www.publico.ptopiniao@publico.pt - 15 fev 06:26

Crónica. Barbas diferentes

Crónica. Barbas diferentes

A barba bem feita por um perito dá a impressão de renascer. Será que esta pele tão fofa é mesmo minha?

Tratar das extremidades sempre foi boa ideia. Fazer uma pedicura e manicura, ir a quem sabe cortar-nos o cabelo e fazer-nos a barba tem o efeito terapêutico de 20 chuveiros e cinco banhos de mar.

Em Londres até as pessoas mais ricas não têm paciência para ir ao barbeiro todos os dias. Fazer a barba num bom barbeiro custa 60 libras, mas recebem-se duas horas de mimos. A barba, depois de uma dezena de toalhas quentes, abandona a pele só com uma passagem ao de leve da lâmina.

Será que os pêlos da barba desapareceram para sempre?

Em Portugal ainda há o grande luxo de fazer a barba, cortar o cabelo e fazer uma manicura ao mesmo tempo pelo preço dum bom almoço. A diferença está na atitude. Aqui na Inglaterra é descaradamente um luxo: é-se tratado como um rei, sem qualquer pressa ou atalho.

Em Portugal fazer a barba num barbeiro ainda não deixou de ser uma necessidade. Paga-se muito menos, mas é-se despachado em pouco mais de meia hora. Não se evitam considerações morais sobre a dificuldade da nossa barba ou o estado a que deixámos chegar as cutículas. Não conseguimos levantar-nos da cadeira sem ter oficialmente prometido que não vamos deixar passar mais de três semanas antes de lá voltar.

O que não se paga pela barba é pago em reprimendas. “Olhe só para estas unhas!”, diz a senhora que teve o azar de nos atender. “Francamente: o que é que quer que eu faça com elas?” Afundamo-nos no cadeirão e morremos.

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