observador.ptFilomena Martins - 15 fev 06:19

A nossa (grande) ‘Quadrilha’

A nossa (grande) ‘Quadrilha’

Não é estranho que nos últimos anos se tenham descoberto tantos suspeitos de crimes entre os mais poderosos do país? Eram todos bons rapazes antes ou só agora alguém teve coragem para os investigar?

Os atuais casos mediáticos em curso parecem aqueles filmes de categoria B. Os vilões são sempre os mesmos e às tantas já não percebemos quem fez o quê em qual enredo.

Quer fazer o teste? Experimente pensar nos vários poderosos protagonistas que estão a ser investigados ou até já foram acusados e dizer qual é o caso em que estão envolvidos. Conseguiu? Duvido. Além dos criativos nomes de baptismo do Ministério Público e da Polícia Judiciária, os cruzamentos, ligações, interseções, amizades, afinidades e compadrios são tantos, que parecem mesmo aqueles novelos de fios que se enrolam dentro da gaveta da arrecadação e depois não há tesoura ou alicate que os separe.

Quando pela primeira vez tentei desenrolar pontas, veio-me imediatamente à memória a ‘Quadrilha’ de Drummond de Andrade. Infelizmente, no milésimo de segundo seguinte o genial poema ficou completamente desapropriado. Para funcionar, teria de multiplicar os sete protagonistas originais aí por dez (pelo menos). E, nos processos em curso, nenhum deles é poético, com sentimentos de culpa ou necessidade de contrição espiritual como naqueles versos. Por cá, aliás, todos parecem ter saído a lucrar (muito), sem (nenhum) peso na consciência.

Comecemos pela Operação Marquês esquecendo todos os outros processos de suspeitas sobre José Sócrates que ficaram para trás. Aqueles que desvalorizaram investigações de jornais, cartas rogatórias de outros países e até a opinião dos maiores especialistas da PJ, destruídas a mando de quem não teve pruridos em estar na fila da frente da apresentação do primeiro grande sucesso de vendas solidárias promovidas pelo ex-primeiro-ministro. É que senão não saímos daqui hoje.

Ora a Operação Marquês, além de Sócrates, tem como epicentro Angola. Angola, onde, entre outros, Hélder Bataglia desempenhava um papel fundamental, como pivô da maioria das transferências que o Ministério Público pensa terem beneficiado o ex-PM. Bataglia que fundou com Ricardo Salgado o BES Angola (BESA), por onde passaram os maiores fluxos de dinheiro dos casos BES/GES e PT.  BESA que era liderado por Álvaro Sobrinho, um dos investigados do processo que tem Salgado como protagonista. Sobrinho que é também suspeito de estar envolvido na compra fraudulenta de apartamentos para Manuel Vicente, o ex-vice-presidente de Angola e figura central da Operação Fizz por alegadamente mandar corromper um procurador para arquivar processos contra si. Sobrinho que terá sido beneficiado num dos principais casos em que Rui Rangel, agora arguido na Operação Lex, terá interferido, revertendo uma decisão de Carlos Alexandre que lhe devolveu 30 imóveis arrestados avaliados em milhões. Rangel que foi o único juiz a dar razão a um dos muitos recursos de José Sócrates depois de o defender na televisão, sendo afastado, por isso, do processo. Rangel que também aparece no caso Rota do Atlântico, que envolve José Veiga, e ainda na investigação aos Vistos Gold, exatamente por causa de ligações a Angola.

E há ainda Carlos Silva, ex-líder do angolano BPA, inimigo de Sobrinho e do BESA, e também ex-vice presidente do BCP,  agora outro dos protagonistas centrais da operação Fizz. Que, segundo o advogado que defende os interesses angolanos, era com o advogado Proença de Carvalho figura central na alegada corrupção ao ex-procurador Orlando Figueira. Proença que foi advogado de Sócrates e de Salgado antes de se tornar presidente do Conselho de Administração do grupo de media que já teve Carlos Silva no conselho consultivo.

Confuso? Pois. É mesmo para ficar. Este artigo da Sónia Simões no Observador talvez o deixe ainda mais, mas tem lá todas outras pontas soltas deste novelo que me esforcei (juro!) por resumir.

Acresce a isto que a tal judicialização da política que agora a tantos preocupa (eu continuo a ver mais tentativas de politização da justiça) parece andar mesmo a jogar pingue-pongue com os muitos interesses de Angola. Já percebemos todos a importância para Portugal dos negócios, perdão, das relações diplomáticas com os angolanos. Uma diplomacia que começa nos jornais, passa pela banca e acaba nas grandes empresas. Mas é difícil não estranhar que depois da operação Fizz ter começado a apertar a malha a Carlos Silva, tenho vindo logo a Lex dar um novo safanão em Álvaro Sobrinho.

A outra coisa que ‘me faz espécie’ é que apenas nestes últimos anos, de repente, se tenham descoberto tantos suspeitos de crimes entre os mais poderosos do país. Eram todos bons rapazes antes ou só agora alguém teve coragem para os investigar? Bem, a partir de setembro teremos resposta.

Só mais duas ou três coisas…
  • António Costa não repropôs apenas à Europa uma proposta que já tinha sido feita por Passos. Além da ideia não ser original, o modelo ainda o é menos. Criar novos impostos, taxas e taxinhas quando há menos receitas é coisa velha e gasta, mas com resultado garantido. Estranho é que Costa queira taxar inovação, quando rejubila sem gravata no palco da Web Summit e transforma investimentos da Google e da Amazon em acontecimentos do ano. E desdenhe o investimento público tornando tabu o projeto do TGV que já foi a menina dos olhos de governos de que fez parte.
  • A NATO pediu. Azeredo acedeu. E a promessa foi imediata: Portugal vai apostar mais na Defesa e gastar 400 milhões de euros em cinco aviões. Os grandes amigos da NATO, também conhecidos como parceiros da Geringonça ou partidos que apoiam este Governo, ainda nada disseram.
  • Última nota para António Costa: agora que finalmente, depois das tragédias, parece preocupado no Inverno com os fogos do próximo Verão, era bom que começasse já a ter outra preocupação. Os últimos sismos são um alerta q.b. para ver o que é preciso fazer antes de procurar respostas debaixo dos escombros ou responder com falta de tudo a perguntas dos jornalistas.
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