visao.sapo.ptMiguel Araújo - 15 fev 08:35

Santos da Casa

Santos da Casa

Vi uma pessoa inteligente argumentar que não, nem pensar, não podia ser o Sting porque o Sting não come sandes de delícias do mar num centro comercial nas Antas

Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? (...)
Jesus lhes disse: “Só em sua própria terra, entre seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra”. Marcos 6:3,4.

Uma pessoa desdenha do que conhece. De quem conhece, porque santos da casa não fazem milagres. Dos lugares que conhece, em particular aquele onde se encontra num determinado momento, porque 
“o campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo”, como diz o velhinho Bernardo Soares no seu desassossego. 
É próprio do nosso pendor desconfiado. O que nos é familiar vem-nos deformado pela proximidade, vem em forma de espelho. Os que nos são próximos parecem-se demasiado com a nossa própria reles e pálida existência, a sua natureza mundana irmana por demais com a nossa própria, apanham constipações, aborrecem-se 
a ver o preço certo em euros, bebem cerveja portuguesa pela garrafa e vão ao cinema ao Arrábida Shopping ao domingo. O Sting foi visto no Dolce Vita das Antas, na véspera de atuar no Marés Vivas, em Gaia, e estava sozinho numa Pans & Company e eu, com estes próprios olhos que a terra há de tragar como se fossem os de um comum mortal, digamos por exemplo os olhos de um não-cantor famoso, vi uma pessoa inteligente argumentar que não, nem pensar, não podia ser o Sting porque o Sting não come sandes de delícias do mar num centro comercial nas Antas. Muito recentemente uma pessoa que eu conheço bem foi promovida a um alto cargo de administração de uma grande empresa e o coro dos indignados cantou o seu estribilho de incredulidade em uníssono de forma automática e imediata, em forma de sussurro surdo e à boca pequena, porque como é que era possível. E eu acho mesmo que não é inveja. É simplesmente isso: nós não toleramos ver um de nós levantar a garimpa simplesmente porque achamos impossível, como é que é possível se andou comigo na escola. O diagnóstico é definitivo: desconfiamos demasiado de nós próprios para achar sequer possível ou tolerável um dos nossos sair da casca. Nós somos as pessoas normais, não somos de aparecer na televisão nem em listas do jornal Expresso nem em nada disso. Acontece às vezes comigo: encontro um amigo de há 20 anos e de repente digo que estou na música, e que agora sou cantor e que até não me tenho dado mal e o olhar de incredulidade não tem nunca qualquer vestígio de inveja, é sempre o ar de um incrédulo “tu??? mas andavas na minha turma”. Ou então o contrário, ainda hoje um condutor do Uber que me apanhou achou impossível ser eu, o famoso astro, no carro dele. “O que é que você está a fazer no Porto?” Quando digo que moro aqui e que sou mesmo daqui, a surpresa é sempre total. É tudo natural. Eu também sou assim. Há certos cargos que eu não admito que sejam ocupados por pessoas de carne e osso, da minha criação, da minha escola, da minha igualha. Há certos postos de alta responsabilidade que eu só confio a desconhecidos, a seres mitológicos criados desde sempre para aquela digníssima, inacessível e inatingível função: pilotos de avião, condutores de veículos pesados e cirurgiões. Se algum amigo meu decide ir a esgazear no seu carro comigo a bordo, peço imediatamente para sair 
e ameaço que vou de autocarro. Só porque não conheço o condutor do autocarro. Se conhecesse, já não queria. Se vou ser operado a seja o que for, nunca na vida ninguém me apanha no bloco, prostrado e inerte, à mercê do bisturi de alguém das minhas relações. Até posso ter ido a uma consulta antes da operação, mas Deus me livre de saber que aquela douta entidade de bata branca e plaquinha na porta do consultório vai ao Arrábida Shopping, bebe cerveja pelo gargalo e tem qualquer espécie de vida que se assemelhe à minha.

(Crónica publicada na VISÃO 1301, de 8 de fevereiro de 2018)

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