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Sabdro William Junqueira lido por Miguel Real

Sabdro William Junqueira lido por Miguel Real

JORNAL DE LETRAS Miguel Real fala sobre o novo livro de Sandro William Junqueira, Quando as Girafas Baixam o Pescoço este Outono.

Autor de três romances, O Caderno do Algoz (2009), Um Piano para Cavalos Altos (2012) e No Céu não há Limões (2014), subindo fortemente de qualidade literária do primeiro para os dois restantes, Sandro William Junqueira (SWJ) publicou agora Quando as Girafas Baixam o Pescoço este Outono.
Nos dois últimos romances, prenunciadas já no primeiro, SWJ criou sociedades claustrofóbicas, ditatoriais, verdadeiras distopias, desprovidas dos clássicos sentimentos humanos positivos, substituídos pela ferocidade racional e tecnocrática de um universo concentracionário. Exemplo: em Um Piano para Cavalos Altos, os chefes de uma sociedade fortemente hierarquizada, rodeada de muros, sustentada pelo medo, alimentam a população com empadas confecionadas da carne transformada dos mortos. Como já escrevemos: “SWJ evidencia-se, na sua ainda diminuta obra, como um mestre na criação de mundos reclusos, ditatoriais, despóticos, socialmente apodrecidos, ainda que virtuosamente perfeitos, mundos à beira do fim, frios”. Este seu novo romance narra a aplicação destes mundos tirânicos à vida individual das personagens, ou, dito de outro modo, de como o todo influencia, desorienta e perverte cada elemento constituinte do conjunto.
Assim, após dois romances distópicos, SWJ apresenta-nos agora os destroços soltos, avulsos, daquelas sociedades totalitárias. Se os anteriores romances possuíam uma unidade temática e uma estrutura coesa, este, ora publicado, vive, no presente, dos seus restos, uma espécie de ruínas da decadência e desagregação do todo social. Por isso, não é organizado por capítulos. Limita-se a reunir um conjunto variadíssimo de textos (cerca de cem) descrevendo episódios os mais banais dos habitantes de um bairro em torno da projetada construção do edifício, o lote número 17. Porventura, o autor quererá indiciar que já hoje, aqui, o racionalismo tecnocrático conduziu a uma sociedade autoritária, mesmo despótica, a que se opõe de um modo firme a atitude do “Velho”, depositando no buraco do estaleiro sementes de flores (p. 15). Porém, conhecendo-se a obra anterior do autor, pode – outra hipótese - entender-se o todo de Quando as Girafas Baixam o Pescoço como vestígios, destroços avulsos ou ruínas perturbadores das sociedades anteriormente descritas.
O homem é um ser altivo, digno, criador, psíquica e eticamente tão “alto” quanto as girafas, mas, como estas, tem, para sobreviver em certos períodos e em certas organizações sociais, de baixar o pescoço (notas sobre a girafa, p. 70). As personagens de Quando as Girafas Baixam o Pescoço sobrevivem ora um estado de letargia, como o “Homem Desempregado”, em estado de “inércia e desânimo” (p. 24), ora em estado de sonho, de ilusão, como o “Homem Que Gosta de Livros”, obcecado pela frase alheia "Viver é viver como viveríamos se vivêssemos" (p. 22).
A realidade é demasiado abjeta, atormentadora e sofredora para que seja vivida, todos tentam escapar-lhe, como as relações falaciosas entre o Pai e o Filho (pp. 28/29) ou entre Vera e Matias (pp. 30/34), ou o desejo ilusório, vão, de um futuro esperançoso do “Adolescente Musculado” ou o desejo absurdo da “Rapariga Magra” (pp. 67/68), ou a luta interminável (“guerra” escreve o narrador) entre as irmãs “Kátia com Kapa” e “Cátia com C de Cão” (pp. 104/106).
Assim prosseguem as inúmeras história deste romance, desenhando a vida “normal” das personagens, vida tecida, devido ao todo social, de verdadeira “anormalidade”. Os desejos não se realizam, a realidade (o tempo, a idade, a profissão, a família…), sempre enviesada, é um permanente obstáculo. Mesmo quando o cenário é de “beleza” e a atmosfera ridente, algo de torcido acontece que frustra o desejo e enraivece a multidão: “o Adolescente Musculado não estava satisfeito. Queria mais. Queria mais. Quero mais.” (pp. 58/59).
Ler Quando as Girafas Baixam o Pescoço é penetrar num universo de escuridão, de ruínas e escombros, de sombras que furtam a luz, onde “o tédio é lugar confortável” (p. 77) e o desejo máximo, “para finalmente alcançar a paz” (id.), consistiria em “ter aprendido na escola o método de fazer parar o coração apenas com a vontade”. Universo de escuridão não como anormalidade social, mas como profunda e tensa normalidade, subterrânea, que só a Literatura desvenda e revela: destroços de uma humanidade que se prometeu a si própria o paraíso e hoje habita entre as fogueiras do inferno.
Nota importante: é preciso revestir a mente de uma proteção especial antes de se começar a leitura. Caímos no perigo de entramos em depressão, prevendo a negridão do futuro.JL

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