blitz.sapo.ptRui Miguel Abreu - 14 fev 17:48

Mulheres em força no cartaz do Bourse Rideau, festival que decorre no Canadá

Mulheres em força no cartaz do Bourse Rideau, festival que decorre no Canadá

Enquanto na Europa se discute igual destaque para o talento feminino nos cartazes dos diferentes festivais, no Quebec aponta-se ao futuro com um evento recheado de mulheres com propostas artísticas originais

Sem que haja qualquer tipo de emblema ou de slogan a apontar para uma qualquer estratégia de afirmação pela positiva, a verdade é que as mulheres parecem ter uma clara posição de destaque no cartaz do Bourse Rideau, festival que arrancou em Quebec City, no Quebec, Canadá, e que se prolonga até amanhã.

Depois de mais de três décadas de trabalho na afirmação colectiva das artes numa perspectiva cooperativa em torno da francofonia, parece natural esta afirmação do talento feminino. Na abertura do certame discursou Mélanie Joly, a Ministra do Património do Canadá, e ontem mesmo, no arranque da feira de editores, agentes e promotores de espectáculos de que se faz também o Rideau, esteve presente - e discursou - a Ministra da Cultura e das Comunicações, Marie Montpetit . Num país cujo governo conta com uma elevadíssima percentagem de mulheres com cargos ministeriais, não é de espantar que essa mesma tendência se reflita num cartaz de um festival que pretende ser montra da cultura francófona.

Ontem mesmo, houve espaço, no Teatro Petit Champlain, situado numa pitoresca rua do mesmo nome onde se parece viver eternamente num cenário de Natal, para duas incríveis actuações de duas igualmente talentosas cantoras, mas com estilos e artes muito diferenciadas. Primeiro subiu ao palco Lior Shoov, cantora israelita que há seis anos reside em França país onde, cantou ela, “aprendeu a língua e todas as nuances dos sons”. Numa atuação plena de humor e de inteligência, Lior usou todos os recursos da sua voz - cantada, sussurrada, os estalidos e demais sons que se podem fazer com a boca, incluindo beatbox - e do corpo, usando-o como instrumento de percussão. A isto acrescentou instrumentos tradicionais como a marimba ou diferentes tipos de cavaquinho e alaúde, brinquedos e até um saco de plástico das compras para cantar de forma altamente emotiva canções sobre a guerra e a paz, sobre o amor e a sua ausência.

Lior Shoov

Lior Shoov

Llamaryon/ Marion Desjardins

Depois, do Reino Unido, chegou Ala.Ni. Em frente de um microfone clássico que é icónico por, por exemplo, surgir em fotos de Billie Holiday - e talvez por isso Ala.Ni o tenha escolhido... - e com a ajuda de Marvin Dolly na guitarra, a cantora exibiu uma espantosa voz que navega entre a soul e o jazz como se não conhecesse mais nada, sempre com canções em torno do amor, mas com um estilo de entrega que não descura o humor como ferramenta de sedução do público. Ala.Ni citou Whitney Houston e Richie Havens, falou das Caraíbas e das praias com coqueiros para se queixar do frio extremo, e conquistou todos os presentes, sem apelo nem agravo.

Ala.Ni

Ala.Ni

Llamaryon/ Marion Desjardins

A noite não se concluiu sem, já no Imperial Bell, ver os belgas Dan San - que também incluem um membro feminino - a oferecerem-nos uma versão muito interessante do som “indie”, com óbvias vénias aos Fleet Foxes, mas também suficiente caráter próprio para merecerem a nossa atenção, e ainda as Chances, duo de Geneviéve Toupin e Chloé Lacasse que, ao vivo, aumenta o poder da sua pop de recorte electrónico com um baterista em palco. Canções orelhudas para a geração Spotify. Pode muito bem resultar.

Chances

Chances

Llamaryon/ Marion Desjardins

Todo este talento feminino faz parte de um cartaz em que já tinham brilhado artistas como Maude Audet, Elisapie, na primeira jornada do festival, a trompetista Rachel Therrien, a cantora de jazz Andrea Lindsay ou Julie Aubé, voz das populares Hay Babies, agora a solo. E há muito mais mulheres nas outras áreas - do teatro ou da dança - num cartaz que faz afinal o que se discute neste momento na Europa, dar destaque ao talento independentemente do género.

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