rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 14 mar 06:14

Um governo em Berlim

Um governo em Berlim

Tanto o SPD como a CDU têm-se esforçado por baixar as expectativas quando ao novo governo, em particular na área das políticas europeias.

Quase meio ano depois das eleições de 23 de setembro de 2017, em Berlim haverá a partir de hoje um governo coligação. Mas as expectativas não são altas quanto ao quarto executivo chefiado por Merkel.

O peso político da chanceler baixou consideravelmente, o que a obrigou a concessões importantes ao parceiro de coligação – por exemplo, o novo ministro das Finanças é do SPD.

Mas é escasso o entusiasmo do SPD por, de novo, entrar no governo em coligação com os democratas-cristãos, um partido maior. É que nas coligações anteriores o SPD perdeu votos.

Do lado dos democratas-cristãos nota-se um crescente descontentamento com Merkel, sobretudo quanto ao problema de imigração. A CSU, democratas-cristãos da Baviera, tem-se mostrado particularmente crítica nessa matéria.

O SPD é um partido europeísta (o que já não é, por exemplo, o partido liberal, que abortou a primeira tentativa de coligação). Será, então, de esperar uma atitude mais positiva da Alemanha quanto à conclusão da união bancária e a propostas de reforma da zona euro, como as avançadas há meses pelo presidente de França, Macron? Provavelmente não tanto como se esperava.

A opinião pública alemã mantém-se hostil a coisas como um seguro comum de depósitos bancários na zona euro, mais dinheiro para um fundo dessa zona destinado a apoiar países em crise ou um ministro das Finanças europeu.

O principal partido de oposição no parlamento de Berlim é agora a alternativa para a Alemanha, uma força política que se tornou populista e é contrária ao euro, bem como à própria integração europeia. O que exige muito cuidado do novo governo quanto a concessões que levem os alemães a pensar que os seus parceiros na UE e na zona lhes querem tirar dinheiro – fortalecendo o apoio ao partido eurocético.

As recentes eleições em Itália também não ajudam. Recorde-se que o grande receio dos alemães quanto à troca do marco pelo euro, há vinte anos, se concentrava na indisciplina orçamental da Itália, que levaria à depreciação da moeda única.

Muitos alemães ainda hoje têm saudados do seu marco forte, com o Bundesbank a atacar com subidas de juros qualquer esboço de pressão inflacionista. E é possível que o sucessor de Draghi à frente do BCP, daqui a cerca de meio ano, seja um alemão, o governador do Bundesbank que nunca apreciou os estímulos monetários do BCE, que salvaram o euro.

Nem tudo será negativo, porém. O novo governo alemão promete investir mais em infraestruturas, que nos últimos anos se degradaram. O que ajudará os parceiros da Alemanha, como Portugal, a exportarem mais para aquele país.

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