sol.sapo.ptJosé Cabrita Saraiva - 13 mar 18:48

Escalar a montanha

Escalar a montanha

Desafio o ilustre leitor a pegar num livro bem volumoso e a passar rapidamente as suas 500 ou mais páginas uma a uma. Suponho que ao fim de algumas dezenas esteja farto, pensando que nunca mais vai terminar a tarefa.

O que me leva a perguntar:se isso acontece quando falamos de perder apenas um segundo por página, o que dizer quando se trata de ler efetivamente o livro? Aí a tarefa parece virtualmente inalcançável.

Claro que há livros e livros, e há páginas e páginas. Quando eu andava na quarta classe, todos os dias levávamos como trabalho para casa uma cópia e um ditado à escolha. Ora, havia um colega que optava invariavelmente pelo mesmo poema (e a professora, estranhamente, não dava por isso!): ‘Mar Português’, duas estrofezinhas de seis versos cada que ele devia despachar em cinco minutos ou menos. E ficava com o resto do dia livre para a brincadeira.

No extremo oposto à página quase despida do ‘Mar Português’, encontram-se aquelas páginas densas como uma floresta virgem, com linhas que nunca mais acabam e um corpo de letra microscópico – páginas, como eu costumo dizer, ‘impiedosamente preenchidas’. Daquelas que intimidam.

Mesmo o leitor mais militante concordará que, quando essa mancha densa se junta a um livro dos tais com 500 ou mais páginas, pode ser um sarilho.

Qualquer que seja o livro, normalmente iniciamos a leitura com entusiasmo. Mas nesses casos, à medida que vamos gastando primeiro horas, depois dias e finalmente semanas, para progredir muito pouco, começa a parecer difícil acreditar que alguma vez veremos a luz ao fundo do túnel. Torna-se uma prova de resistência. Como disse Pessoa, «Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor».

Até que chega o momento-chave em que atingimos a metade da obra. Daí em diante, vemos as folhas do lado esquerdo a avolumarem-se, enquanto o que nos falta, do lado direito, entra em contagem decrescente.

A leitura a partir da metade do livro, por alguma razão, torna-se mais fácil, como se fôssemos impelidos por um vento favorável até ao fim da viagem. Ou como se tivéssemos escalado a montanha e chegado ao cume. É verdade que ainda falta descê-la, mas para baixo todos os santos ajudam.

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