expresso.sapo.ptPaula Cosme Pinto - 15 fev 13:22

Olha os namorados, adolescentes e violentados

Olha os namorados, adolescentes e violentados

Opinião de Paula Cosme Pinto

Karina tinha 15 anos quando decidiu que não aguentava mais a humilhação e o bullying de que era alvo após um namoradinho ter partilhado fotos suas na web. Karina sofria diariamente, mas tinha demasiada vergonha para pedir ajuda aos pais porque as imagens em causa eram fotos íntimas. Fotos que tinha confiado ao rapaz com quem mantinha uma relação de intimidade e que, em jeito de gabarolice, decidiu provar ao mundo que mantinha relações sexuais com a adolescente. Sim, Karina tinha 15 anos e já não era virgem, o que parecia ser motivo de paródia geral entre os colegas da escola que a insultavam de “vagabunda”. A privacidade, intimidade, confiança e dignidade de Karina foram violadas e a adolescente acabou por pôr fim à sua vida. Tinha 15 anos.

A história correu o Brasil no final do ano passado, mas infelizmente não é caso único. Ontem, ao olhar para o mais recente estudo nacional da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) sobre violência no namoro, dei por mim a relembrar-me da história desta adolescente ao perceber que, por cá, também o abuso online – que vai desde a partilha de conteúdos íntimos sem autorização à violação de contas privadas nas redes sociais – continua a ser uma realidade. Os dados revelados ontem são verdadeiramente inquietantes e, quer tenhamos filhos quer não, devem deixar-nos preocupados. Em última instância, porque são também estes adolescentes, que agora acham legítima a violência no namoro, os futuros adultos da nossa sociedade. Para onde caminhamos quando quase 70% dos miúdos inquiridos acham normais comportamentos abusivos em relações de intimidade?

Banalização da violência em relações de intimidade continua a ser muita

O estudo da UMAR – cujos resultados foram tornados públicos propositadamente no Dia de São Valentim – contemplou entrevista feitas a cerca de 4600 jovens, com uma média de idades de 15 anos. E eis um dado que é desde logo gritante: mais de metade dos jovens inquiridos com um relacionamento amoroso (passado ou atual) já tinham sido alvo de pelo menos um ato de violência no namoro. A violência psicológica surge no topo da lista, com insultos, humilhação e ameaças. Situações de ciúme e controlo (a proibição de estar ou falar com amigos imposta à vítima é a mais comum, tal como a crítica à roupa escolhida), violações de privacidade nas redes sociais, coação e violência sexual, agressões físicas e perseguições são alguns dos atos abusivos relatados pelos adolescentes. Podemos olhar para esta informação e ficarmos indiferentes? Espero que não. Se por um lado os números nos mostram que, muito possivelmente, os jovens admitem ter sido alvo deste comportamento porque já se identificam como tendo sido alvo de violência e abuso, por outro isto também nos mostra que esse mesmos atos são não só bastante comuns, como também começam em idades muito novas.

Contudo, não são é só na adolescência que estes dados são preocupantes. Também nos namoros do jovens adultos os dados do Observatório da Violência no Namoro mostram que a realidade se mantém grave: desde abril de 2017 até este janeiro de 2018, foram reportadas 128 denúncias de atos violentos, sendo a violência psicológica também a mais predominante (numa faixa etária com média de idades de 24 anos). Também ontem, avançava o JN que só no ano passado, a GNR recebeu 560 participações de casos de violência no namoro: 238 foram relativas a maus-tratos físicos ou psíquicos entre namorados e 322 entre ex-namorados.

Escusado será dizer que a banalização e legitimação da violência em relações de intimidade continua a ser mais que muita, e partilhada das mais diferentes formas, desde a indústria do cinema à da música, passando pelas piadinhas supostamente humorísticas que surge amiúde na redes sociais, por exemplo. Basta olharmos para os números da violência em relações de intimidade entre adultos para percebermos que continuamos a criar novas gerações que crescem a ter o abuso como exemplo dentro das próprias paredes da sua casa. As consequências estão à vista e merecem ações concertadas que visem uma maior e mais célere atuação, sensibilização e consciência para este tema.

Um bom exemplo é a campanha da APAV que também foi lançada ontem. É direcionada aos adolescentes, mas se penarmos na realidade global do nosso país acho que não se perde nada se a partilharem também com os adultos.

1
1