www.dn.ptAdriano Moreira - 14 mar 00:20

Conselho de Segurança

Conselho de Segurança

O Conselho de Segurança foi, na estrutura acordada para a ONU, o organismo consagrador da desigualdade dos Estados, pela criação do direito de veto, numa data em que o poder militar era o critério da hierarquia. Não faltaram motivos para a intervenção do Conselho, até, como aconteceu com a tentativa vetada de dois membros do Conselho, com tal privilegiado direito, a França e a Inglaterra, que visavam impedir a nacionalização do Suez pelo jovem Nasser, dirigente do Egito. Mas nesta data em que, em ritmo crescente, as iniciativas do governo de Pyongyang, que teve uma espetacular exibição com o lançamento do míssil que atingiu a zona económica exclusiva do Japão, e declarou poder atingir os EUA, não parecem mover o Conselho de Segurança, esquecido do comentário de Bismark, demonstradamente validado por duas guerras mundiais, de que "qualquer coisa insensata leva a uma guerra devastadora da Europa", com a diferença de que agora trata-se da devastação do mundo.

Que o Ocidente a viver uma época de outono seja considerado pelo antigo "terceiro mundo" como o maior agressor dos tempos modernos tem outras evidências, como a agressividade com que o presidente Macron foi recebido em Burkina Faso, quando parecia dar passos para ressuscitar a ideia francesa do século passado, que pareceu esperançosa para os interesses da Europa, e para apaziguar a memória do colonialismo, recebendo o nome de Euráfrica. Neste caso não chegou a humildade das palavras de Macron afirmando, na sua "prova oral africana", como a imprensa as batizou, de que "os crimes da colonização europeia são incontáveis", salvaguardando embora que "também se fizeram grandes coisas e houve histórias felizes", para evitar a hostilidade. Mas este facto não é apenas sintoma de que ainda há muito trabalho a desenvolver para que a confiança recíproca apoie uma nova época de cooperação amiga, com o esquecimento possível das agressões, também acentua que a agressividade orientadora da política da Coreia do Norte tem pelo menos salpicos do eventual apoio no antigo "terceiro mundo". E tais ensaios não podem ser bem contestados, e sobretudo parados, pelos surpreendentes comentários de resposta do atual presidente dos EUA.

A circunstância dos repetidos ensaios da Coreia do Norte, reveladores de que está suficientemente habilitada no sentido de conduzir à catástrofe mundial, não justifica que a leviandade verbal das respostas mais dirigidas a um suposto apoio e pacificação mal avaliada da sociedade civil, substitua a meditação séria, concertada e autêntica, que é dever do Conselho de Segurança. Sobretudo quando não são ocasionais interesses de cada membro que estão em causa, é mais do que a ordem jurídica mundial, é sim a eventual suficiência de "qualquer coisa insensata" para desencadear um conflito de dimensões que nenhuma experiência histórica permite avaliar. No fim da Segunda Guerra Mundial, bastou uma intervenção de Churchill - "que a Europa se levante" - para desencadear o movimento que, chamado pelos resultados "guerra fria", evitou o pior. Mas a atitude do Conselho de Segurança, talvez atingido pela diminuição da capacidade da ONU para ser escutada, e seguramente porque a desorganização da governança do globalismo paralisa a conjugação de esforços para uma resposta de defesa mundial, aponta para o desastre sem responsáveis. Mas seguramente com destruições que ameaçam ser irreparáveis. A situação difícil de diagnosticar quanto à determinação e capacidade dos órgãos encarregados de vigiar pela manutenção da paz talvez esteja a ser objeto de negociação por enquanto reservada, mas ainda que a reserva seja justificada, a imagem que circula não admite esperanças de ser o futuro sonhado pela paz do fim da segunda guerra mundial, a qual mais começa a parecer um armistício. Pode parecer ocasional que a designação das duas guerras mundiais tenha sido substituída por uma ordenação numérica, o que acentua o receio de esperar pela repetição. Mas o facto de analistas reputados concluírem que a situação já é de "guerra em toda a parte", ainda que a expressão abranja semanticamente as agressões à natureza, com consequências que não se diferenciam, pelas devastações, de grande número dos conflitos armados que se multiplicam designadamente do Cabo ao Cairo, já não anda longe de globalmente corresponder ao pressentimento, sobretudo porque talvez mais de metade dos Estados membros da ONU não tem sequer capacidade suficiente para responder aos desastres ambientais. Não é senão uma consequência esperada e visível o crescimento da falta de confiança dos eleitorados nos governos, mas é inquietante o facto de, com fundamento, crescer a falta de esperança na eficácia da ação dos órgãos instituídos com a responsabilidade de finalmente serem os fiéis e ativos responsáveis pela ordem pacífica mundial. O diálogo agora anunciado, precedido de notícias sobre a posse de novas armas impossíveis de defesa, espera-se que regresse à autenticidade, começando por restaurar a autoridade do Conselho de Segurança.

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