www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 mar 06:14

Opinião. “Geração ou-ou”

Opinião. “Geração ou-ou”

O uso de rótulos geracionais comporta riscos desnecessários. Cria uma ilusão de homogeneidade onde ela não existe. Obscurece processos de exclusão social que não devemos perder de vista.

O baptismo de gerações é muito comum. Vive de generalizações abusivas e de imprecisões estatísticas. E acarreta efeitos sociais indesejados. De baptismo em baptismo, fica a saber-se mais sobre a história de certos campos de saber do que das gerações propriamente ditas. Pior, perde-se uma compreensão mais fina das circunstâncias e desigualdades sociais a que uma dada camada etária está sujeita. Deste modo, contribui-se pouco para evitar que estas desigualdades perdurem para a vida adulta.

A ideia de uma “geração yo-yo” popularizou-se pelos anos 90, quando nas ciências sociais começaram a ganhar terreno as chamadas “teorias da individualização”. Estas sublinhavam a importância da singularidade do indivíduo, da sua força de vontade. As amarras da classe social eram questionadas. “O que queres ser quando fores grande?” passou a ser mais do que uma pergunta de circunstância. Os destinos sociais seriam afinal mais plurais, a igualdade de oportunidades parecia maior, as possibilidades de realização pessoal afiguravam-se mais numerosas. Ao mesmo tempo, cada percurso de vida seria singular, irrepetível, extraordinário.

Foi neste contexto particular que surgiu a ideia da “reversibilidade da vida”. Os indivíduos que já tinham saído da escola voltavam a estudar, os que já tinham saído de casa dos pais a ela regressavam, os que casavam divorciavam-se, os que estavam empregados desempregavam-se. Assim sendo, nunca seria tarde para se recomeçar e tentar outra vez, argumentava-se. É essa a origem da expressão yo-yo. A ideia de um certo caos biográfico cristalizou-se: da mesma forma em que não há dois indivíduos iguais, não pode haver dois percursos ou destinos sociais semelhantes. Celebrava-se, assim, a alegada mobilidade social que resultava deste vai e vem entre circunstâncias sociais.

A ideia de uma “geração nem-nem” é mais recente. Tem origem na expressão Not in Employment, Education or Training (NEET), inicialmente usada no Reino Unido e, mais tarde, transformada em indicador estatístico. É usada de modo frequente e superficial para quantificar os jovens que estão fora do sistema de ensino e sem emprego num dado momento. Este indicador simplifica, e muito, processos de exclusão social. Para além deste problema, um outro emerge: a excessiva — porque quase exclusiva — atenção pública para este grupo, apesar de tudo felizmente minoritário, desvia o nosso olhar de outras circunstâncias preocupantes, essas sim de larga escala. 

No caso português, os números invocados para descrever a “geração nem-nem” são sempre muito assustadores. Talvez por isso sejam muito populares. E utilizáveis por várias formas de populismo. Apontam para jovens excluídos, perdidos, encalhados, e que precisam de ser “reintegrados”. Apoios de escala europeia como o Garantia Jovem, entre outros, pretendem diminuir o número oficial dos jovens NEET. Neste processo, garantir que estes indivíduos fiquem “apenas” desempregados parece aceitável. Parece que “Not in Employment” é significativamente melhor do que “Not in Employment, Education and Training”. E alguns olhares menos atentos podem tender a aceitar a bondade da asserção.

Há três erros graves associados ao uso desta categoria. Primeiro, os jovens NEET não são comparados com outros grupos. Consequentemente, não se percebe em que é que estes se diferenciam socialmente de outros jovens em transição irregular para o mercado de trabalho. Segundo, os jovens NEET são tomados como um grupo homogéneo, facilitando o baptismo de gerações inteiras de “nem-nem”. Finalmente, terceiro aspecto, talvez o mais inaceitável, o enfoque excessivo nos jovens NEET faz com que a atenção sobre os jovens da dita “classe média”, os jovens “comuns”, os aparentemente menos extra-ordinários, diminua. Afinal de contas, “podiam estar bem pior”, não se deviam queixar tanto. São esquecidos, desvalorizados e tomados como uma massa homogénea de gente “piegas”. Isto apesar de muitos deles estarem perto, muito perto, de se tornarem NEET. A fronteira é muito ténue, para muitos jovens, e durante muito tempo das suas vidas.

