www.sabado.ptFlash - 13 mar 07:00

Cláusula de inclusão

Cláusula de inclusão

Os Óscares são a consagração universal dessa bela máquina de produzir esperança, o cinema – como dizia George Steiner em relação a todas as artes, o cinema ajuda-nos a perceber que temos de nos comportar como convidados uns dos outros para sobrevivermos.

Posto isto, a cerimónia dos Óscares deste ano transformou-se num coitus interruptus do "politicamente correcto".

Ao ver o espectáculo de segunda-feira, senti-me indesejado por ser homem, branco e heterossexual. Como qualquer ser humano razoável, percebo a importância de movimentos como o #Times Up na alteração de comportamentos face à violência e à diferença. E defendo a necessidade de eles forçarem alterações legais temporárias, como certos mecanismos de quotas. Mas "a cláusula de inclusão" citada no discurso de Frances McDormand já me cheira a parvoíce.

Criada há meses por uma advogada e uma professora universitária, obriga os produtores signatários a incluir nos papéis secundários de um filme "50% de paridade de género, 40% de pessoas de cor, 5% de LGBTQ e 20% de indivíduos com deficiência". Impor este tipo de raciocínio a uma expressão artística é o mesmo que exigir a Rubens que pintasse apenas rapazes magrinhos das Antilhas Holandesas. Ou que o vencedor dos prémios deste ano, A Forma da Água, tivesse integrado na sua acção, a decorrer nos anos 50, um director da CIA negro, um chefe de laboratório deficiente motor, um oftalmologista cego e uma enfermeira transexual com queda para anfíbios. Lawrence da Arábia? O príncipe Faisal transformar-se-ia em hermafrodita de Tijuana, e o xerife Ali de Omar Sharif seria substituído por uma congolesa lésbica. Não atinem, não.

1
1