www.dinheirovivo.ptJoão Almeida Moreira - 14 mar 12:11

Os grisalhos de Copacabana

Os grisalhos de Copacabana

São os saudáveis, mas improdutivos, cinquentões, e os seus privilégios, que o governo quis combater ao longo dos seus mais de dois anos de gestão.

No futuro, quando se resumir o Governo Temer, usar-se-ão termos como “mesóclise”, que são as palavras com duplo hífen tão do agrado do presidente, “propina”, que é o equivalente no Brasil a “suborno” em Portugal, “grampo”, que está para o português sul-americano como “escuta” para o português europeu, “emenda”, que é o expediente pelo qual o poder executivo pode comprar o voto de congressistas em caso de necessidade, e “réu” e “investigado” e “escândalo” e “desvio” e “mala”, etc.

Mas também “reforma da previdência” (ou segurança social), o principal cavalo de batalha de Temer que transitará para a agenda do próximo chefe de estado por não ter sido aprovado pelo Congresso. “Todos com a reforma da previdência para que o Brasil não vá à falência”, advertiu na imprensa e nas redes sociais o governo de Temer numa pesada ação de marketing que durou meses. “Reforma da previdência hoje para ele se reformar amanhã”, lia-se também, por cima da foto de uma criança, nos encartes publicitários de quase todas as revistas semanais.

Essa tal reforma que acabou por não acontecer apaixonou os brasileiros: a maioria do povo foi contra, razão pela qual boa parte dos deputados e senadores, em pleno ano eleitoral, também se opôs; mas 10 em 10 economistas e empresários e consultores e analistas e seu derivados são a favor.

O primeiro, o povo, pergunta porque será que num dos países onde os ricos pagam menos impostos – os 2% do topo da pirâmide detêm 55% das isenções tributárias – e os juízes, mesmo estando entre os 0,2% mais bem pagos do Brasil, ainda recebem auxílio moradia e outras benesses, não se ataca o défice por aí?

Os segundos, o mercado financeiro, usam argumentos que, à luz da realidade mundial, também são inatacáveis: como é que um país sem idade mínima de reforma pode sobreviver? Um país onde a média dos que pediram a reforma em 2017 foi de 52 anos entre as mulheres e de 55 anos entre os homens? Onde os gastos previdenciários superam em quase 50 mil milhões de euros anuais o valor da arrecadação do estado? Que caminha para, em 2020, ver parar de crescer a população entre os 15 e os 64 e com isso aumentar o peso de idosos e crianças na balança?

Ora, tendo em conta que o mundo é como é – o trabalho visto como virtude, o tempo livre como vício e o crescimento do PIB como objetivo definitivo da humanidade – e não há perspectivas de mudar tão cedo faz, de facto, sentido, mexer-se na segurança social brasileira.

O The New York Times escreveu, recentemente, que é por causa dela, da previdência, que quem passear às 11 horas da manhã a um dia de semana pela bela calçada portuguesa da magnífica Copacabana vê centenas de cabeças grisalhas a caminhar, correr, praticar desportos, apanhar banhos de sol ou mergulhar. São esses saudáveis, mas improdutivos, cinquentões, e os seus privilégios, que o governo quis combater ao longo dos seus mais de dois anos de gestão.

Cinquentões como Temer, aposentado desde os 55 anos (em 1996) como procurador do estado de São Paulo com uma reforma mensal no bolso de 7500 euros. Ele só não corre em Copacabana.

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