www.sabado.ptFlash - 13 mar 03:39

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Numa última crónica vale a pena fazer um pequeno balanço e deixar duas ou três notas finais sobre comunicação de temas de justiça.

Esta é a centésima destas crónicas. Uma marca interessante e a altura certa para dar por acabada a tarefa. Cem vezes doze tábuas. Mil e duzentas tábuas. Já daria para fazer um barquinho simpático… Mas ideia não é propriamente pegar na trouxa e zarpar. Não se trata sequer de ter esgotado a mensagem - a realidade tem essa característica interessante de infinitamente se renovar e suscitar novas reflexões. Simplesmente, tudo tem o momento de acabar e este é esse momento.

Dia 17 de Março decorrerá o ato eleitoral para os órgãos sociais da Associação Sindical dos Juízes. Um espaço de comentário só faz sentido a quem exerça funções desse tipo. Um juiz é um decisor e não um comentador. É precisamente por voltar à plenitude das funções judiciais e deixar estas lides representativas que a conclusão se impõe.

No final de 2015 pensou-se que estaria na altura de aparecer um espaço de comentário semanal na comunicação social assinado por um representante dos juízes. A partir dessa ideia, o Assessor de Comunicação José Brandão encontrou o espaço que lhe pareceu certo e apresentou sugestões de batismo para o mesmo. Ir buscar as doze tábuas romanas foi uma daquelas propostas que soou logo a coisa certa. As doze tábuas, mais que tudo, tiveram uma função de divulgação pública de regras anteriores não escritas e que apenas eram conhecidas de um conjunto restrito de Patrícios. Uma visão de dentro do sistema de justiça acaba por aparentar algum paralelismo. E teve alguma graça...

A partir dessa ideia de base havia que falar em nome próprio mas sabendo que, para o bem e para o mal, estaria a falar pelos juízes. Transmitir informação e dar opinião capaz de ser entendida por qualquer pessoa. Tentar equilibrar a crítica, se necessário forte, com a boa ponderação dos temas. Tentar equilibrar emoção e razão. Ser leal. Não dizer nada que não seja pensado e sentido é uma regra básica de honestidade intelectual. Não dizer tudo o que é sentido, pelo menos do modo que por vezes apetece, é um imperativo de respeito e correção e o mínimo exigível à exposição pública de um juiz. Era esse o desafio.

Passados vinte e sete meses fecho com a sensação de dever cumprido e com a satisfação de ter recebido muitas palavras de apreço e incentivo. Também agradado com o facto de ter percebido que, pelo menos alguns dos textos e algumas das mensagens, chegaram a um conjunto alargado de destinatários. Era sobretudo esse o objectivo. Haver, num mundo de comentários e comentadores, também uma voz permanente, se necessário incómoda, do campo do judicial. Alguns terão gostado. Outros nem tanto. Este continua a ser um país em que a crítica é pessoalizada. E em que pensar ou fazer diferente é normalmente mal aceite.

Tudo somado e subtraído, não tenho ilusões. A mensagem contra os juízes e a justiça vai continuar a ser, em muitos casos, negativa. Ninguém vai passar a dizer, de um dia para o outro, "Desculpem lá… Estava a ver mal. Realmente, que bons e justos que eles são…"

Quando as coisas correrem bem o máximo a aspirar é ao silêncio e à ausência de crítica. Mesmo nesses casos, o mais provável é que, pelo menos um dos lados, diga que "a justiça não se prestigiou ou não se credibilizou" com uma certa decisão. E quando as coisas correrem mal vai continuar a haver pancada de "escacha pessegueiro". Ninguém duvide ou se iluda.

 Os argumentos mais básicos do "corporativismo", "lentidão", "culpa pela falta de competitividade económica" e outros que tais vão continuar a aparecer, no texto ou no subtexto de muitas notícias e comentários, todos os dias.

Mesmo assim, valeu a pena. Alguma coisa há de ter passado e ficado na cabeça de alguém. No meio desse mundo infinito de comentários será certamente possível e útil que exista um espaço para o olhar do universo judicial. Fechado este, outro se abrirá.

Falar vale sempre a pena. E esperar que seja para quem não tem a alma pequena.

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