e por encomenda — sempre com preocupações de não afrontar demasiado os adversários do momento. Porque um conflito diplomático pode ser aceitável, uma guerra já não. O alerta de Guterres faz sentido: uma Guerra Fria sem mecanismos nem regras é um risco acrescido no caminho para um conflito mundial.

A globalização que elimina fronteiras continua a acicatar medos e ódios antigos, forçando demonstrações de força mais ou menos bacocas. A Rússia vai tomando poder onde consegue, de acordo com as suas limitações, para aproveitar os restos de uma corrida ao armamento que já perdeu. A China domina o que lhe apetece e vai espalhando os seus interesses pelo planeta, sempre olhando muito mais para a frente e sem preocupações mesquinhas como essas coisas dos direitos humanos. A Europa ainda não tem, nem é, uma política coerente. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos estão enterrados até aos joelhos numa guerra que nem Bush, nem Obama nem Trump entenderam como travar. E os líderes do Ocidente vão-se congratulando com palmadinhas nas costas por atirarem mais uns mísseis para uma nação árabe, sem consequências reais para os poderes que vão vigorando. Assim até dizem que fazem alguma coisa, sem fazerem o suficiente que perturbe verdadeiramente Assad ou o amigo russo. Pois seria melhor que das duas uma: ou não fizessem nada, ou assumissem que o ditador sírio é um louco à escala de Pol Pot ou Idi Amin e que precisava de ser travado. Mas isso já seria pedir mesmo de mais. Por isso continuamos assim, com meias políticas que não servem a ninguém, muito menos aos povos que levam com estes déspotas.

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