www.jornaldenegocios.ptJosé M. Brandão de Brito - 15 fev 10:26

O retorno da volatilidade

O retorno da volatilidade

Se o movimento de subida das taxas de juro se consolidar ou intensificar, mais tarde ou mais cedo começarão a aparecer fraturas no complexo financeiro das empresas e dos estados mais endividados.

A FRASE...

"Ações mundiais ensaiam recuperação após a pior semana em dois anos."

Reuters, 12 fevereiro de 2018 

A ANÁLISE...

A forte subida das taxas de juro americanas desde o início do ano desencadeou uma violenta correção nos mercados acionistas. Parece que alguém se lembrou de que o enorme endividamento global constitui uma fonte de vulnerabilidade que ainda só não se manifestou porque as taxas de juro estavam coladas a zero. Assim sendo, os mercados financeiros internacionais estão entre as proverbiais espada e parede: a manutenção de crescimentos robustos da atividade implica a normalização da política monetária e a consequente subida das taxas de juro, o que só não ocorrerá se o crescimento global soçobrar. Esta simples constatação seria suficiente para transformar a correção dos últimos dias num efetivo "bear market" acionista. Mas como as consequências do agravamento dos juros no terreno não são imediatas, é provável que a correção das últimas duas semanas seja interpretada como um evento de salutar retorno da volatilidade, após dois anos de acalmia sepulcral nos mercados. Neste caso, a subida das taxas de juro poderá ser tomada como uma validação adicional da saúde do ciclo expansionista global e o recente abanão sísmico das ações encarado como uma oportunidade de reforço do "bull market" - uma espécie de ida aos saldos. Mas se o movimento de subida das taxas de juro se consolidar ou intensificar, mais tarde ou mais cedo começarão a aparecer fraturas no complexo financeiro das empresas e dos estados mais endividados.

Consciente de que a história não se repete (e sem querer vaticinar seja o que for), os últimos dias nos mercados financeiros fazem-me recordar a queda do banco de investimento Bear Stearns em março de 2007: do mesmo modo que o desaparecimento do Bear Stearns foi um primeiro aviso de que algo de errado estava a acontecer no mercado "subprime" (e não só), também a sacudidela nos mercados acionistas à entrada de 2018 pode ser um primeiro aviso de que a subida das taxas de juro poderá ter consequências graves para uma economia mundial endividada até ao pescoço.

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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