eco.pteco.pt - 15 fev 14:37

“Facebook já não era motor importante de audiência da Folha”

“Facebook já não era motor importante de audiência da Folha”

Em declarações ao ECO, o editor executivo da Folha de S.Paulo fala sobre a decisão de parar de publicar conteúdo no Facebook: "Esperamos que o impacto não seja grande".
Sérgio Dávila, editor executivo da Folha de S. Paulo. Associação Nacional de Jornais/D.R. - Montagem por ECO

Na última vez que a Folha de S. Paulo partilhou um artigo no Facebook, foi para anunciar que aquele era o último. A publicação tem a data de 8 de fevereiro: “A Folha vai deixar de publicar conteúdo no Facebook esta quinta-feira. O jornal vai manter a sua página na rede social, mas não mais a atualizará com novas publicações”. Uma semana depois, o editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, explica melhor ao ECO o que esteve na base desta decisão.

Tudo começou com a decisão do Facebook de dar mais visibilidade às publicações de amigos e família nos feeds dos utilizadores, penalizando o conteúdo partilhado por empresas e órgãos de comunicação social. É uma tendência da rede social fundada por Mark Zuckerberg, que tem merecido críticas por parte dos publishers. Em causa, o facto de a esmagadora maioria dos jornais com presença online apostar no Facebook como um dos principais canais geradores de tráfego.

O problema é que essa fonte de visitantes para os sites tem vindo a secar. “A queda do tráfego gerado pelo Facebook começa em 2017, acentuando-se no início de 2018”, começa por dizer Sérgio Dávila, em resposta às questões enviadas pelo ECO. Diz que, em janeiro de 2017, o Facebook pesava em 39% nos acessos externos dos sites de media, valor que caiu para 24% em dezembro do ano passado, com base em dados da consultora Parse.ly. “Agora, passaremos a investir na presença em outras redes sociais. A tendência é que o tráfego ali aumente”, sublinha Sérgio Dávila.

Para o jornalista brasileiro, as mudanças que o Facebook introduziu no algoritmo que define o que aparece nos feeds chocam diretamente com os interesses dos meios de comunicação social. “Com a mudança no algoritmo anunciada em janeiro [de 2018], a rede social efetivamente baniu o jornalismo profissional das suas páginas. Não me parece a postura mais acertada para um gigante com dois mil milhões de utilizadores”, reitera o editor executivo da Folha.

Foi por isso que o maior jornal do Brasil decidiu suspender as partilhas de conteúdo na rede social, embora isso não impeça que os leitores, ou mesmo os próprios jornalistas, partilhem os conteúdos nos seus perfis pessoais.

Com a mudança no algoritmo anunciada em janeiro [de 2018], a rede social efetivamente baniu o jornalismo profissional das suas páginas.

Sérgio Dávila

Editor executivo da Folha de S.Paulo

“Esperamos que o impacto não seja grande”

Importa perceber que a decisão da Folha não vai eliminar totalmente o tráfego que o Facebook encaminha para o site do jornal, mas é expectável que esse tráfego, já em queda, caia agora muito mais.

O ECO confrontou Sérgio Dávila com esse facto, ao que o editor executivo responde: “Ainda estamos na fase dos primeiros levantamentos. Esperamos que o impacto sentido não seja grande”. E acrescenta: “O Facebook já não era um motor importante de audiência da Folha. Temos procurado diversificar as nossas fontes de audiência de maneira a não depender pesadamente de apenas um ator”. Sobre se a decisão foi unânime na redação, Sérgio Dávila não esconde que houve “críticas”: “Toda a decisão sofre críticas, mas eu diria que a maioria da redação apoiou a decisão”, afirma.

A decisão de um jornal “com 35 milhões de visitantes únicos por mês” pode parecer insignificante perante uma plataforma social com mais de dois mil milhões de utilizadores. Mas o editor executivo lembra um pormenor: “Trata-se do maior jornal brasileiro, do terceiro maior mercado mundial do Facebook”. E frisa: “Quantos mais produtores de jornalismo profissional deixarem de postar nas suas páginas oficiais, maior o impacto. Estima-se que um terço das partilhas no Facebook tenham como origem conteúdo jornalístico”, desafia Sérgio Dávila.

Toda a decisão sofre críticas, mas eu diria que a maioria da redação apoiou a decisão.

Sérgio Dávila

Editor executivo da Folha de S.Paulo

Facebook “parece perder” a relevância

O editor da Folha de S. Paulo alinha também com a ideia de que a rede social Facebook “parece perder” relevância, uma ideia suportada por “estudos recentes” e números da própria empresa.

“Dados divulgados pela rede social no começo do ano dão conta de uma queda de 50 milhões de horas no tempo gasto por utilizadores dos EUA e Canadá no último trimestre de 2017. É a primeira vez na história da empresa que isso acontece. E o levantamento da consultora eMarketer calcula que 2,8 milhões de usuários com menos de 25 anos deixaram a rede nos EUA em 2017. Para 2018, prevê-se que outros dois milhões deixarão a rede”, indica.

Por fim, o ECO questionou Sérgio Dávila sobre como é que o Facebook poderia ser mais favorável aos criadores de conteúdo, como os jornais. O editor executivo tem a resposta bem pronta: “Facilitando a distribuição de conteúdo pelas empresas jornalísticas, remunerando-as por isso”. Não é pedir muito? Sérgio Dávila crê que não. E pergunta: “O pleito não é descabido: se um terço das partilhas partem dos conteúdos jornalísticos, quanto é que o Facebook fatura a partir de conteúdo alheio? É de graça?”.

Atualmente, a publicação no Facebook em que a Folha de S. Paulo anuncia a suspensão da atividade na rede social é dos artigos com melhor performance na página do jornal. Foi partilhado mais de 2.600 vezes, conta com mais de 13.000 reações e acumula mais de 4.300 comentários. Isto, numa página que acumula cerca de 5,95 milhões de seguidores. Para comparação, é mais do dobro dos seguidores registados pela maior página de um jornal em Portugal.

O jornal continua ativo, por exemplo, no Twitter, onde tem um público ainda maior do que o que tem no Facebook na conta principal: são 6,21 milhões de seguidores. O grupo tem ainda outras contas temáticas na rede social do pássaro azul e é também através do Twitter que presta apoio aos leitores, numa conta dedicada ao atendimento.

Posto isto, fica a faltar saber quem vai ganhar este confronto entre os media e as redes sociais. Será David? Ou será Golias?

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