Colocar os jovens em “gerações” tem consequências. Usar rótulos como “NEET”, “boomerang”, “millennials”, entre tantas outras denominações, pode animar quem prefere o simplismo ao rigor. É fácil e “giro”. Também é pouco criterioso. Desvia-nos o olhar do que verdadeiramente interessa: quem são estes indivíduos, como vivem, que tipo de trabalho têm, quais são os seus rendimentos, em que trabalham e que escolaridade têm os seus pais? Podíamos continuar... Sabemos pouco. Assim sendo pouco podemos fazer para os ajudar.

Ao nos centrarmos no que supostamente são, esquecemo-nos de interrogar de onde vêm, qual foi o seu percurso e que circunstâncias e desafios enfrentaram. Parecemos desprezar que apesar de terem os mesmos anos de nascimento, os jovens têm condições de partida profundamente desiguais e que isso continua a ter efeito no decorrer das suas vidas, nas oportunidades que têm e nas decisões que são obrigados a tomar. Ao fazê-lo contribuímos ativamente para a reprodução das desigualdades sociais. É necessário interrogar a questão com referência à classe social, identificando as desigualdades sociais de origem que condicionam os processos de transição para a vida adulta.

Dados do European Social Survey, por exemplo, mostram de modo claro que tanto os jovens que não trabalham nem estudam, como os trabalhadores-estudantes, são sempre, em todos os países, e em várias gerações, minoritários face a outros dois grupos. Portugal não é de todo exceção. A esmagadora maioria dos jovens dos 20 aos 30 anos OU trabalham OU estudam. E as restantes categorias, minoritárias, não podem obscurecer este facto. A análise sistemática dos dados revela que a origem social de um indivíduo determina, tanto quanto a idade, se este está a estudar OU a trabalhar (dos seus 20 aos 30 anos). O momento em que se entra para o mercado de trabalho (mesmo que seja em regime parcial, precário ou irregular) ainda é profundamente determinado pela classe social de origem do indivíduo. Mais, por baixo dos apelativos mas enganadores rótulos “geracionais”, está toda uma juventude que se continua a dividir entre dois tipos. Por um lado, os que ainda assim conseguem, de forma minimamente sustentável, inscrever-se e, talvez, concluir os estudos universitários de 1.º, 2.º e até 3.º ciclo. Por outro, os que antecipam as suas experiências de trabalho remunerado, mesmo que mal pago, ilegal, precário ou sazonal, abandonando muitas vezes outras aspirações e projetos de vida. Talvez por isso, se tivermos mesmo que dar um nome a uma geração contemporânea dos jovens, talvez deva ser “geração ou-ou”.

Mas há um outro problema associado. No preenchimento de um questionário, a categoria “ter trabalho remunerado” é muitas vezes subjetivamente entendida. Os indivíduos sentem-se “trabalhadores”. E, portanto, nesta categoria acaba por caber de tudo um pouco: estágios remunerados, trabalhos informais, falsos recibos verdes, falsas bolsas de investigação, trabalhos sazonais, os trabalhos a (falso) tempo parcial. Cabem as várias imoralidades legalizadas do nosso mercado de trabalho. Como podemos celebrar a passagem de um jovem para esta categoria tão pouco rigorosa, sem a questionar de modo crítico? Como podemos valorizar esta condição, quando sabemos o mundo de iniquidades que lhe está associada? Como podemos deixar de lhe dedicar atenção só porque ele não é oficialmente um NEET? Não devemos.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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