observador.ptJoão Magueijo - 14 mar 23:01

A luz que vem do escuro aos atropelos

A luz que vem do escuro aos atropelos

Sempre nos interrogáramos se todos aqueles atropelos da temível cadeira de rodas seriam assim tão acidentais. O sentido de humor britânico é lendariamente retorcido e Hawking tinha-o em abundância.

Tenho a honra duvidosa de ter sido atropelado por Stephen Hawking. Foi num corredor sombrio, estreito e sinuoso – como manda a literatura – no antigo edifício do departamento de física teórica da Universidade de Cambridge, onde fiz o doutoramento. Estava de costas e não o vi. Convém acrescentar que a distinção é tudo menos rara: muita gente que viveu por essas bandas nessa altura ostenta a medalha de atropelamento pela divina cadeira de rodas. O meu caso talvez só tenha sido singular porque lhe fiquei estatelado no regaço, em pose de São Cristóvão com menino.

Os dotes de condução do Professor Hawking eram, aliás, uma piada recorrente em Cambridge. Até que um dia foi ele a vítima: um táxi acertou em cheio na sua cadeira de rodas, catapultando-o numa linda parábola Newtoniana de muitos metros. “Pela boca morre o peixe!” (ou o equivalente bifês), sussurrámos divertidos, depois de nos termos certificado de que se podia brincar com o caso. Hawking saiu ileso do desastre. Consta que retesar os músculos é o que causa muitas das lesões em acidentes. Ora ele estava constrangido a ir pelos ares em perfeita descontração muscular.

A verdade é que sempre nos interrogáramos se todos aqueles atropelos da temível cadeira de rodas seriam mesmo assim tão acidentais. O sentido de humor britânico é lendariamente retorcido, e Stephen Hawking tinha-o em abundância.

Para mim Hawking será sempre acima de tudo a pessoa que provou que os buracos negros afinal não são nada negros, são até brilhantemente luminosos, assim que as incertezas do mundo quântico são levadas em conta. É uma previsão teórica surpreendente que marcará a ciência por muitos tempo, mas o que não se diz é que é fruto de uma contarela diabólica que só alguém tão torto como ele podia ter feito.

Isto é uma cromice de cientistas, mas expliquemos a quem não sabe: os cálculos que levam à radiação dos buracos negros, dita de Hawking, são uma daquelas contas do Demo que se abordadas à força bruta, rapidamente se tornam impraticáveis. Qualquer outra pessoa tentaria fazê-las à força, para exibir a sua pujança matemática. E quem o fez falhou.

Para Hawking, já muito limitado nessa altura, a força bruta não era uma opção: anos antes deixara de ser capaz de usar lápis e papel, os instrumentos de escolha dos físicos de roda das suas equações. Hawking portanto optou pela alternativa: fazer “aproximações” ao problema, por forma que ele não exigisse contas a mais.

E assim começam os aparentes atropelos na matemática. O problema das aproximações é que muitas vezes são claramente inapropriadas. “Imaginemos que um cavalo é um cilindro infinito”  é a piada que os outros físicos contam de nós, os teóricos. Por muito abstracto que o cavalo seja, será sempre ridículo aproximá-lo por uma esfera ou um cone, e isto é dolorosamente óbvio no exemplo da radiação dos buracos negros quando se começa a fazer aproximações.

Mas o mestre não tem medo do táxi que se aproxima rumo a ele, descontrai-se em pleno voo enquanto paira nos ares. O seu artigo é um exercício de funambulismo sobre a fina linha entre aproximações a mais (e voltamos ao tal cavalo cilíndrico) e aproximações a menos (e o problema torna-se intratável). Eu costumava ensinar esta conta numa das nossas cadeiras de mestrado. Demorava umas cinco aulas a refazê-la. Os alunos ficavam fascinados. Era um verdadeiro thriller, em que a toda a hora pensamos “ai que este gajo se vai espetar”. Mas não. Ele continua a voar.

Chegamos ao fim e tem de se calcular três coisas e afinal só se calcularam duas. Pronto, lá se espalhou ele, o táxi acertou-lhe em cheio. Mas o mestre não retesa os músculos, e milagrosamente conjura uma equação geral que relaciona essas três coisas, que não é válida no caso de buracos negros, mas com uma adaptação é. E abracadabra, de repente sai tudo.

Hawking era um perito na arte da intuição física e da aproximação. Mas era também uma pessoa profundamente honesta. O que é mais engraçado é que quando Hawking começou a trabalhar neste seu artigo o que ele queria provar é que a radiação hoje dita de Hawking era mentira. Jacob Bekenstein tinha especulado sobre este calor exalado pelos buracos negros de uma forma heurística e destravada, uns anos antes. Hawking queria enterrar de vez esta especulação. Acabou por cimentá-la para sempre, numa conta de doidos que só ele podia fazer.

João Magueijo, físico teórico e professor de Física no Imperial College, em Londres

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